Capítulo X
Frente a Frente
As portas se fecharam.
Lúcio olhou para Vera.
Ela continuava tranquila.
— O que você quer de mim?
Vera caminhou até a mesa e desligou o projetor.
— Quero que você pare de fugir.
— Eu não estou fugindo.
— Está desde o momento em que saiu do Norte.
Lúcio sentiu a irritação crescer.
— Eu fui atrás da verdade.
— E encontrou?
Ele pensou em Billy.
Nas pastas vermelhas.
No Templo.
Na FES.
Na Academia.
Naquela Torre.
— Encontrei coisas que você tentou esconder.
Vera assentiu.
— Algumas.
— Por quê?
— Porque nem toda verdade pode ser entregue de uma vez.
— Isso é o que vocês sempre dizem.
Vera se aproximou.
— E você sempre acreditou.
Lúcio ficou em silêncio.
Aquilo doeu mais do que deveria.
Porque era verdade.
Durante anos, ele acreditara na AIR.
Acreditara em Vera.
Acreditara que obedecer era uma forma de fazer a coisa certa.
— Você me enganou.
— Não.
Vera respondeu com calma.
— Eu deixei você acreditar no que precisava acreditar.
Lúcio franziu a testa.
— Isso é a mesma coisa.
— Não para mim.
Ele deu um passo à frente.
— O que aconteceu no Norte?
— Você descobriu que seu irmão faz parte do Comando Rebelde.
— E você já sabia.
— Sim.
— Por quanto tempo?
Vera não respondeu.
— Desde antes de eu chegar lá?
Silêncio.
Lúcio sentiu a resposta antes de ouvi-la.
— Sim.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Então aquela missão...
— Era necessária.
— Para encontrar Raylla?
— Também.
Lúcio abriu os olhos.
— Também?
Vera sustentou seu olhar.
— Para você encontrar Billy.
O coração de Lúcio disparou.
— Você queria que eu encontrasse meu irmão.
— Queria.
— Por quê?
— Porque eu precisava saber o que ele faria quando estivesse diante de você.
Lúcio ficou imóvel.
— E o que ele fez?
— Tentou convencê-lo a ficar.
— E você queria que eu recusasse.
— Eu queria que você escolhesse.
Lúcio riu sem humor.
— Você chama isso de escolha?
Vera não respondeu.
Ele começou a andar pela sala.
— Você colocou soldados em volta da Vortex.
— Sim.
— Mandou me perseguirem.
— Sim.
— Deixou que eu chegasse até aqui.
— Sim.
Lúcio parou.
— Então tudo isso foi planejado.
— Nem tudo.
— O quê não foi?
Vera sorriu discretamente.
— Você.
Pela primeira vez, Lúcio não soube o que responder.
Vera se aproximou da janela.
— Essa é a parte que você ainda não compreendeu. A AIR pode controlar cidades, exércitos, recursos. Pode decidir onde as pessoas vivem e quem recebe comida ou medicamentos.
Ela olhou para a cidade.
— Mas não pode controlar aquilo que uma pessoa se torna quando finalmente decide pensar por conta própria.
Lúcio observou-a.
— Então você quer que eu pense por conta própria?
— Quero que você sobreviva tempo suficiente para fazer isso.
Ele ficou em silêncio.
Vera voltou-se para ele.
— Seu irmão acredita que a AIR precisa desaparecer.
— E você acredita que ela precisa controlar tudo.
— Não.
A resposta veio firme.
— Eu acredito que alguém precisa impedir que o mundo volte a ser o que era.
Vera apontou para a cidade.
— Antes da AIR, as Nações tinham governos. Exércitos. Fronteiras. Recursos. E ainda assim não conseguiram impedir as guerras.
— Então você tomou o lugar delas.
— Alguém precisava tomar.
— E quem decidiu que esse alguém seria você?
Vera demorou alguns segundos.
— Ninguém.
Lúcio a encarou.
— Essa foi a primeira decisão que tomamos sozinhos.
A frase ficou suspensa no ar.
Lúcio pensou em Billy.
Talvez fosse isso que os separasse.
Billy queria devolver às pessoas o direito de decidir.
Vera acreditava que dar esse direito cedo demais poderia destruir tudo.
E ele estava no meio dos dois.
— E eu? — perguntou Lúcio.
Vera voltou a olhar para ele.
— Você é uma possibilidade.
— De quê?
Ela caminhou até a mesa e abriu uma pasta.
Dentro havia documentos antigos.
Muito mais antigos do que os outros.
Na primeira página havia apenas duas palavras:
PRIORIDADE ZERO.
Lúcio sentiu um frio percorrer o corpo.
— O que isso significa?
Vera colocou a mão sobre a pasta.
— Significa que você nunca foi apenas um Desperto.
Lúcio não respondeu.
— Seu nascimento foi registrado.
— Por quem?
— Pela AIR.
— A AIR nem existia quando eu nasci.
Vera sorriu.
— Exatamente.
Lúcio sentiu a respiração pesar.
— Então quem fez esse registro?
Vera não respondeu.
O silêncio foi interrompido pelo bracelete.
Uma mensagem apareceu.
CARLA: LÚCIO, NÃO CONFIE NELA.
Vera olhou para a tela.
Depois, para Lúcio.
— Ela está tentando protegê-lo.
— E você não?
— Eu estou tentando preparar você.
Lúcio fechou a pasta.
— Para quê?
Vera se aproximou.
— Para quando descobrir o que realmente aconteceu antes da guerra.
Lúcio sentiu a força ao redor dos objetos da sala responder à sua tensão.
Os papéis sobre a mesa começaram a se mover.
Vera não se afastou.
— Controle-se.
Ele respirou fundo.
Os papéis pararam.
Vera sorriu.
— Está vendo?
— O quê?
— Você ainda acha que seu poder é mover coisas.
Ela tocou na pasta.
— Não é.
Lúcio ficou imóvel.
— Então o que é?
Vera olhou diretamente para ele.
— Essa é a pergunta que seu irmão está tentando responder.
Um alarme começou a soar em algum lugar da Torre.
Vera não demonstrou preocupação.
Lúcio olhou para a porta.
— O que está acontecendo?
Ela apenas sorriu.
— Agora você vai descobrir.
As luzes se apagaram.
Por alguns segundos, a sala ficou completamente escura.
Então uma única tela se acendeu.
Nela apareceu uma imagem antiga.
Um registro de arquivo.
Uma data.
E, abaixo dela, um nome.
LÚCIO.
Ele se aproximou da tela.
O coração parou por um instante.
Porque aquela não era a data do seu nascimento.
Era uma data de anos antes.
E, abaixo do seu nome, havia uma segunda identificação:
PRIORIDADE ZERO: ATIVO.
Lúcio olhou para Vera.
Ela não sorria mais.
— Bem-vindo à verdadeira história — disse ela.
E, pela primeira vez, Lúcio percebeu que talvez sua história tivesse começado muito antes de ele nascer.