Havíamos passado a madrugada acordados, sem dormir por causa da inquietação e do
medo, e também sem dormir por causa do plano mirabolante que Julius e Carla tinham
arquitetado. O sol já ia alto e forte, cobrindo a Cidade de Vidro de uma luz agradável,
que sempre me encantou no lugar. Agora, a luz me inspirava medo de ser descoberto.
Repassamos novamente o plano abrigados no mesmo beco onde fui sequestrado pelo
cara do vídeo, com Julius pingando sangue pelo braço direito, onde ele mesmo havia
feito um corte usando bisturi, e Carla parecendo uma velha, usando roupas antigas
que encontramos no centro de saúde abandonado. Eu estava usando um casaco com capuz,
e mantinha a cabeça baixa. Àquela hora, não havia muita gente nas ruas,
estavam todos em seus postos de trabalho ou centros de estudos.
“Muito bem, todos se lembram do plano?”
“Sim.”
“Sim.”
“Muito bem, Carla, vá na frente. Lúcio, esperamos alguns minutos e depois saímos.”
“Ok.”
“Se cuidem meninos, não entrem em nenhuma enrascada”.
Depois do que pareceram horas, Julius e eu saímos do beco. Ele vinha apoiando seu
braço esquerdo no meu ombro direito, enquanto seu outro braço pendia balançando
no ar, gotejando um pouco de sangue através do curativo propositalmente mal feito
que cobria o corte.
“Olá, em que posso ajuda-los?”
A atendente vestia um avental rosa claro e trazia um sorriso no rosto. Ao seu lado, no
balcão, uma xícara fumegante de café impregnava o ambiente com aquele cheiro forte
e familiar, da cozinha da minha mãe.
“O meu primo resolveu que sabia cozinhar, e caiu no chão com uma faca na mão”, eu
disse, sem olhar nos olhos dela.
“Ah, ok. Por favor, seu nome?”
“Ah, é Paulo. Paulo Roberto”, mentiu Julius enquanto ela fazia anotações numa
prancheta digital.
“Me acompanhe, sim? Mocinho, você pode ficar aqui na recepção e esperar”.
Assim que eles dobraram o corredor à direita do balcão, me esgueirei pelo corredor da
esquerda o mais rápido que pude. No final do corredor, como Julius havia dito, estava
um vestiário grande, todo pintado de azul. Nas araras, vários uniformes, organizados
por tipo de trabalho. Julius realmente sabia o que estava dizendo, pois numa das
araras à esquerda da porta principal estavam pendurados vários uniformes
da equipe de transporte de medicamentos, que traziam remédios do centro de distribuição
abaixo da torre principal das Missões e faziam a distribuição pelos centros de saúde
espalhados pela cidade e nas vilas ao redor. Tirei minhas roupas, vesti o macacão,
coloquei a touca e escondi bem meus cabelos. Encontrei óculos de proteção, escuros,
numa prateleira anexa à arara e saí. Foi simples sair do hospital e entrar no centro de
distribuição, os corredores do subsolo eram largos e muito bem sinalizados. Quando
achei que já tinha andado o suficiente, encontrei alguns trabalhadores saindo de um
grande elevador no final de um corredor todo branco. De cabeça baixa, me esgueirei
entre eles, que quase não notaram minha presença, pois estavam ocupados demais
manobrando caixas flutuantes. Entrei no elevador, me virei para o painel de vidro e
cliquei no botão para subir. A viagem, silenciosa, parecia ter congelado o tempo, como
no incidente com a bala na janela de Carla. Isso só serviu para aumentar meu
nervosismo. Quando as portas do elevador se abriram, repassei o plano mentalmente.
“Enquanto eu vou até uma das bibliotecas menores, onde não corro o risco de ser
rastreada, vocês vão até o Centro de Saúde. Como o Julius explicou, vai ser fácil você
chegar até a Torre principal. Na biblioteca eu vou poder me conectar ao sistema e
liberar o verme pra extrair informações dos servidores das Missões. Julius, quando
você tiver com o braço ok, você vai até a casa do Lúcio e tira a mãe dele de lá. É
simples, fácil e não tem como errar, se fizermos tudo direitinho. Quando Lúcio estiver
na Torre, eu já devo ter conseguido entrar no sistema, então vou poder saber onde
você vai estar, e isso pode ser útil no caso de uma fuga”.
