Havíamos passado a madrugada acordados, sem dormir por causa da inquietação e do
medo, e também sem dormir por causa do plano mirabolante que Julius e Carla tinham
arquitetado. O sol já ia alto e forte, cobrindo a Cidade de Vidro de uma luz agradável,
que sempre me encantou no lugar. Agora, a luz me inspirava medo de ser descoberto.
Repassamos novamente o plano abrigados no mesmo beco onde fui sequestrado pelo
cara do vídeo, com Julius pingando sangue pelo braço direito, onde ele mesmo havia
feito um corte usando bisturi, e Carla parecendo uma velha, usando roupas antigas
que encontramos no centro de saúde abandonado. Eu estava usando um casaco com capuz,
e mantinha a cabeça baixa. Àquela hora, não havia muita gente nas ruas,
estavam todos em seus postos de trabalho ou centros de estudos.
“Muito bem, todos se lembram do plano?”
“Sim.”
“Sim.”
“Muito bem, Carla, vá na frente. Lúcio, esperamos alguns minutos e depois saímos.”
“Ok.”
“Se cuidem meninos, não entrem em nenhuma enrascada”.
Depois do que pareceram horas, Julius e eu saímos do beco. Ele vinha apoiando seu
braço esquerdo no meu ombro direito, enquanto seu outro braço pendia balançando
no ar, gotejando um pouco de sangue através do curativo propositalmente mal feito
que cobria o corte.
“Olá, em que posso ajuda-los?”
A atendente vestia um avental rosa claro e trazia um sorriso no rosto. Ao seu lado, no
balcão, uma xícara fumegante de café impregnava o ambiente com aquele cheiro forte
e familiar, da cozinha da minha mãe.
“O meu primo resolveu que sabia cozinhar, e caiu no chão com uma faca na mão”, eu
disse, sem olhar nos olhos dela.
“Ah, ok. Por favor, seu nome?”
“Ah, é Paulo. Paulo Roberto”, mentiu Julius enquanto ela fazia anotações numa
prancheta digital.
“Me acompanhe, sim? Mocinho, você pode ficar aqui na recepção e esperar”.
Assim que eles dobraram o corredor à direita do balcão, me esgueirei pelo corredor da
esquerda o mais rápido que pude. No final do corredor, como Julius havia dito, estava
um vestiário grande, todo pintado de azul. Nas araras, vários uniformes, organizados
por tipo de trabalho. Julius realmente sabia o que estava dizendo, pois numa das
araras à esquerda da porta principal estavam pendurados vários uniformes
da equipe de transporte de medicamentos, que traziam remédios do centro de distribuição
abaixo da torre principal das Missões e faziam a distribuição pelos centros de saúde
espalhados pela cidade e nas vilas ao redor. Tirei minhas roupas, vesti o macacão,
coloquei a touca e escondi bem meus cabelos. Encontrei óculos de proteção, escuros,
numa prateleira anexa à arara e saí. Foi simples sair do hospital e entrar no centro de
distribuição, os corredores do subsolo eram largos e muito bem sinalizados. Quando
achei que já tinha andado o suficiente, encontrei alguns trabalhadores saindo de um
grande elevador no final de um corredor todo branco. De cabeça baixa, me esgueirei
entre eles, que quase não notaram minha presença, pois estavam ocupados demais
manobrando caixas flutuantes. Entrei no elevador, me virei para o painel de vidro e
cliquei no botão para subir. A viagem, silenciosa, parecia ter congelado o tempo, como
no incidente com a bala na janela de Carla. Isso só serviu para aumentar meu
nervosismo. Quando as portas do elevador se abriram, repassei o plano mentalmente.
“Enquanto eu vou até uma das bibliotecas menores, onde não corro o risco de ser
rastreada, vocês vão até o Centro de Saúde. Como o Julius explicou, vai ser fácil você
chegar até a Torre principal. Na biblioteca eu vou poder me conectar ao sistema e
liberar o verme pra extrair informações dos servidores das Missões. Julius, quando
você tiver com o braço ok, você vai até a casa do Lúcio e tira a mãe dele de lá. É
simples, fácil e não tem como errar, se fizermos tudo direitinho. Quando Lúcio estiver
na Torre, eu já devo ter conseguido entrar no sistema, então vou poder saber onde
você vai estar, e isso pode ser útil no caso de uma fuga”.
Se eu tivesse com sorte, nesse momento Carla estaria me observando, Julius estaria à
caminho da minha casa, e eu à caminho de um encontro com Clara. O Centro de
distribuição de medicamentos era um enorme complexo abaixo da Torre principal da
Cidade de Vidro. Do outro lado estava o elevador que dava acesso aos andares que
ficam acima do subsolo. Quando cheguei a ele, um painel com uma luz vermelha
indicava que precisava de autorização para usá-lo. Nem bem havia me aproximado do
painel quando o elevador, vazio, se abriu. Entrei com uma certa relutância, mas assim
que as portas se fecharam um retângulo holográfico apareceu flutuando à minha
frente. Era Carla.
“Cara, por que você me assustou desse jeito?”“Não encana, Lúcio, eu estou te ajudando, ok?
O Julius acabou de chegar na sua casa, ele encontrou sua mãe no caminho, e eles estão conversando.
Eu consegui abrir um canal de comunicação com eles na sala da sua casa, então estamos pensando num
plano juntos. O verme voltou pro ponto de origem dele, o computador central no
andar do escritório da Clara, e isso foi muito bom, por que agora tenho controle sobre
os sistemas do prédio. Estou tentando usar o verme pra invadir o banco de dados, mas
ainda não consegui. Eles tem um sistema muito avançado”.
