quarta-feira, 7 de maio de 2014

Além da Terra Devastada. VII

Chove lá fora. Muito. Uma tempestade.
Sentado na cama de Carla tomando uma xícara de chá forte, amargo e escuro, tento organizar as idéias e as palavras para começar a contar e tentar compreender esses últimos dias. Carla estava dormindo quando bati na sua janela, e só topou me deixar entrar por que o céu fazia estrondos realmente assustadores.
Agora que a xícara aquecia minha mão, Carla me olhava daquele jeito atento e respeitoso que sempre fazia quando me ouvia. Era bom poder contar a alguém o turbilhão de sensações, de frio e medo que eu vinha sentindo, se bem que o frio era causado na maior parte pela tempestade.
"Então, o que tá acontecendo Lúcio?"
Nessa hora eu tomei um último gole do chá e falei. Falei sem parar durante o que pareceram horas. Quando terminei, Carla não parecia nem um pouco assustada, perplexa, ou abalada, adjetivos que eu vinha guardando para ela quando ouvisse a história toda. Pelo contrário. O modo como ela andava de um lado para outro sugeria que sua mente trabalhava naquilo que eu "carinhosamente"chamava de Furacão Carla.
"Carla, você quer parar um pouco e me dar o apoio e atenção que, como minha melhor amiga, deveria dar?"
"Eu quero, mas antes preciso que você ouça o que eu vou contar. Há alguns meses eu fui enviada para um setor que não conhecia, fui mandada para a biblioteca central, onde os documentos e arquivos das Missões em todo o mundo são compilados, analisados e salvos. Quando eu estava lá, acabei sendo transferida para um setor onde os documentos que não tinham mais utilidade eram destruídos e mandados para uma usina de reciclagem. Era um trabalho chato e monótono. Até que os documentos vermelhos começaram a chegar numa tarde, e meu coordenador ficou muito, mas muito nervoso. Ele me mandou ir fazer um lanche e se trancou na sala de descarte. Ficou lá por um bom tempo. Depois ele saiu e tudo o que havia nas caixas de detrito era um monte de confete vermelho. No dia seguinte ele não foi trabalhar, e alguns soldados da Força de Estabilidade Social entregaram uma caixa e ficaram lá, aguardando, enquanto eu destruia os arquivos. Mas não foi bem isso que eu fiz. Eu consegui esconder duas pastas de arquivos enquanto eles não olhavam, e trouxe pra cá. Acho que eu posso responder por que essas coisas estranhas aconteceram com você. E, seguindo os arquivos, não é só com você, e não é só agora. É algo maior, algo que nós não estamos sem perto de entender".
"Mas o que isso tem a ver comigo? Que pastas são essas?"
Então ela parou, levantou o tapete que havia no meio do quarto, e de um alçapão debaixo dele tirou duas pastas de arquivo vermelhas, e jogou no meu colo. Elas tinham o brasão das Missões Humanitárias na capa, e logo abaixo a inscrição "PRIORIDADE ZERO". Quando abri a primeira, entendi por que ela tinha a ver comigo. Debaixo de um cabeçalho que detalhava ações de um grupo de rebeldes na Cidade de Areia, que fica às margens de um deserto e é uma das 10 nações. Obviamente eu nunca tinha ouvido falar nisso, e pelo visto Carla também não, afinal não há por que existir conflitos entre as nações. Mas o que me chamou atenção e surpreendeu de verdade foi a segunda pasta. Nela, várias fichas listavam o que o relatório chamava de Comando Rebelde. E no comando, o meu irmão.
"Isso é verdade?" perguntei enquanto encarava uma Carla atenta e apreensiva.
"Parece que sim. Um dos últimos documentos da primeira pasta é um relatório sobre um confronto que acontece há alguns anos já".
"Mas como não sabemos disso? As nações não podem simplesmente estrar em guerra e ninguém ficar sabendo. Eu estive na cidade da Nação do Norte há menos de uma semana, e tava tudo bem por lá, e o meu irmão, ele...ele..."
"Mas não são as nações que estão em guerra, Lúcio. Se fosse, talvez a situação fosse menos pior. As Missões Humanitárias estão em guerra com um grupo rebelde, liderado pelo seu irmão. É uma guerra que as Missões insistem em manter secreta, por que as Missões, Clara, ela vem fazendo uma coisa horrível, ela' - Mas Carla não teve tempo de contar o que quer que as Missões estivessem fazendo, por que nessa hora um estrondo, mais forte e mais próximo que os trovões, fez o prédio chacoalhar.