quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Quando é Eterno. Parte II


Quando cheguei à universidade, pude sentir a tensão que pesava o ar e enchia os corredores de murmúrios e vozes conspiradoras. Na semana seguinte, estaríamos a caminho de Ibiúna. Tudo podia dar errado, poderíamos ser presos pela dita dura. E eu me assustava com a possibilidade de a polícia nos descobrir e não conseguia me concentrar; sabia que todos contavam comigo, mas como poderia ir para Ibiúna, se não 
sei onde meu destino pode estar? 

 A carta de tarô continuava pesando, em minha bolsa, mente e coração. Em algum lugar do meu cérebro, eu registrava a passagem dos dias, as reuniões incontáveis na calada da noite, as negociações com a PJ e a Viração. Nem dez dias passaram antes que eu já estivesse em Ibiúna. Minha tarefa seria receber um grupo de vinte e cindo estudantes na enorme casa que herdei de minha avó, e continuava lá, intacta, como se ela ainda morasse naquele sobrado de paredes caiadas. Na soleira da porta, lembranças da infância me assolaram, e eu podia sentir a aura do lugar me puxando para dentro da casa. Há muito tempo ninguém ia lá, portanto era preciso uma limpeza no local. Depois de tudo limpo e arrumado com a ajuda de uma diarista, saí para fazer compras e abastecer a dispensa. Na cidade, todos estranhavam minha presença repentina. Não que seja algo que pudesse passar despercebido, mas eu esperava que “eles” fossem menos intrusos. Tive que emitir falsos sorrisos e mentir por mais de uma dúzia de vezes. O discurso ensaiado foi fácil de dizer: 
 - Resolvi trazer alguns amigos da faculdade para passar o final de semana na casa de vovó. Acho um desperdício deixar aquela casa grande fechada. 
Dois dias depois começaram a chegar os meus convivas. Alguns já amigos de longa data, outros aliados da oposição, e alguns rostos novos. Formávamos um grupo bem diverso de jovens estudantes, espalhados em grupos pelos grandes quartos do casarão. Na sexta de manhã, chegaram os últimos dois, que dividiriam o meu antigo quarto no térreo. Juntos, eram estranhamente diferentes, mas complementares ao mesmo tempo, 
como se houvesse algum tipo de dependência entre os dois. León, mais velho, rosto marcado pelo sol, e marcas de expressão de um sorriso fácil, já conhecia de vista. Um estudante de Filosofia da UnB. O outro, porém, mais parecia um garoto. Sim, sua idade deveria estar em torno dos 17 anos, não mais que isso. Seu nome era Gabriel. 
Tudo parecia correr bem. Infelizmente, não conseguimos disfarçar nossa movimentação. A cidade inchou com a presença dos aproximadamente 1.000 estudantes mobilizados para o que seria o XXX Congresso da UNE, feito na clandestinidade, o que não passou despercebido no comércio local. Faltou comida e outros gêneros nos supermercados, vendas, mercearias e farmácias. 
Depois de uma reunião que se arrastou horas e horas noite adentro, e alguns copos de vinho, eu já estava perto de casa andando sozinho no silencio da madrugada quando os ouvi.. Carros passavam velozmente pelas ruas próximas, e passos ecoavam cadenciadamente em minha direção. Corri, vencendo os poucos metros que ainda me afastavam de casa, e me atirei portão adentro. No escuro, não vi que mais alguém se movia apressadamente por ali. Só fui perceber tarde demais quando nossos corpos se chocaram e bati contra o solo gramado. León arrastava Gabriel porta adentro enquanto gritava com um olhar ferino no rosto: 
- Vá pra dentro. Se esconde. Vou fazer eles me seguirem. 
Então ele pegou minha mão e me fez segurar Gabriel. 
- Ajuda ele. Por mim, sim? Cuida do meu irmão! 
Puxei Gabriel, que relutava em se afastar de León, e tranquei a porta. Dane-se. Não dava tempo de esperar todos chegarem, a maioria devia estar escondida mesmo em algum lugar, nalguma das outras casas que usamos para alojar os estudantes. Quem tiver ficado fora que se arranje. Fomos para a cozinha, onde tranquei a porta dos fundos, e esperamos. Ouvi o portão de grade bater com estardalhaço, provável vítima de um chute. 