“Tá bem. E você já pensou no que fazer depois? Para onde você e Julius irão? E a
minha mãe?”
“Bom, acho que consegui bolar um plano B. A Cidade de Gelo. Como ela é uma das
poucas cidades-nação completamente autossuficiente, é pra lá que vamos. Eles não
estão muito preocupados com as Missões, até por que não dependem da Clara pra
sobreviver, e é campo neutro. Tem um deslizador programado para fazer a viagem
para lá ainda hoje, mais tarde. Programei novas tags de identidade para nós quatro, e
nos coloquei na lista”.
“Olha, você sabe que eu não vou conseguir voltar não é?”
“Sim, eu sei. Por isso preparei algo pra você. Encontrei por acaso enquanto vasculhava
as instalações da Torre. Alguns andares abaixo do andar onde estão a Clara e os
servidores, tem um centro de pesquisa enorme. É claro que aproveitei pra conseguir
alguns brinquedinhos. Eles desenvolveram um novo tipo de cubo de dados, mais
potente, e que não precisa ficar sobre nenhuma superfície pra ser usado, por que ele
flutua e reponde muito mais rápido, por que fica conectado na mente do usuário por
uma tiara. Consegui manipular algumas ordens, e ele deve estar sendo entregue agora
aqui pra mim. Pra você eu reservei uma pulseira que agrega algumas funções de um
cubo de dados comum. Comunicação, acesso à rede de dados, navegação, etc. Quando
o elevador abrir, você vai reto e vira no segundo corredor à direita. Alguém vai estar de
te esperando”.
“E do que isso vai adiantar? Não é pra isso ser algum tipo de missão suicida?”
“Não se eu não permitir, seu cabeça oca! A pulseira vai servir pra te rastrear e entrar
em contato com você”.“Ótimo, você vai poder acompanhar minha execução”.
“Mas ela não vai te matar, Lúcio”.
“E por que não, se eles já tentaram fazer isso?”
“Por que eu consegui acessar os registros do computador dela. E ela precisa de você”.
***
Carla tinha razão, pra variar. A pulseira feita de metal negro como a noite cintilava no
meu pulso direito, enquanto Clara me encarava recostada em sua mesa. A cena
parecia a mesma de tantas outras vezes em que estive ali, ouvindo conselhos,
recebendo treinamento, ajudando-a a decidir a melhor maneira de implementar novos
projetos humanitários. Mas não era mais do mesmo. Eu podia ver o ódio em seu olhar
faiscante, ódio que ela tentava esconder sendo gentil e amável comigo. Mas eu
também não sou mais o mesmo. Em mim ardia uma raiva quente e borbulhante, uma
vontade de entender o por que de tudo isso. A pulseira vibrou em meu pulso,
indicando que Carla ainda esta ali, me dando apoio moral.
Projetos da Tia
Projetos Literários (em andamento) @glkando
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Além da Terra Devastada. X
“Sabe, eu não sei o que está acontecendo, mas não vai dar pra ficar aqui por muito
tempo. Se estão mesmo procurando vocês dois, esse não é o lugar mais seguro do
mundo. Vocês precisam sair da Cidade de Vidro”.
Julius e Carla estavam nessa conversa há algum tempo já, pensando numa forma de
descobrir por que fomos atacados e ainda sair vivos dessa.
“Mas pra onde nós iríamos, Julius? Pra onde você iria? E ainda tem a mãe do Lúcio.
Não podemos simplesmente sair da cidade de vidro pelos portões da frente, deixando
vocês. Precisamos de uma alternativa, e precisamos de informação. Informação é a
chave, esse é o lema das bibliotecas.”“Só que você não tem conseguido muita coisa, além dos arquivos vermelhos né? E
aquela coisa, o tal verme de rastreio, não serviu de nada né?”
“Bom, eu estou tentando, mas ele tem uma estrutura muito complexa. O Cubo está
rodando um filtro em volta dele, pra tentar conseguir desconectá-lo de vez. Quando
ele terminar, vou poder entrar na programação e usar o verme pra invadir o sistema
de volta”.
“E enquanto isso o que nós fazemos, Carla? E você, Lúcio, o que diz a respeito?”
“Eu, ...eu sei o que fazer. Eu vou até a Clara. Eu vou entrar pela porta da frente!”
“Você tá maluco Lúcio? Aquela mulher mandou te matar!”
“Mas foi ela que me recrutou, ela me treinou, ela me ensinou o que são as Missões, ela
me mostrou a importância de ajudar os outros, de ser honesto e sincero. Ela não pode
simplesmente ignorar isso”.
Julius apenas olhava de mim para Carla, e não falava nada. Carla parecia nervosa. Um
apito suave, porém constante, chamou nossa atenção. O verme vermelho tinha ficado
azul dentro da caixa holográfica suspensa.
“Ótimo consegui invadir. O cubo já programou o Verme pra viagem de volta, mas ainda
não consegui conectar”.
“Viu? É um beco sem saída, Carla. Eu preciso ir até a sede e conversar com a Clara”.
“Bom, se você vai, vamos precisar de um plano”.
tempo. Se estão mesmo procurando vocês dois, esse não é o lugar mais seguro do
mundo. Vocês precisam sair da Cidade de Vidro”.
Julius e Carla estavam nessa conversa há algum tempo já, pensando numa forma de
descobrir por que fomos atacados e ainda sair vivos dessa.