Se eu tivesse com sorte, nesse momento Carla estaria me observando, Julius estaria à
caminho da minha casa, e eu à caminho de um encontro com Clara. O Centro de
distribuição de medicamentos era um enorme complexo abaixo da Torre principal da
Cidade de Vidro. Do outro lado estava o elevador que dava acesso aos andares que
ficam acima do subsolo. Quando cheguei a ele, um painel com uma luz vermelha
indicava que precisava de autorização para usá-lo. Nem bem havia me aproximado do
painel quando o elevador, vazio, se abriu. Entrei com uma certa relutância, mas assim
que as portas se fecharam um retângulo holográfico apareceu flutuando à minha
frente. Era Carla.
“Cara, por que você me assustou desse jeito?”“Não encana, Lúcio, eu estou te ajudando, ok?
O Julius acabou de chegar na sua casa, ele encontrou sua mãe no caminho, e eles estão conversando.
Eu consegui abrir um canal de comunicação com eles na sala da sua casa, então estamos pensando num
plano juntos. O verme voltou pro ponto de origem dele, o computador central no
andar do escritório da Clara, e isso foi muito bom, por que agora tenho controle sobre
os sistemas do prédio. Estou tentando usar o verme pra invadir o banco de dados, mas
ainda não consegui. Eles tem um sistema muito avançado”.
“Tá bem. E você já pensou no que fazer depois? Para onde você e Julius irão? E a
minha mãe?”
“Bom, acho que consegui bolar um plano B. A Cidade de Gelo. Como ela é uma das
poucas cidades-nação completamente autossuficiente, é pra lá que vamos. Eles não
estão muito preocupados com as Missões, até por que não dependem da Clara pra
sobreviver, e é campo neutro. Tem um deslizador programado para fazer a viagem
para lá ainda hoje, mais tarde. Programei novas tags de identidade para nós quatro, e
nos coloquei na lista”.
“Olha, você sabe que eu não vou conseguir voltar não é?”
“Sim, eu sei. Por isso preparei algo pra você. Encontrei por acaso enquanto vasculhava
as instalações da Torre. Alguns andares abaixo do andar onde estão a Clara e os
servidores, tem um centro de pesquisa enorme. É claro que aproveitei pra conseguir
alguns brinquedinhos. Eles desenvolveram um novo tipo de cubo de dados, mais
potente, e que não precisa ficar sobre nenhuma superfície pra ser usado, por que ele
flutua e reponde muito mais rápido, por que fica conectado na mente do usuário por
uma tiara. Consegui manipular algumas ordens, e ele deve estar sendo entregue agora
aqui pra mim. Pra você eu reservei uma pulseira que agrega algumas funções de um
cubo de dados comum. Comunicação, acesso à rede de dados, navegação, etc. Quando
o elevador abrir, você vai reto e vira no segundo corredor à direita. Alguém vai estar de
te esperando”.
“E do que isso vai adiantar? Não é pra isso ser algum tipo de missão suicida?”
“Não se eu não permitir, seu cabeça oca! A pulseira vai servir pra te rastrear e entrar
em contato com você”.“Ótimo, você vai poder acompanhar minha execução”.
“Mas ela não vai te matar, Lúcio”.
“E por que não, se eles já tentaram fazer isso?”
“Por que eu consegui acessar os registros do computador dela. E ela precisa de você”.
***
Carla tinha razão, pra variar. A pulseira feita de metal negro como a noite cintilava no
meu pulso direito, enquanto Clara me encarava recostada em sua mesa. A cena
parecia a mesma de tantas outras vezes em que estive ali, ouvindo conselhos,
recebendo treinamento, ajudando-a a decidir a melhor maneira de implementar novos
projetos humanitários. Mas não era mais do mesmo. Eu podia ver o ódio em seu olhar
faiscante, ódio que ela tentava esconder sendo gentil e amável comigo. Mas eu
também não sou mais o mesmo. Em mim ardia uma raiva quente e borbulhante, uma
vontade de entender o por que de tudo isso. A pulseira vibrou em meu pulso,
indicando que Carla ainda esta ali, me dando apoio moral.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Além da Terra Devastada. X
“Sabe, eu não sei o que está acontecendo, mas não vai dar pra ficar aqui por muito
tempo. Se estão mesmo procurando vocês dois, esse não é o lugar mais seguro do
mundo. Vocês precisam sair da Cidade de Vidro”.