Precisávamos nos esconder, mas o garoto mal se movia, sentado num canto da cozinha, e muito menos dava qualquer atenção ao que eu fazia. Peguei minha bolsa cáqui, coloquei uma vasilha com alguns biscoitos e um cantil; não adiantaria muito, já que a casa deveria estar cercada. Foi aí que me lembrei. Com os biscoitos de nata na mão, o cheiro de casa velha, a mobília puída, os panos de prato bordados, parecia que minha vó estava ali, ao meu lado, retirando do forno sua própria receita de biscoito herdada da bisa: 
- Desça já daí e venha comer! Já falei pra não ficar brincando no elevador de pratos! 
Estava bem ali. Alguns metros ao lado, a portinha de madeira, escondida sob o papel de parede ao lado da escada, que abrigava o pequeno elevador utilizado por minha avó para subir os pratos para a sala de jantar no segundo andar. O mimo que meu avô construiu para que ela pudesse dar seus animados jantares na sala de cima. Puxei o garoto relutante, abri a porta e o fiz entrar. Me espremi lá dentro o máximo que pude. Bati a porta e passei a pequena tranca que havia do lado de dentro e que eu havia instalado com minhas próprias mãos na infância. 
O calor aumentava e ambos suávamos mais e mais naquele espaço pequeno e abafado; abafamento esse que só se agravava, pois fomos obrigados a nos abraçar para caber lá dentro. Um estrondo foi o anúncio da porta da frente sendo levada ao chão. Passos apressados, policiais gritando. A repressão estava ali, a centímetros de nós, quando dois policiais pararam bem em frente ao elevador, e começaram a transmitir ordens para os demais. Prendi minha respiração o máximo que pude. Gabriel procurava não fazer barulho algum. Passado algum tempo, eles se foram. Entretanto, continuamos ali. Com muito esforço ele tirou a camiseta branca que vestia e continuou junto ao meu corpo, em silencio. Me afastei dele os poucos centímetros que o espaço apartado permitia, e nos observamos atentamente. Seus cabelos, castanhos, não sabiam se queriam ser lisos ou crespos; tinha a pele do rosto com manchas brancas, provavelmente do sol; no ombro direito, uma marca, em V, branca como uma cicatriz, contrastava na meia luz com sua pele queimada de sol; eu podia ouvir seu coração batendo acelerado, sentir sua respiração. Foi quando seus olhos profundamente cinzentos e meus olhos negros como breu se encontraram. 
Sem aviso, sem qualquer sinal, na meia luz e no calor infernal, em meio à tensão e ao medo, seus lábios vieram de encontro aos meus; sua língua quente e áspera tocou a minha, e me levou mais para perto de si. 
Ali, naquele turbilhão de sensações, perdi o foco do presente por um momento e vaguei para a distante lembrança da garota cigana naquela noite, um mês atrás. A noite em que ganhei a carta de tarô: 
“-Você irá encontra-lo quando houver medo em seu coração. Ele terá olhos de tempestade e lhe tirará da solidão. É seu destino tê-lo nos braços, mas haverá que escolher, entre seguir seu caminho, ou ficar ao lado dele, protege-lo e lutar ao lado dele”. 
Lembro que achei impossível, lembro que recusei. Lembro que ela se foi assim que me entregou a carta. A carta que pesa em minha bolsa mente e coração. Eu não podia acreditar que aquele homenzinho, aquele garoto de 17 anos era a minha outra parte. A parte perdida da minha alma, que fosse me completar. Logo eu, já responsável por mim mesmo do alto de meus 21 anos. Logo eu, Caio César, que fugi de casa quando meu pai não me aceitou, homossexual que sou. 
Como poderia aceitar que um garoto me beijava com tanta ternura e afeto? Como seria possível ele ser parte de mim e eu ser parte dele naquele exato momento? Não sei. Só sei que o amei mais que a mim mesmo, ali naquele instante, quando seus olhos tocaram o fundo dos meus. Quando nossas almas se abraçaram; quando soube que o protegeria e sairíamos vivos dali, a qualquer custo. 