“Mas pra onde nós iríamos, Julius? Pra onde você iria? E ainda tem a mãe do Lúcio.
Não podemos simplesmente sair da cidade de vidro pelos portões da frente, deixando
vocês. Precisamos de uma alternativa, e precisamos de informação. Informação é a
chave, esse é o lema das bibliotecas.”“Só que você não tem conseguido muita coisa, além dos arquivos vermelhos né? E
aquela coisa, o tal verme de rastreio, não serviu de nada né?”
“Bom, eu estou tentando, mas ele tem uma estrutura muito complexa. O Cubo está
rodando um filtro em volta dele, pra tentar conseguir desconectá-lo de vez. Quando
ele terminar, vou poder entrar na programação e usar o verme pra invadir o sistema
de volta”.
“E enquanto isso o que nós fazemos, Carla? E você, Lúcio, o que diz a respeito?”
“Eu, ...eu sei o que fazer. Eu vou até a Clara. Eu vou entrar pela porta da frente!”
“Você tá maluco Lúcio? Aquela mulher mandou te matar!”
“Mas foi ela que me recrutou, ela me treinou, ela me ensinou o que são as Missões, ela
me mostrou a importância de ajudar os outros, de ser honesto e sincero. Ela não pode
simplesmente ignorar isso”.
Julius apenas olhava de mim para Carla, e não falava nada. Carla parecia nervosa. Um
apito suave, porém constante, chamou nossa atenção. O verme vermelho tinha ficado
azul dentro da caixa holográfica suspensa.
“Ótimo consegui invadir. O cubo já programou o Verme pra viagem de volta, mas ainda
não consegui conectar”.
“Viu? É um beco sem saída, Carla. Eu preciso ir até a sede e conversar com a Clara”.
“Bom, se você vai, vamos precisar de um plano”.
Além da Terra Devastada. IX
“Lúcio, você pode me ouvir?”
Era Julius, me chamando, ao longe. Parecia longe pelo menos. Muito longe. Aos
poucos fui recobrando a consciência do meu corpo e da realidade. Tentei me levantar,
mas Julius me impediu.
“O que- oque aconteceu?”
“Bem, você pôs abaixo aquela escada, e depois desmaiou. Sangrou também pelo nariz,
um pouco.”
Ele me olhava com preocupação. Sua pele marrom avermelhada brilhava coberta de
suor, e seus cabelos escuros, densos e lisos não apresentavam o brilho de sempre,
nem a organização. Ele parecia um pouco assustado, e seus olhos escuros como a noite
pareciam ainda mais negros.
“E onde a gente está?”
“Num Centro de Saúde abandonado, na zona oeste da cidade. Eu trabalhava aqui, mas
o Centro foi fechado após a construção de um novo conjunto de prédios de habitação,
e os moradores foram transferidos pra zona sul. Ainda bem que os geradores não
foram tirados daqui, então temos água, energia, conexão à rede das Missões e
comida.”
Essa era uma das coisas que mais me admirava em Julius. Ele era sonhador,
desenhista, gostava de música, mas também tinha o senso prático de um enfermeiro
das Missões.
“Lúcio, beba um pouco de água, a Carla está na outra sala, usando o cubo pra entrar
nos sistemas da cidade”.Quando Julius me soltou, levantei e peguei o copo de água na mesa ao lado da maca.
Um esparadrapo pendia do meu nariz com uma quantidade até generosa de sangue.
Eu realmente devo ter me excedido, mas nem sei direito controlar esse lance da
telecinese. Ótimo, um controlador que não sabe controlar nada. Piada do dia.
“Mas que droga!” – Era Carla. Atravessei o corredor até a sala adjacente; seu cubo de
dados estava ativado, projetando um holograma que ocupava boa parte da sala. Carla
estava com a palma direita sobre um quadrado pequeno e vermelho à sua frente, com
certeza tentando se conectar.
“Ah, oi Lúcio, melhorou? Estou tentando entrar no banco de dados da Sede, mas não
tenho mais permissão. O sistema das bibliotecas continua online, mas tem um
programa me rastreando. Eu consegui isolar ele e estou tentando invadir a
programação pra usá-lo contra eles”. Num movimento brusco, Carla correu os dedos
pelas janelas abertas e agarrou uma caixa azul brilhante de holograma. Através das
paredes do holograma se agitava uma espécie de verme tecnológico tentando quebrar
as paredes, mas o cubo de Carla continuava reforçando o cubo. Carla criou um cubo
maior com poucos gestos, jogou o verme dentro e o trancou.
“Cara, o que você tá fazendo? Por que tá tentando invadir os dados da Sede? E, ah, eu
estou bem sim”.
“É simples Lúcio: se você não entendeu, estamos sendo caçados pela FES! Invadiram
minha casa, atiraram em você, você quase morreu, NÓS quase morremos! Eu não vou
deixar barato!”. Na hora do “nós”, seus olhos se encheram de lágrimas, e Carla
finalmente desabou. Meio que eu já esperava por isso, então puxei uma cadeira para
que ela se sentasse.
“Aquela coisa – e apontou para a caixa – atacou meu cubo na hora em que conectei. Se
eu não estivesse esperando algo do tipo, eles já teriam pego a gente, e estaríamos
mortos, por algo que a gente nem entende direito, Lúcio!”
“ E o que você me sugere, Carla?”
