“Lúcio, você pode me ouvir?”
Era Julius, me chamando, ao longe. Parecia longe pelo menos. Muito longe. Aos
poucos fui recobrando a consciência do meu corpo e da realidade. Tentei me levantar,
mas Julius me impediu.
“O que- oque aconteceu?”
“Bem, você pôs abaixo aquela escada, e depois desmaiou. Sangrou também pelo nariz,
um pouco.”
Ele me olhava com preocupação. Sua pele marrom avermelhada brilhava coberta de
suor, e seus cabelos escuros, densos e lisos não apresentavam o brilho de sempre,
nem a organização. Ele parecia um pouco assustado, e seus olhos escuros como a noite
pareciam ainda mais negros.
“E onde a gente está?”
“Num Centro de Saúde abandonado, na zona oeste da cidade. Eu trabalhava aqui, mas
o Centro foi fechado após a construção de um novo conjunto de prédios de habitação,
e os moradores foram transferidos pra zona sul. Ainda bem que os geradores não
foram tirados daqui, então temos água, energia, conexão à rede das Missões e
comida.”
Essa era uma das coisas que mais me admirava em Julius. Ele era sonhador,
desenhista, gostava de música, mas também tinha o senso prático de um enfermeiro
das Missões.
“Lúcio, beba um pouco de água, a Carla está na outra sala, usando o cubo pra entrar
nos sistemas da cidade”.Quando Julius me soltou, levantei e peguei o copo de água na mesa ao lado da maca.
Um esparadrapo pendia do meu nariz com uma quantidade até generosa de sangue.
Eu realmente devo ter me excedido, mas nem sei direito controlar esse lance da
telecinese. Ótimo, um controlador que não sabe controlar nada. Piada do dia.
“Mas que droga!” – Era Carla. Atravessei o corredor até a sala adjacente; seu cubo de
dados estava ativado, projetando um holograma que ocupava boa parte da sala. Carla
estava com a palma direita sobre um quadrado pequeno e vermelho à sua frente, com
certeza tentando se conectar.
“Ah, oi Lúcio, melhorou? Estou tentando entrar no banco de dados da Sede, mas não
tenho mais permissão. O sistema das bibliotecas continua online, mas tem um
programa me rastreando. Eu consegui isolar ele e estou tentando invadir a
programação pra usá-lo contra eles”. Num movimento brusco, Carla correu os dedos
pelas janelas abertas e agarrou uma caixa azul brilhante de holograma. Através das
paredes do holograma se agitava uma espécie de verme tecnológico tentando quebrar
as paredes, mas o cubo de Carla continuava reforçando o cubo. Carla criou um cubo
maior com poucos gestos, jogou o verme dentro e o trancou.
“Cara, o que você tá fazendo? Por que tá tentando invadir os dados da Sede? E, ah, eu
estou bem sim”.
“É simples Lúcio: se você não entendeu, estamos sendo caçados pela FES! Invadiram
minha casa, atiraram em você, você quase morreu, NÓS quase morremos! Eu não vou
deixar barato!”. Na hora do “nós”, seus olhos se encheram de lágrimas, e Carla
finalmente desabou. Meio que eu já esperava por isso, então puxei uma cadeira para
que ela se sentasse.
“Aquela coisa – e apontou para a caixa – atacou meu cubo na hora em que conectei. Se
eu não estivesse esperando algo do tipo, eles já teriam pego a gente, e estaríamos
mortos, por algo que a gente nem entende direito, Lúcio!”
“ E o que você me sugere, Carla?”
“Eu acho – não, eu tenho certeza, que precisamos descobrir por que a FES foi enviada,
e mais importante, QUEM a enviou. Espera”. Ela foi em direção à mochila azul sobre a mesa ao lado do Cubo e puxou os arquivos vermelhos. Espalhou na mesa e girou o
cubo na direção deles. Imediatamente o aparelho preto e brilhante começou a
digitaliza-los.
“A propósito, obrigado por pegar a foto também. Você foi demais aquela hora. Agora,
eu vou te mostrar o que tem nesses arquivos!”
Era determinação o que eu via no olhar dela.
“Bem, vamos do começo: Cubo, abra o arquivo com data mais antigo, e amplie. Modo
de análise de dados”.
A caixa com o verme foi para segundo plano e, no ar à minha frente, cubo projetou
uma arquivo com data de 10 anos atrás. A data foi destacada em vermelho, e à uma
ordem de Carla, o texto foi ampliado e o cubo começou a destacar palavras conforme
ela ia correndo os dedos pela projeção.
“Lúcio, esse arquivo é de uns dez anos atrás. A Nação do Leste convocou as outras
Nações e a dirigente das Missões, Clara, para uma espécie de convenção. Eles
proporão extinguir as Missões e a FES, e estabelecer uma força conjunta, comandada
pelas Nações para agir restaurando partes devastadas do planeta. Mas a Clara não quis
isso, e foi apoiada pela Nação do Norte. Nessa hora, ela chantageou as Nações com um
contingente enorme da FES formado por especialistas em combate e controladores.