***

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Quando é Eterno. Parte I

[Antes de qualquer coisa, é preciso explicar o por que da ausência de posts por aqui. Além da Terra Devastada está em Hiatus (ou seja, uma pausa), por que a trama é complexa e precisa de um tempo que não estou podendo dispor para terminá-la. Enquanto isso, deixo vocês com esse conto em três partes chamado Quando é Eterno, um conto de época. Apresentei ele na Bienal de Cultura e Arte da UNE, no começo de 2013. Espero que gostem. 2 beijos, Glauco]

Quanto é Eterno  

Brasil, 1968.   

E ele derramou sobre mim aquele seu olhar resignado, acusador e persecutório, enquanto caminhava em meio à bagunça e às minhas roupas. Parou e começou a vasculhar minha bolsa cáqui, provavelmente em busca de algo que incriminasse alguma traição. Lembrei-me que estava ali a carta de tarô, o enamorado, com meu nome escrito em seu verso. Quando a pegou, observou atentamente e me perguntou do que se tratava. Disse que era um presente, algo que havia ganho. Ele pareceu se interessar pelo objeto, mas não me perguntou nada mais, talvez para não me aborrecer, ou aborrecer a si mesmo. Pousou a carta sobre a cômoda e se aproximou de mim. Podia sentir sua respiração apressada, podia ver suas mãos tremendo e o suor escorrendo por sobre sua pele que ardia. Arrebatou-me em seus braços e me beijou, com uma volúpia que eu não compreendia. Naquele momento me entreguei à ele, mesmo sabendo que não era ele meu destino, mesmo sabendo que o dono do meu coração estava por aí em algum lugar. 
Me esperando?  
Então ele ligou o aparelho de som. Na rádio, “Carinhoso” tocava enquanto ao mesmo tempo ele me despia e abraçava. O sol da manhã jogava uma luminescência dourada através das cortinas de renda. O ar aquecido, somado ao gosto amargo de seu perfume quando meus lábios tocaram seu pescoço, me intoxicava. Me jogou na cama e me beijou ainda mais. Tirou sua roupa e então nossos corpos nus se encontraram, com força, ferocidade, selvageria até.  
Após algum tempo, nossas respirações aceleraram. Podia sentir que o momento se aproximava. O ápice chegava com pressa, como se dentro dele estivesse guardado há muito tempo, esperando para se libertar. Quando não podia mais, com o suor escorrendo entre nossos corpos, o calor de nossa pele queimando, a velocidade, a força, tudo se uniu num turbilhão de sensações, cores, toques, sons, gritos, gemidos, e assim como começou, rápido se foi.  
Levantei-me, e tomei banho. Da cama ele me observava, e quando saí pude ver lágrimas se formando em seus olhos. Não podia ficar para ver, não podia mais me unir a ele. Não podia deixar que continuássemos. Tinha que seguir meu caminho, foi o que a cigana disse.   

*** 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Além da Terra Devastada. VI

O que se estende à minha frente poderia muito bem ser classificado de imponente. É um prédio de três anadares, cinza e azul, com um portão grande de ferro. Feio. E então o portão se abriu e eu mudei de ideia. O portão dá para um pátio imenso e arborizado, com bancos e algumas áreas circulares cercadas por banquinhos de concreto baixos e simples.
"Olá. Obrigado por se juntar à nós Lúcio!" 
É um senhor atarracado, e meio efusivo demais, que me acena com um sorriso cheio de dentes.
"Ah, olá Sr. ...?"
"Alfredo. Mas, por favor, sente-se". Ele me puxa para debaixo de uma árvore e um dos bancos de concreto vem flutuando até nós e aterriza delicadamente no chão. 
"Então você é um jovem telepata? Me lembro da sua mãe quando se mudou para a Cidade de Vidro. Ela mal sabia do que era capaz! Mas logo ela se tornou um prodígio aqui na Academia".
"Hum...Academia?"
"Imagino que ela não tenha te explicado! Esse lugar é chamado apenas de A Academia. É aqui que Controladores são treinados para aprender a usar seus talentos. Muita gente já passou por aqui, sabe, e é ótimo poder te receber!"
"Então, que tipo de treinamento acontece aqui?"
"Bem, depende do seu talento. Como você é um Telepata, vai aprender a controlar suas emoções, mover objetos, o básico. Você também pode escolher aprender mais alguma coisa, que complemente seu talento, como influenciar os elementos, ou técnicas de combate para os Controladores que possuem talentos mais físicos, e ciência avançada para os super inteligentes. Mas não se preocupe, você vai encontrar algo interessante, tenho certeza!"
"O.k. Então, por onde começo?"
"Bem, sua mãe já esteve aqui e já conversamos. Por que não começa com o básico? Hora de mover objetos com a mente. Vou apresentar seu instrutor, Thales".
À menção do nome, um cara alto, de pele curtida pelo sol com tatuagens nos braços surge das sombras perto de nós. Ele tem um olhar penetrante, e os cabelos raspados. É mais velho que eu, mas algo nele me sugere rebeldia e indignação.
"Bem vindo à Academia. Sou Thales, e serei seu instrutor. Me acompanhe".
Ele não parece muito de papo, e as tatuagens parecem um sinal claro de perigo. Ele entra em um elevador e eu vou junto. Chegamos ao terraço da Academia e ele aponta para uma pedra posicionada no centro de um círculo vermelho do meu lado direito.
"Sua primeira tarefa é mover aquela pedra para fora do círculo".
"Mas eu não consigo mover objetos assim. Eu só..."
"É claro que consegue, basta se concentrar. Agora sente-se no chão".
A manhã clara e alegre foi substituída por um sol escaldante. É quente demais aqui em cima, e o chão ferve sob mim.
"Eu não consigo fazer isso!"
"Consegue sim. Se concentre na pedra! Libere sua mente!"
Como se fosse algo simples assim. Como esse cara se dá o direito de me tratar assim?
"Anda, eu não tenho o dia todo! Se demorar você vai ficar sem almoço!"
 "Hey, você deveria ser algum tipo de instrutor. Instrutores ensinam, não tentam nos obrigar a sair por aí movendo pedras com  a mente debaixo de um sol como esse!"
"Infelizmente pra você, é desse jeito que eu ensino, e você vai ter que aprender".
Nessa hora eu já estou de pé, encarando-o. Não que seja uma boa ideia fazer isso, mas não dá mais pra ficar sentado ouvindo esse cara me tratar desse jeito. Ninguém me trata assim.
"Olha aqui, se for pra ser desse jeito eu vou dar o fora, ok? Ninguém age assim comigo".
Quando dou as costas, ele segura meu braço direito, com força, e me faz parar.
"Solta".
"Não".
"Me solta agora".
"Não".
"ME SOLTA!" - bum!
Nessa hora a pedra sai voando do centro do círculo e passa muito, muito perto da cabeça dele, se chocando contra a parede próxima causando a ela uma rombo considerável. Espero que ninguém tenha se machucado. Thales me encara, seu olhar é zangado, mas ao mesmo tempo tem algo de fascinado.
"Tarefa concluída. Pode ir agora. Nos vemos novamente amanhã de manhã".
Chega. Os últimos dias tem sido demais pra mim. Preciso encontrar Carla, e contar tudo a ela. Preciso desabafar. E preciso aprender a controlar a telecinese antes que mate alguém.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Além da Terra Devastada. V