Julius e Carla estavam nessa conversa há algum tempo já, pensando numa forma de
descobrir por que fomos atacados e ainda sair vivos dessa.
“Mas pra onde nós iríamos, Julius? Pra onde você iria? E ainda tem a mãe do Lúcio.
Não podemos simplesmente sair da cidade de vidro pelos portões da frente, deixando
vocês. Precisamos de uma alternativa, e precisamos de informação. Informação é a
chave, esse é o lema das bibliotecas.”“Só que você não tem conseguido muita coisa, além dos arquivos vermelhos né? E
aquela coisa, o tal verme de rastreio, não serviu de nada né?”
“Bom, eu estou tentando, mas ele tem uma estrutura muito complexa. O Cubo está
rodando um filtro em volta dele, pra tentar conseguir desconectá-lo de vez. Quando
ele terminar, vou poder entrar na programação e usar o verme pra invadir o sistema
de volta”.
“E enquanto isso o que nós fazemos, Carla? E você, Lúcio, o que diz a respeito?”
“Eu, ...eu sei o que fazer. Eu vou até a Clara. Eu vou entrar pela porta da frente!”
“Você tá maluco Lúcio? Aquela mulher mandou te matar!”
“Mas foi ela que me recrutou, ela me treinou, ela me ensinou o que são as Missões, ela
me mostrou a importância de ajudar os outros, de ser honesto e sincero. Ela não pode
simplesmente ignorar isso”.
Julius apenas olhava de mim para Carla, e não falava nada. Carla parecia nervosa. Um
apito suave, porém constante, chamou nossa atenção. O verme vermelho tinha ficado
azul dentro da caixa holográfica suspensa.
“Ótimo consegui invadir. O cubo já programou o Verme pra viagem de volta, mas ainda
não consegui conectar”.
“Viu? É um beco sem saída, Carla. Eu preciso ir até a sede e conversar com a Clara”.
“Bom, se você vai, vamos precisar de um plano”.
tempo. Se estão mesmo procurando vocês dois, esse não é o lugar mais seguro do
mundo. Vocês precisam sair da Cidade de Vidro”.
Julius e Carla estavam nessa conversa há algum tempo já, pensando numa forma de
descobrir por que fomos atacados e ainda sair vivos dessa.
“Mas pra onde nós iríamos, Julius? Pra onde você iria? E ainda tem a mãe do Lúcio.
Não podemos simplesmente sair da cidade de vidro pelos portões da frente, deixando
vocês. Precisamos de uma alternativa, e precisamos de informação. Informação é a
chave, esse é o lema das bibliotecas.”“Só que você não tem conseguido muita coisa, além dos arquivos vermelhos né? E
aquela coisa, o tal verme de rastreio, não serviu de nada né?”
“Bom, eu estou tentando, mas ele tem uma estrutura muito complexa. O Cubo está
rodando um filtro em volta dele, pra tentar conseguir desconectá-lo de vez. Quando
ele terminar, vou poder entrar na programação e usar o verme pra invadir o sistema
de volta”.
“E enquanto isso o que nós fazemos, Carla? E você, Lúcio, o que diz a respeito?”
“Eu, ...eu sei o que fazer. Eu vou até a Clara. Eu vou entrar pela porta da frente!”
“Você tá maluco Lúcio? Aquela mulher mandou te matar!”
“Mas foi ela que me recrutou, ela me treinou, ela me ensinou o que são as Missões, ela
me mostrou a importância de ajudar os outros, de ser honesto e sincero. Ela não pode
simplesmente ignorar isso”.
Julius apenas olhava de mim para Carla, e não falava nada. Carla parecia nervosa. Um
apito suave, porém constante, chamou nossa atenção. O verme vermelho tinha ficado
azul dentro da caixa holográfica suspensa.
“Ótimo consegui invadir. O cubo já programou o Verme pra viagem de volta, mas ainda
não consegui conectar”.