“Eu acho – não, eu tenho certeza, que precisamos descobrir por que a FES foi enviada,
e mais importante, QUEM a enviou. Espera”. Ela foi em direção à mochila azul sobre a mesa ao lado do Cubo e puxou os arquivos vermelhos. Espalhou na mesa e girou o
cubo na direção deles. Imediatamente o aparelho preto e brilhante começou a
digitaliza-los.
“A propósito, obrigado por pegar a foto também. Você foi demais aquela hora. Agora,
eu vou te mostrar o que tem nesses arquivos!”
Era determinação o que eu via no olhar dela.
“Bem, vamos do começo: Cubo, abra o arquivo com data mais antigo, e amplie. Modo
de análise de dados”.
A caixa com o verme foi para segundo plano e, no ar à minha frente, cubo projetou
uma arquivo com data de 10 anos atrás. A data foi destacada em vermelho, e à uma
ordem de Carla, o texto foi ampliado e o cubo começou a destacar palavras conforme
ela ia correndo os dedos pela projeção.
“Lúcio, esse arquivo é de uns dez anos atrás. A Nação do Leste convocou as outras
Nações e a dirigente das Missões, Clara, para uma espécie de convenção. Eles
proporão extinguir as Missões e a FES, e estabelecer uma força conjunta, comandada
pelas Nações para agir restaurando partes devastadas do planeta. Mas a Clara não quis
isso, e foi apoiada pela Nação do Norte. Nessa hora, ela chantageou as Nações com um
contingente enorme da FES formado por especialistas em combate e controladores.
Houve uma série de ataques terroristas orquestrados pela Clara, tudo para continuar
no poder. Segundo ela as Nações não estão prontas para se cuidarem sozinhas. Cubo,
execute o arquivo de vídeo anexado na página doze”.
O texto deu lugar a uma tela preta, que imediatamente foi substituída pela imagem de
uma sala grande, oval, com balcões de pedra dispostos em círculo. No centro, em um
púlpito, Clara olhava duramente para os líderes das 10 Nações humanas, que
esbravejavam com ela:
“Meus caros, as Nações não estão prontas para sobreviver e cuidar do mundo e de si
mesmas sem o apoio das Missões. É inadmissível que vocês pensem em suplantar
nosso sistema que tem funcionado por gerações! As Missões só querem o bem para a
humanidade, e pelo bem da humanidade não deixarei que vocês subjuguem nosso poder. Não podemos deixar que o homem volte a destruir a si mesmo e à humanidade,
como nos tempos passados. As Missões são a única coisa, a única barreira que impede
a humanidade de cair do abismo da sua auto destruição!”
“Eu concordo!”, disse um homem imediatamente à frente de Clara. Ele vestia verde, e
algo no tom terroso de sua pele e no brilho castanho de seus olhos me lembrou as
pessoas alegres e coloridas da Cidade do Norte. “Nós finalmente estamos conseguindo
efetivar a reconstrução da Cidade do Norte, e boa parte das nações ainda não
conseguiu superar a fome e a falta de recursos! É um absurdo querer suplantar as
Missões!”.
“Se vocês continuarem insistindo nessa ideia, vamos cortar o apoio à construções das
cidades da Nação do Leste e da Cidade das águas. As Missões não atuarão onde
querem nos destruir!”
“Não se trata de destruir” – esbravejou uma senhora baixinha de cabelos
branquíssimos – “só não achamos mais que a estrutura das missões atenda às
necessidades das nações, por isso queremos revertê-la para as próprias nações! Você
ameaça a minha amada Cidade das Águas, Clara, como você ousa dizer uma coisa
dessas?”.
A senhora baixinha olhava a Clara mais jovem com um certo ódio no olhar, mas havia
algo mais ali, parecia desespero. Exatamente quando percebi isso, um homem surgiu
ao lado de Clara e lhe sussurrou algo no ouvido. Quando ele fez isso, um flash de brilho
iluminou sua face direita: mesmo mais jovem, sem a barba e as cicatrizes, com o
cabelo curto, aquele olhar de águia não me enganava. Era o mesmo cara que me
sequestrou. Mas o que ele fazia com Clara?
“Muito bem Clara, vejo que temos um impasse. O Conselho das Nações não vai recuar
da decisão que tomou. Não podemos submeter a autossuficiência e independência de
nossas cidades-nação à vontade das Missões.”
“Conselheiro Troi, a questão não é submeter, é entender que as cidades-nação não
podem viver sem as Missões. Você enxerga um impasse, e para mim a questão é
muitos simples. As Missões não vão se retirar”.“Clara, não nos interessa suas opiniões pessoais. Você tem um mês para ordenar a
retirada das Missões e transferir suas estruturas, pessoal e recursos para as Nações,
essa é uma decisão que já foi tomada”. Clara se resignou a encarar o Conselho, e então
se retirou, com aquele homem ao seu lado.
A voz apressada de Carla me tirou do transe em que o vídeo tinha me colocado.
“...o que é lógico. Você percebe que isso foi o estopim? Cubo, mostre os dados do
relatório número 16! Lúcio, a Clara não aceitou a decisão do Conselho das Nações,
então começou a cortar o fornecimento de coisa essenciais para as pessoas, como
água para a cidade do Leste, e comida para a Cidade do Deserto. Então, pouco a pouco
as cidades foram desistindo, e se curvando à vontade dela. Olha, aqui tem algumas
atas das reuniões posteriores do Conselho. O Conselheiro da Cidade do Norte
conseguiu manipular o conselho, e cinco cidades desistiram, dando vitória à Clara.