Houve uma série de ataques terroristas orquestrados pela Clara, tudo para continuar
no poder. Segundo ela as Nações não estão prontas para se cuidarem sozinhas. Cubo,
execute o arquivo de vídeo anexado na página doze”.
O texto deu lugar a uma tela preta, que imediatamente foi substituída pela imagem de
uma sala grande, oval, com balcões de pedra dispostos em círculo. No centro, em um
púlpito, Clara olhava duramente para os líderes das 10 Nações humanas, que
esbravejavam com ela:
“Meus caros, as Nações não estão prontas para sobreviver e cuidar do mundo e de si
mesmas sem o apoio das Missões. É inadmissível que vocês pensem em suplantar
nosso sistema que tem funcionado por gerações! As Missões só querem o bem para a
humanidade, e pelo bem da humanidade não deixarei que vocês subjuguem nosso poder. Não podemos deixar que o homem volte a destruir a si mesmo e à humanidade,
como nos tempos passados. As Missões são a única coisa, a única barreira que impede
a humanidade de cair do abismo da sua auto destruição!”
“Eu concordo!”, disse um homem imediatamente à frente de Clara. Ele vestia verde, e
algo no tom terroso de sua pele e no brilho castanho de seus olhos me lembrou as
pessoas alegres e coloridas da Cidade do Norte. “Nós finalmente estamos conseguindo
efetivar a reconstrução da Cidade do Norte, e boa parte das nações ainda não
conseguiu superar a fome e a falta de recursos! É um absurdo querer suplantar as
Missões!”.
“Se vocês continuarem insistindo nessa ideia, vamos cortar o apoio à construções das
cidades da Nação do Leste e da Cidade das águas. As Missões não atuarão onde
querem nos destruir!”
“Não se trata de destruir” – esbravejou uma senhora baixinha de cabelos
branquíssimos – “só não achamos mais que a estrutura das missões atenda às
necessidades das nações, por isso queremos revertê-la para as próprias nações! Você
ameaça a minha amada Cidade das Águas, Clara, como você ousa dizer uma coisa
dessas?”.
A senhora baixinha olhava a Clara mais jovem com um certo ódio no olhar, mas havia
algo mais ali, parecia desespero. Exatamente quando percebi isso, um homem surgiu
ao lado de Clara e lhe sussurrou algo no ouvido. Quando ele fez isso, um flash de brilho
iluminou sua face direita: mesmo mais jovem, sem a barba e as cicatrizes, com o
cabelo curto, aquele olhar de águia não me enganava. Era o mesmo cara que me
sequestrou. Mas o que ele fazia com Clara?
“Muito bem Clara, vejo que temos um impasse. O Conselho das Nações não vai recuar
da decisão que tomou. Não podemos submeter a autossuficiência e independência de
nossas cidades-nação à vontade das Missões.”
“Conselheiro Troi, a questão não é submeter, é entender que as cidades-nação não
podem viver sem as Missões. Você enxerga um impasse, e para mim a questão é
muitos simples. As Missões não vão se retirar”.“Clara, não nos interessa suas opiniões pessoais. Você tem um mês para ordenar a
retirada das Missões e transferir suas estruturas, pessoal e recursos para as Nações,
essa é uma decisão que já foi tomada”. Clara se resignou a encarar o Conselho, e então
se retirou, com aquele homem ao seu lado.
A voz apressada de Carla me tirou do transe em que o vídeo tinha me colocado.
“...o que é lógico. Você percebe que isso foi o estopim? Cubo, mostre os dados do
relatório número 16! Lúcio, a Clara não aceitou a decisão do Conselho das Nações,
então começou a cortar o fornecimento de coisa essenciais para as pessoas, como
água para a cidade do Leste, e comida para a Cidade do Deserto. Então, pouco a pouco
as cidades foram desistindo, e se curvando à vontade dela. Olha, aqui tem algumas
atas das reuniões posteriores do Conselho. O Conselheiro da Cidade do Norte
conseguiu manipular o conselho, e cinco cidades desistiram, dando vitória à Clara.
Mas...Cubo, relatório número 42...há uns seis anos, alguma coisa aconteceu. Sabe o
homem que aparece com a Clara no vídeo? Ele era soldado das FES, segurança pessoal
da Clara. Aqui diz que ele era um tipo de espião, e a Clara descobriu. Então ele fugiu
para um lugar que eles chamam de Fortaleza de Pedra, e passou a liderar um grupo de
resistência contra as Missões desde então. Mas não tem muito mais. O restante são
ordens de evacuação, transferência de equipes, envio de suprimentos...”
“Carla, precisamos achar esse cara. Foi ele quem me sequestrou”.
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