“Viu? É um beco sem saída, Carla. Eu preciso ir até a sede e conversar com a Clara”.
“Bom, se você vai, vamos precisar de um plano”.
Além da Terra Devastada. IX
“Lúcio, você pode me ouvir?”
Era Julius, me chamando, ao longe. Parecia longe pelo menos. Muito longe. Aos
poucos fui recobrando a consciência do meu corpo e da realidade. Tentei me levantar,
mas Julius me impediu.
“O que- oque aconteceu?”
“Bem, você pôs abaixo aquela escada, e depois desmaiou. Sangrou também pelo nariz,
um pouco.”
Ele me olhava com preocupação. Sua pele marrom avermelhada brilhava coberta de
suor, e seus cabelos escuros, densos e lisos não apresentavam o brilho de sempre,
nem a organização. Ele parecia um pouco assustado, e seus olhos escuros como a noite
pareciam ainda mais negros.
“E onde a gente está?”
“Num Centro de Saúde abandonado, na zona oeste da cidade. Eu trabalhava aqui, mas
o Centro foi fechado após a construção de um novo conjunto de prédios de habitação,
e os moradores foram transferidos pra zona sul. Ainda bem que os geradores não
foram tirados daqui, então temos água, energia, conexão à rede das Missões e
comida.”
Essa era uma das coisas que mais me admirava em Julius. Ele era sonhador,
desenhista, gostava de música, mas também tinha o senso prático de um enfermeiro
das Missões.
“Lúcio, beba um pouco de água, a Carla está na outra sala, usando o cubo pra entrar
nos sistemas da cidade”.Quando Julius me soltou, levantei e peguei o copo de água na mesa ao lado da maca.
Um esparadrapo pendia do meu nariz com uma quantidade até generosa de sangue.
Eu realmente devo ter me excedido, mas nem sei direito controlar esse lance da
telecinese. Ótimo, um controlador que não sabe controlar nada. Piada do dia.
“Mas que droga!” – Era Carla. Atravessei o corredor até a sala adjacente; seu cubo de
dados estava ativado, projetando um holograma que ocupava boa parte da sala. Carla
estava com a palma direita sobre um quadrado pequeno e vermelho à sua frente, com
certeza tentando se conectar.
“Ah, oi Lúcio, melhorou? Estou tentando entrar no banco de dados da Sede, mas não
tenho mais permissão. O sistema das bibliotecas continua online, mas tem um
programa me rastreando. Eu consegui isolar ele e estou tentando invadir a
programação pra usá-lo contra eles”. Num movimento brusco, Carla correu os dedos
pelas janelas abertas e agarrou uma caixa azul brilhante de holograma. Através das
paredes do holograma se agitava uma espécie de verme tecnológico tentando quebrar
as paredes, mas o cubo de Carla continuava reforçando o cubo. Carla criou um cubo
maior com poucos gestos, jogou o verme dentro e o trancou.
“Cara, o que você tá fazendo? Por que tá tentando invadir os dados da Sede? E, ah, eu
estou bem sim”.
“É simples Lúcio: se você não entendeu, estamos sendo caçados pela FES! Invadiram
minha casa, atiraram em você, você quase morreu, NÓS quase morremos! Eu não vou
deixar barato!”. Na hora do “nós”, seus olhos se encheram de lágrimas, e Carla
finalmente desabou. Meio que eu já esperava por isso, então puxei uma cadeira para
que ela se sentasse.
“Aquela coisa – e apontou para a caixa – atacou meu cubo na hora em que conectei. Se
eu não estivesse esperando algo do tipo, eles já teriam pego a gente, e estaríamos
mortos, por algo que a gente nem entende direito, Lúcio!”
“ E o que você me sugere, Carla?”
“Eu acho – não, eu tenho certeza, que precisamos descobrir por que a FES foi enviada,
e mais importante, QUEM a enviou. Espera”. Ela foi em direção à mochila azul sobre a mesa ao lado do Cubo e puxou os arquivos vermelhos. Espalhou na mesa e girou o
cubo na direção deles. Imediatamente o aparelho preto e brilhante começou a
digitaliza-los.
“A propósito, obrigado por pegar a foto também. Você foi demais aquela hora. Agora,
eu vou te mostrar o que tem nesses arquivos!”