Mas...Cubo, relatório número 42...há uns seis anos, alguma coisa aconteceu. Sabe o
homem que aparece com a Clara no vídeo? Ele era soldado das FES, segurança pessoal
da Clara. Aqui diz que ele era um tipo de espião, e a Clara descobriu. Então ele fugiu
para um lugar que eles chamam de Fortaleza de Pedra, e passou a liderar um grupo de
resistência contra as Missões desde então. Mas não tem muito mais. O restante são
ordens de evacuação, transferência de equipes, envio de suprimentos...”
“Carla, precisamos achar esse cara. Foi ele quem me sequestrou”.
Além da Terra Devastada. VIII
“O que tá acontecendo?!”
“Estamos sendo invadidos pela FES, o que raios vocês andaram fazendo?” – Julius,
irmão de Carla apareceu gritando, muito assustado.
“Eu não sei. Não fizemos nada, mas pelo barulho, não sei se vai ser saudável ficar aqui.
Venham, vamos sair pela escada de incêndio. Rápido, Lúcio, me ajuda. Pegue a mochila
azul que está em cima daquela prateleira e coloque os arquivos dentro. Coloque
também meu Cubo de Dados. Está na escrivaninha. Julius, vem comigo.”
Carla abriu bruscamente a janela e se atirou pra fora. Eu peguei a mochila, os arquivos,
e o cubo de dados e enfiei na mochila. Num último instante, peguei também a foto de
seus pais mortos que descansava emoldurada na parede próxima à cama. Corri pra
janela, atirei a mochila pra ela e saí. Imediatamente o vento fustigante e a água
congelante começaram a me fazer tremer. Quando dei uma última olhada para dentro
do quarto, há pouco quente e agradável, pude ver a porta sendo posta a baixo. Um
soldado da FES me encarou e atirou, Carla gritou e tudo aconteceu ao mesmo tempo.
A bala – um projétil vermelho e grande, veio em minha direção tão veloz quanto os
raios que caíam. Meu pulso acelerou, e o tempo à minha volta andou mais devagar. E
então a centímetros de me atingir bem no meio da testa, a bala parou.
“Corre, Lúcio!”
Nesse exato momento Carla me puxou e o tempo voltou a correr. Descemos as
escadas tão rápido quanto nossas pernas permitiam, e cobrimos a distância entre o
segundo andar e o chão em pouquíssimo tempo. Quando cheguei ao chão, pude ver
que a equipe da FES nos seguia. Não conseguia entender por que aquilo. Por que a FES
estava atrás da gente? De mim? Por que Clara enviaria esses soldados para me matar?
Por que a pessoa que me treinou, a pessoa em quem mais confio iria querer a minha
morte? Raiva começou a percorrer minhas veias. Raiva tomou conta de mim. Eu gritei.
E então concentrei toda essa raiva na estrutura de metal à minha frente. Primeiro as
escadas tremeram. Depois começaram a chacoalhar violentamente. Os soldados,
encharcados e assustados se seguraram da forma que puderam. Indo para frente e para trás, as escadas se soltaram da parede, pairaram a alguns metros do prédio e
ruíram. O barulho, ensurdecedor, foi em parte abafado pelos trovões. Eu ouvi Carla
gritar à distância, e as bordas da minha visão escureceram. Pontos brilhantes
invadiram meu campo de visão, e a escuridão tomou conta de mim.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Além da Terra Devastada. VII
Chove lá fora. Muito. Uma tempestade.
Sentado na cama de Carla tomando uma xícara de chá forte, amargo e escuro, tento organizar as idéias e as palavras para começar a contar e tentar compreender esses últimos dias. Carla estava dormindo quando bati na sua janela, e só topou me deixar entrar por que o céu fazia estrondos realmente assustadores.
Agora que a xícara aquecia minha mão, Carla me olhava daquele jeito atento e respeitoso que sempre fazia quando me ouvia. Era bom poder contar a alguém o turbilhão de sensações, de frio e medo que eu vinha sentindo, se bem que o frio era causado na maior parte pela tempestade.
"Então, o que tá acontecendo Lúcio?"
Nessa hora eu tomei um último gole do chá e falei. Falei sem parar durante o que pareceram horas. Quando terminei, Carla não parecia nem um pouco assustada, perplexa, ou abalada, adjetivos que eu vinha guardando para ela quando ouvisse a história toda. Pelo contrário. O modo como ela andava de um lado para outro sugeria que sua mente trabalhava naquilo que eu "carinhosamente"chamava de Furacão Carla.
"Carla, você quer parar um pouco e me dar o apoio e atenção que, como minha melhor amiga, deveria dar?"
"Eu quero, mas antes preciso que você ouça o que eu vou contar. Há alguns meses eu fui enviada para um setor que não conhecia, fui mandada para a biblioteca central, onde os documentos e arquivos das Missões em todo o mundo são compilados, analisados e salvos. Quando eu estava lá, acabei sendo transferida para um setor onde os documentos que não tinham mais utilidade eram destruídos e mandados para uma usina de reciclagem. Era um trabalho chato e monótono. Até que os documentos vermelhos começaram a chegar numa tarde, e meu coordenador ficou muito, mas muito nervoso. Ele me mandou ir fazer um lanche e se trancou na sala de descarte. Ficou lá por um bom tempo. Depois ele saiu e tudo o que havia nas caixas de detrito era um monte de confete vermelho. No dia seguinte ele não foi trabalhar, e alguns soldados da Força de Estabilidade Social entregaram uma caixa e ficaram lá, aguardando, enquanto eu destruia os arquivos. Mas não foi bem isso que eu fiz. Eu consegui esconder duas pastas de arquivos enquanto eles não olhavam, e trouxe pra cá. Acho que eu posso responder por que essas coisas estranhas aconteceram com você. E, seguindo os arquivos, não é só com você, e não é só agora. É algo maior, algo que nós não estamos sem perto de entender".
