O que se estende à minha frente poderia muito bem ser classificado de imponente. É um prédio de três anadares, cinza e azul, com um portão grande de ferro. Feio. E então o portão se abriu e eu mudei de ideia. O portão dá para um pátio imenso e arborizado, com bancos e algumas áreas circulares cercadas por banquinhos de concreto baixos e simples.
"Olá. Obrigado por se juntar à nós Lúcio!"
É um senhor atarracado, e meio efusivo demais, que me acena com um sorriso cheio de dentes.
"Ah, olá Sr. ...?"
"Alfredo. Mas, por favor, sente-se". Ele me puxa para debaixo de uma árvore e um dos bancos de concreto vem flutuando até nós e aterriza delicadamente no chão.
"Então você é um jovem telepata? Me lembro da sua mãe quando se mudou para a Cidade de Vidro. Ela mal sabia do que era capaz! Mas logo ela se tornou um prodígio aqui na Academia".
"Hum...Academia?"
"Imagino que ela não tenha te explicado! Esse lugar é chamado apenas de A Academia. É aqui que Controladores são treinados para aprender a usar seus talentos. Muita gente já passou por aqui, sabe, e é ótimo poder te receber!"
"Então, que tipo de treinamento acontece aqui?"
"Bem, depende do seu talento. Como você é um Telepata, vai aprender a controlar suas emoções, mover objetos, o básico. Você também pode escolher aprender mais alguma coisa, que complemente seu talento, como influenciar os elementos, ou técnicas de combate para os Controladores que possuem talentos mais físicos, e ciência avançada para os super inteligentes. Mas não se preocupe, você vai encontrar algo interessante, tenho certeza!"
"O.k. Então, por onde começo?"
"Bem, sua mãe já esteve aqui e já conversamos. Por que não começa com o básico? Hora de mover objetos com a mente. Vou apresentar seu instrutor, Thales".
À menção do nome, um cara alto, de pele curtida pelo sol com tatuagens nos braços surge das sombras perto de nós. Ele tem um olhar penetrante, e os cabelos raspados. É mais velho que eu, mas algo nele me sugere rebeldia e indignação.
"Bem vindo à Academia. Sou Thales, e serei seu instrutor. Me acompanhe".
Ele não parece muito de papo, e as tatuagens parecem um sinal claro de perigo. Ele entra em um elevador e eu vou junto. Chegamos ao terraço da Academia e ele aponta para uma pedra posicionada no centro de um círculo vermelho do meu lado direito.
"Sua primeira tarefa é mover aquela pedra para fora do círculo".
"Mas eu não consigo mover objetos assim. Eu só..."
"É claro que consegue, basta se concentrar. Agora sente-se no chão".
A manhã clara e alegre foi substituída por um sol escaldante. É quente demais aqui em cima, e o chão ferve sob mim.
"Eu não consigo fazer isso!"
"Consegue sim. Se concentre na pedra! Libere sua mente!"
Como se fosse algo simples assim. Como esse cara se dá o direito de me tratar assim?
"Anda, eu não tenho o dia todo! Se demorar você vai ficar sem almoço!"
"Hey, você deveria ser algum tipo de instrutor. Instrutores ensinam, não tentam nos obrigar a sair por aí movendo pedras com a mente debaixo de um sol como esse!"
"Infelizmente pra você, é desse jeito que eu ensino, e você vai ter que aprender".
Nessa hora eu já estou de pé, encarando-o. Não que seja uma boa ideia fazer isso, mas não dá mais pra ficar sentado ouvindo esse cara me tratar desse jeito. Ninguém me trata assim.
"Olha aqui, se for pra ser desse jeito eu vou dar o fora, ok? Ninguém age assim comigo".
Quando dou as costas, ele segura meu braço direito, com força, e me faz parar.
"Solta".
"Não".
"Me solta agora".
"Não".
"ME SOLTA!" - bum!
Nessa hora a pedra sai voando do centro do círculo e passa muito, muito perto da cabeça dele, se chocando contra a parede próxima causando a ela uma rombo considerável. Espero que ninguém tenha se machucado. Thales me encara, seu olhar é zangado, mas ao mesmo tempo tem algo de fascinado.
"Tarefa concluída. Pode ir agora. Nos vemos novamente amanhã de manhã".
Chega. Os últimos dias tem sido demais pra mim. Preciso encontrar Carla, e contar tudo a ela. Preciso desabafar. E preciso aprender a controlar a telecinese antes que mate alguém.