Era determinação o que eu via no olhar dela.
“Bem, vamos do começo: Cubo, abra o arquivo com data mais antigo, e amplie. Modo
de análise de dados”.
A caixa com o verme foi para segundo plano e, no ar à minha frente, cubo projetou
uma arquivo com data de 10 anos atrás. A data foi destacada em vermelho, e à uma
ordem de Carla, o texto foi ampliado e o cubo começou a destacar palavras conforme
ela ia correndo os dedos pela projeção.
“Lúcio, esse arquivo é de uns dez anos atrás. A Nação do Leste convocou as outras
Nações e a dirigente das Missões, Clara, para uma espécie de convenção. Eles
proporão extinguir as Missões e a FES, e estabelecer uma força conjunta, comandada
pelas Nações para agir restaurando partes devastadas do planeta. Mas a Clara não quis
isso, e foi apoiada pela Nação do Norte. Nessa hora, ela chantageou as Nações com um
contingente enorme da FES formado por especialistas em combate e controladores.
Houve uma série de ataques terroristas orquestrados pela Clara, tudo para continuar
no poder. Segundo ela as Nações não estão prontas para se cuidarem sozinhas. Cubo,
execute o arquivo de vídeo anexado na página doze”.
O texto deu lugar a uma tela preta, que imediatamente foi substituída pela imagem de
uma sala grande, oval, com balcões de pedra dispostos em círculo. No centro, em um
púlpito, Clara olhava duramente para os líderes das 10 Nações humanas, que
esbravejavam com ela:
“Meus caros, as Nações não estão prontas para sobreviver e cuidar do mundo e de si
mesmas sem o apoio das Missões. É inadmissível que vocês pensem em suplantar
nosso sistema que tem funcionado por gerações! As Missões só querem o bem para a
humanidade, e pelo bem da humanidade não deixarei que vocês subjuguem nosso poder. Não podemos deixar que o homem volte a destruir a si mesmo e à humanidade,
como nos tempos passados. As Missões são a única coisa, a única barreira que impede
a humanidade de cair do abismo da sua auto destruição!”
“Eu concordo!”, disse um homem imediatamente à frente de Clara. Ele vestia verde, e
algo no tom terroso de sua pele e no brilho castanho de seus olhos me lembrou as
pessoas alegres e coloridas da Cidade do Norte. “Nós finalmente estamos conseguindo
efetivar a reconstrução da Cidade do Norte, e boa parte das nações ainda não
conseguiu superar a fome e a falta de recursos! É um absurdo querer suplantar as
Missões!”.
“Se vocês continuarem insistindo nessa ideia, vamos cortar o apoio à construções das
cidades da Nação do Leste e da Cidade das águas. As Missões não atuarão onde
querem nos destruir!”
“Não se trata de destruir” – esbravejou uma senhora baixinha de cabelos
branquíssimos – “só não achamos mais que a estrutura das missões atenda às
necessidades das nações, por isso queremos revertê-la para as próprias nações! Você
ameaça a minha amada Cidade das Águas, Clara, como você ousa dizer uma coisa
dessas?”.
A senhora baixinha olhava a Clara mais jovem com um certo ódio no olhar, mas havia
algo mais ali, parecia desespero. Exatamente quando percebi isso, um homem surgiu
ao lado de Clara e lhe sussurrou algo no ouvido. Quando ele fez isso, um flash de brilho
iluminou sua face direita: mesmo mais jovem, sem a barba e as cicatrizes, com o
cabelo curto, aquele olhar de águia não me enganava. Era o mesmo cara que me
sequestrou. Mas o que ele fazia com Clara?
“Muito bem Clara, vejo que temos um impasse. O Conselho das Nações não vai recuar
da decisão que tomou. Não podemos submeter a autossuficiência e independência de
nossas cidades-nação à vontade das Missões.”
“Conselheiro Troi, a questão não é submeter, é entender que as cidades-nação não
podem viver sem as Missões. Você enxerga um impasse, e para mim a questão é
muitos simples. As Missões não vão se retirar”.“Clara, não nos interessa suas opiniões pessoais. Você tem um mês para ordenar a
retirada das Missões e transferir suas estruturas, pessoal e recursos para as Nações,
essa é uma decisão que já foi tomada”. Clara se resignou a encarar o Conselho, e então
se retirou, com aquele homem ao seu lado.