"Mas o que isso tem a ver comigo? Que pastas são essas?"
Então ela parou, levantou o tapete que havia no meio do quarto, e de um alçapão debaixo dele tirou duas pastas de arquivo vermelhas, e jogou no meu colo. Elas tinham o brasão das Missões Humanitárias na capa, e logo abaixo a inscrição "PRIORIDADE ZERO". Quando abri a primeira, entendi por que ela tinha a ver comigo. Debaixo de um cabeçalho que detalhava ações de um grupo de rebeldes na Cidade de Areia, que fica às margens de um deserto e é uma das 10 nações. Obviamente eu nunca tinha ouvido falar nisso, e pelo visto Carla também não, afinal não há por que existir conflitos entre as nações. Mas o que me chamou atenção e surpreendeu de verdade foi a segunda pasta. Nela, várias fichas listavam o que o relatório chamava de Comando Rebelde. E no comando, o meu irmão.
"Isso é verdade?" perguntei enquanto encarava uma Carla atenta e apreensiva.
"Parece que sim. Um dos últimos documentos da primeira pasta é um relatório sobre um confronto que acontece há alguns anos já".
"Mas como não sabemos disso? As nações não podem simplesmente estrar em guerra e ninguém ficar sabendo. Eu estive na cidade da Nação do Norte há menos de uma semana, e tava tudo bem por lá, e o meu irmão, ele...ele..."
"Mas não são as nações que estão em guerra, Lúcio. Se fosse, talvez a situação fosse menos pior. As Missões Humanitárias estão em guerra com um grupo rebelde, liderado pelo seu irmão. É uma guerra que as Missões insistem em manter secreta, por que as Missões, Clara, ela vem fazendo uma coisa horrível, ela' - Mas Carla não teve tempo de contar o que quer que as Missões estivessem fazendo, por que nessa hora um estrondo, mais forte e mais próximo que os trovões, fez o prédio chacoalhar.
Sentado na cama de Carla tomando uma xícara de chá forte, amargo e escuro, tento organizar as idéias e as palavras para começar a contar e tentar compreender esses últimos dias. Carla estava dormindo quando bati na sua janela, e só topou me deixar entrar por que o céu fazia estrondos realmente assustadores.
Agora que a xícara aquecia minha mão, Carla me olhava daquele jeito atento e respeitoso que sempre fazia quando me ouvia. Era bom poder contar a alguém o turbilhão de sensações, de frio e medo que eu vinha sentindo, se bem que o frio era causado na maior parte pela tempestade.
"Então, o que tá acontecendo Lúcio?"
Nessa hora eu tomei um último gole do chá e falei. Falei sem parar durante o que pareceram horas. Quando terminei, Carla não parecia nem um pouco assustada, perplexa, ou abalada, adjetivos que eu vinha guardando para ela quando ouvisse a história toda. Pelo contrário. O modo como ela andava de um lado para outro sugeria que sua mente trabalhava naquilo que eu "carinhosamente"chamava de Furacão Carla.
"Carla, você quer parar um pouco e me dar o apoio e atenção que, como minha melhor amiga, deveria dar?"
"Eu quero, mas antes preciso que você ouça o que eu vou contar. Há alguns meses eu fui enviada para um setor que não conhecia, fui mandada para a biblioteca central, onde os documentos e arquivos das Missões em todo o mundo são compilados, analisados e salvos. Quando eu estava lá, acabei sendo transferida para um setor onde os documentos que não tinham mais utilidade eram destruídos e mandados para uma usina de reciclagem. Era um trabalho chato e monótono. Até que os documentos vermelhos começaram a chegar numa tarde, e meu coordenador ficou muito, mas muito nervoso. Ele me mandou ir fazer um lanche e se trancou na sala de descarte. Ficou lá por um bom tempo. Depois ele saiu e tudo o que havia nas caixas de detrito era um monte de confete vermelho. No dia seguinte ele não foi trabalhar, e alguns soldados da Força de Estabilidade Social entregaram uma caixa e ficaram lá, aguardando, enquanto eu destruia os arquivos. Mas não foi bem isso que eu fiz. Eu consegui esconder duas pastas de arquivos enquanto eles não olhavam, e trouxe pra cá. Acho que eu posso responder por que essas coisas estranhas aconteceram com você. E, seguindo os arquivos, não é só com você, e não é só agora. É algo maior, algo que nós não estamos sem perto de entender".
"Mas o que isso tem a ver comigo? Que pastas são essas?"
Então ela parou, levantou o tapete que havia no meio do quarto, e de um alçapão debaixo dele tirou duas pastas de arquivo vermelhas, e jogou no meu colo. Elas tinham o brasão das Missões Humanitárias na capa, e logo abaixo a inscrição "PRIORIDADE ZERO". Quando abri a primeira, entendi por que ela tinha a ver comigo. Debaixo de um cabeçalho que detalhava ações de um grupo de rebeldes na Cidade de Areia, que fica às margens de um deserto e é uma das 10 nações. Obviamente eu nunca tinha ouvido falar nisso, e pelo visto Carla também não, afinal não há por que existir conflitos entre as nações. Mas o que me chamou atenção e surpreendeu de verdade foi a segunda pasta. Nela, várias fichas listavam o que o relatório chamava de Comando Rebelde. E no comando, o meu irmão.
"Isso é verdade?" perguntei enquanto encarava uma Carla atenta e apreensiva.
"Parece que sim. Um dos últimos documentos da primeira pasta é um relatório sobre um confronto que acontece há alguns anos já".
"Mas como não sabemos disso? As nações não podem simplesmente estrar em guerra e ninguém ficar sabendo. Eu estive na cidade da Nação do Norte há menos de uma semana, e tava tudo bem por lá, e o meu irmão, ele...ele..."
"Mas não são as nações que estão em guerra, Lúcio. Se fosse, talvez a situação fosse menos pior. As Missões Humanitárias estão em guerra com um grupo rebelde, liderado pelo seu irmão. É uma guerra que as Missões insistem em manter secreta, por que as Missões, Clara, ela vem fazendo uma coisa horrível, ela' - Mas Carla não teve tempo de contar o que quer que as Missões estivessem fazendo, por que nessa hora um estrondo, mais forte e mais próximo que os trovões, fez o prédio chacoalhar.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Dói. Dor.
Quando olho pra rua e o vento sopra, dá aquela sensação de
liberdade que eu queria carregar comigo o tempo todo. A sensação de luz, de
paz, de movimento ao mesmo tempo, mesmo sabendo o quanto isso é contraditório.
Mas mesmo assim eu gosto de sonhar, por que é de graça e
ninguém pode roubar/tombar meu sonhos. Ninguém? Ninguém mesmo?
É inacreditável o talento que as pessoas possuem para
salvar/estragar seu dia. Chega a ser estranho.
E o quanto eu me bloqueio, me travo, me protejo, me impeço
de chorar ou de desistir. Isso é quase infantil, na verdade. Pra que segurar,
se o choro que vem fácil e ligeiro é a melhor solução? Por que no choro, fácil
e ligeiro, velho conhecido das noites quentes e escuras precisa de carinho, de
acalento, precisa de abraço, de aconchego, de proteção.
E chorar sozinho, definitivamente não corresponde às
expectativas do choro fácil e ligeiro. Corresponde apenas ao choro denso,
amargo, triste, choro de se chorar sozinho, choro de se chorar no cantinho,
choro de chorar triste, tristinho.
Só esse choro dá conta do meu vazio, da minha imensidão, e
até mesmo da minha contradição. Por que eu me esforço, mas ela ainda habita
aqui dentro, habita contradição em mim numa proporção que é tão avassaladora,
grande, feroz, indomável, que dói.
Dói dor de choro, dor de parto, dor de braço quebrado. Dói
dor de dores doloridas (?).
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Quando é Eterno. Parte II
Quando cheguei à universidade, pude sentir a tensão que pesava o ar e enchia os corredores de murmúrios e vozes conspiradoras. Na semana seguinte, estaríamos a caminho de Ibiúna. Tudo podia dar errado, poderíamos ser presos pela dita dura. E eu me assustava com a possibilidade de a polícia nos descobrir e não conseguia me concentrar; sabia que todos contavam comigo, mas como poderia ir para Ibiúna, se não
sei onde meu destino pode estar?
A carta de tarô continuava pesando, em minha bolsa, mente e coração. Em algum lugar do meu cérebro, eu registrava a passagem dos dias, as reuniões incontáveis na calada da noite, as negociações com a PJ e a Viração. Nem dez dias passaram antes que eu já estivesse em Ibiúna. Minha tarefa seria receber um grupo de vinte e cindo estudantes na enorme casa que herdei de minha avó, e continuava lá, intacta, como se ela ainda morasse naquele sobrado de paredes caiadas. Na soleira da porta, lembranças da infância me assolaram, e eu podia sentir a aura do lugar me puxando para dentro da casa. Há muito tempo ninguém ia lá, portanto era preciso uma limpeza no local. Depois de tudo limpo e arrumado com a ajuda de uma diarista, saí para fazer compras e abastecer a dispensa. Na cidade, todos estranhavam minha presença repentina. Não que seja algo que pudesse passar despercebido, mas eu esperava que “eles” fossem menos intrusos. Tive que emitir falsos sorrisos e mentir por mais de uma dúzia de vezes. O discurso ensaiado foi fácil de dizer:
- Resolvi trazer alguns amigos da faculdade para passar o final de semana na casa de vovó. Acho um desperdício deixar aquela casa grande fechada.
Dois dias depois começaram a chegar os meus convivas. Alguns já amigos de longa data, outros aliados da oposição, e alguns rostos novos. Formávamos um grupo bem diverso de jovens estudantes, espalhados em grupos pelos grandes quartos do casarão. Na sexta de manhã, chegaram os últimos dois, que dividiriam o meu antigo quarto no térreo. Juntos, eram estranhamente diferentes, mas complementares ao mesmo tempo,
como se houvesse algum tipo de dependência entre os dois. León, mais velho, rosto marcado pelo sol, e marcas de expressão de um sorriso fácil, já conhecia de vista. Um estudante de Filosofia da UnB. O outro, porém, mais parecia um garoto. Sim, sua idade deveria estar em torno dos 17 anos, não mais que isso. Seu nome era Gabriel.
Tudo parecia correr bem. Infelizmente, não conseguimos disfarçar nossa movimentação. A cidade inchou com a presença dos aproximadamente 1.000 estudantes mobilizados para o que seria o XXX Congresso da UNE, feito na clandestinidade, o que não passou despercebido no comércio local. Faltou comida e outros gêneros nos supermercados, vendas, mercearias e farmácias.