A voz apressada de Carla me tirou do transe em que o vídeo tinha me colocado.
“...o que é lógico. Você percebe que isso foi o estopim? Cubo, mostre os dados do
relatório número 16! Lúcio, a Clara não aceitou a decisão do Conselho das Nações,
então começou a cortar o fornecimento de coisa essenciais para as pessoas, como
água para a cidade do Leste, e comida para a Cidade do Deserto. Então, pouco a pouco
as cidades foram desistindo, e se curvando à vontade dela. Olha, aqui tem algumas
atas das reuniões posteriores do Conselho. O Conselheiro da Cidade do Norte
conseguiu manipular o conselho, e cinco cidades desistiram, dando vitória à Clara.
Mas...Cubo, relatório número 42...há uns seis anos, alguma coisa aconteceu. Sabe o
homem que aparece com a Clara no vídeo? Ele era soldado das FES, segurança pessoal
da Clara. Aqui diz que ele era um tipo de espião, e a Clara descobriu. Então ele fugiu
para um lugar que eles chamam de Fortaleza de Pedra, e passou a liderar um grupo de
resistência contra as Missões desde então. Mas não tem muito mais. O restante são
ordens de evacuação, transferência de equipes, envio de suprimentos...”
“Carla, precisamos achar esse cara. Foi ele quem me sequestrou”.
Além da Terra Devastada. VIII
“O que tá acontecendo?!”
“Estamos sendo invadidos pela FES, o que raios vocês andaram fazendo?” – Julius,
irmão de Carla apareceu gritando, muito assustado.
“Eu não sei. Não fizemos nada, mas pelo barulho, não sei se vai ser saudável ficar aqui.
Venham, vamos sair pela escada de incêndio. Rápido, Lúcio, me ajuda. Pegue a mochila
azul que está em cima daquela prateleira e coloque os arquivos dentro. Coloque
também meu Cubo de Dados. Está na escrivaninha. Julius, vem comigo.”
Carla abriu bruscamente a janela e se atirou pra fora. Eu peguei a mochila, os arquivos,
e o cubo de dados e enfiei na mochila. Num último instante, peguei também a foto de
seus pais mortos que descansava emoldurada na parede próxima à cama. Corri pra
janela, atirei a mochila pra ela e saí. Imediatamente o vento fustigante e a água
congelante começaram a me fazer tremer. Quando dei uma última olhada para dentro
do quarto, há pouco quente e agradável, pude ver a porta sendo posta a baixo. Um
soldado da FES me encarou e atirou, Carla gritou e tudo aconteceu ao mesmo tempo.
A bala – um projétil vermelho e grande, veio em minha direção tão veloz quanto os
raios que caíam. Meu pulso acelerou, e o tempo à minha volta andou mais devagar. E
então a centímetros de me atingir bem no meio da testa, a bala parou.
“Corre, Lúcio!”
Nesse exato momento Carla me puxou e o tempo voltou a correr. Descemos as
escadas tão rápido quanto nossas pernas permitiam, e cobrimos a distância entre o
segundo andar e o chão em pouquíssimo tempo. Quando cheguei ao chão, pude ver
que a equipe da FES nos seguia. Não conseguia entender por que aquilo. Por que a FES
estava atrás da gente? De mim? Por que Clara enviaria esses soldados para me matar?
Por que a pessoa que me treinou, a pessoa em quem mais confio iria querer a minha
morte? Raiva começou a percorrer minhas veias. Raiva tomou conta de mim. Eu gritei.
E então concentrei toda essa raiva na estrutura de metal à minha frente. Primeiro as
escadas tremeram. Depois começaram a chacoalhar violentamente. Os soldados,
encharcados e assustados se seguraram da forma que puderam. Indo para frente e para trás, as escadas se soltaram da parede, pairaram a alguns metros do prédio e
ruíram. O barulho, ensurdecedor, foi em parte abafado pelos trovões. Eu ouvi Carla
gritar à distância, e as bordas da minha visão escureceram. Pontos brilhantes
invadiram meu campo de visão, e a escuridão tomou conta de mim.
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