Depois de uma reunião que se arrastou horas e horas noite adentro, e alguns copos de vinho, eu já estava perto de casa andando sozinho no silencio da madrugada quando os ouvi.. Carros passavam velozmente pelas ruas próximas, e passos ecoavam cadenciadamente em minha direção. Corri, vencendo os poucos metros que ainda me afastavam de casa, e me atirei portão adentro. No escuro, não vi que mais alguém se movia apressadamente por ali. Só fui perceber tarde demais quando nossos corpos se chocaram e bati contra o solo gramado. León arrastava Gabriel porta adentro enquanto gritava com um olhar ferino no rosto:
- Vá pra dentro. Se esconde. Vou fazer eles me seguirem.
Então ele pegou minha mão e me fez segurar Gabriel.
- Ajuda ele. Por mim, sim? Cuida do meu irmão!
Puxei Gabriel, que relutava em se afastar de León, e tranquei a porta. Dane-se. Não dava tempo de esperar todos chegarem, a maioria devia estar escondida mesmo em algum lugar, nalguma das outras casas que usamos para alojar os estudantes. Quem tiver ficado fora que se arranje. Fomos para a cozinha, onde tranquei a porta dos fundos, e esperamos. Ouvi o portão de grade bater com estardalhaço, provável vítima de um chute.
Precisávamos nos esconder, mas o garoto mal se movia, sentado num canto da cozinha, e muito menos dava qualquer atenção ao que eu fazia. Peguei minha bolsa cáqui, coloquei uma vasilha com alguns biscoitos e um cantil; não adiantaria muito, já que a casa deveria estar cercada. Foi aí que me lembrei. Com os biscoitos de nata na mão, o cheiro de casa velha, a mobília puída, os panos de prato bordados, parecia que minha vó estava ali, ao meu lado, retirando do forno sua própria receita de biscoito herdada da bisa:
- Desça já daí e venha comer! Já falei pra não ficar brincando no elevador de pratos!
Estava bem ali. Alguns metros ao lado, a portinha de madeira, escondida sob o papel de parede ao lado da escada, que abrigava o pequeno elevador utilizado por minha avó para subir os pratos para a sala de jantar no segundo andar. O mimo que meu avô construiu para que ela pudesse dar seus animados jantares na sala de cima. Puxei o garoto relutante, abri a porta e o fiz entrar. Me espremi lá dentro o máximo que pude. Bati a porta e passei a pequena tranca que havia do lado de dentro e que eu havia instalado com minhas próprias mãos na infância.
O calor aumentava e ambos suávamos mais e mais naquele espaço pequeno e abafado; abafamento esse que só se agravava, pois fomos obrigados a nos abraçar para caber lá dentro. Um estrondo foi o anúncio da porta da frente sendo levada ao chão. Passos apressados, policiais gritando. A repressão estava ali, a centímetros de nós, quando dois policiais pararam bem em frente ao elevador, e começaram a transmitir ordens para os demais. Prendi minha respiração o máximo que pude. Gabriel procurava não fazer barulho algum. Passado algum tempo, eles se foram. Entretanto, continuamos ali. Com muito esforço ele tirou a camiseta branca que vestia e continuou junto ao meu corpo, em silencio. Me afastei dele os poucos centímetros que o espaço apartado permitia, e nos observamos atentamente. Seus cabelos, castanhos, não sabiam se queriam ser lisos ou crespos; tinha a pele do rosto com manchas brancas, provavelmente do sol; no ombro direito, uma marca, em V, branca como uma cicatriz, contrastava na meia luz com sua pele queimada de sol; eu podia ouvir seu coração batendo acelerado, sentir sua respiração. Foi quando seus olhos profundamente cinzentos e meus olhos negros como breu se encontraram.
Sem aviso, sem qualquer sinal, na meia luz e no calor infernal, em meio à tensão e ao medo, seus lábios vieram de encontro aos meus; sua língua quente e áspera tocou a minha, e me levou mais para perto de si.
Ali, naquele turbilhão de sensações, perdi o foco do presente por um momento e vaguei para a distante lembrança da garota cigana naquela noite, um mês atrás. A noite em que ganhei a carta de tarô:
“-Você irá encontra-lo quando houver medo em seu coração. Ele terá olhos de tempestade e lhe tirará da solidão. É seu destino tê-lo nos braços, mas haverá que escolher, entre seguir seu caminho, ou ficar ao lado dele, protege-lo e lutar ao lado dele”.
Lembro que achei impossível, lembro que recusei. Lembro que ela se foi assim que me entregou a carta. A carta que pesa em minha bolsa mente e coração. Eu não podia acreditar que aquele homenzinho, aquele garoto de 17 anos era a minha outra parte. A parte perdida da minha alma, que fosse me completar. Logo eu, já responsável por mim mesmo do alto de meus 21 anos. Logo eu, Caio César, que fugi de casa quando meu pai não me aceitou, homossexual que sou.
Como poderia aceitar que um garoto me beijava com tanta ternura e afeto? Como seria possível ele ser parte de mim e eu ser parte dele naquele exato momento? Não sei. Só sei que o amei mais que a mim mesmo, ali naquele instante, quando seus olhos tocaram o fundo dos meus. Quando nossas almas se abraçaram; quando soube que o protegeria e sairíamos vivos dali, a qualquer custo.
***
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