Eu abro os olhos, mas continua escuro. Quando olho para cima posso ver estrelas e luzes no topo dos prédios, e tudo cintila. É lindo. Estou de volta à Cidade de Vidro. Meu corpo está fraco, minhas pernas tremem. Minha boca está seca. Vortex. 
Estou estirado, no chão de concreto do mesmo beco de antes. O lugar todo vazio, como antes. Mas a sensação de estar sendo observado não me abandona. Flashes do "interrogatório" espocam na minha mente junto com o latejar da dor de cabeça. Até me levantar dói. 
Respiro devagar, fico de pé e me oriento. Sigo pela rua lateral andando devagar até a próxima estação de trem. No relógio, oito e meia da noite, bem a tempo do próximo trem para o lado oeste da cidade, onde moro. A viagem corre tranquila, num vagão vazio. Apenas o trepidar do trem e o latejar da cabeça atrapalham meus pensamentos. 
Definitivamente é muita informação para processar: em apenas um dia fui mandado para a capital da Nação do Norte, encontrei meu irmão mais velho que sumiu há quase dois anos sem deixar notícias, fui cercado por uma equipe da Força de Estabilidade Social, Clara chamou minha atenção e me pediu para mentir, fui atacado, sequestrado e interrogado, e acho que as luzes piscando e estourando só podem significar que meu talento de Controlador está se manifestando. 
"Vivas pra mim, então". Eu rio, descontroladamente no vagão vazio. É o que eu faço quando fico nervoso. Daí a lâmpada na outra ponta do vagão explode e me assusto. Hora de parar e me acalmar. Finalmente o trem chega na estação e eu desço. Agora são só alguns minutos até em casa.
Minha casa cinza e silenciosa. Ficou assim depois que Billy se foi, há quase três anos. Eu nem lembro de como era quando papai estava aqui. Eu nem lembro do rosto dele. Mas ele se foi, para sempre, como minha mãe - amarga e vazia - costuma dizer. 
Quando entro, passo pelo hall e ela está lá, na sua cadeira de balanço sentada, com um livro no colo, olhando o vazio, exatamente como todos os outros dias nos últimos anos. O cheiro de comida impregna o ar - ela continua uma ótima cozinheira -, mas a alegria de cozinhar e criar novos pratos parece ter se esvaído dela. 
"Boa noite mãe"
"Boa noite Lúcio"  - Ela continua olhando o vazio.
"Como foi seu dia?"
"Eu cuidei da casa, fiz compras, cozinhei para nós, fiz trabalho voluntário. E você?"
Essa é a resposta de todos os dias.
"Eu saí numa missão de campo, e vi o Billy".
Num salto, ela se ergue da cadeira, joga fora o livro e anda na minha direção. Pela primeira vez em anos eu vejo brilho em seu olhar. Ela me arrasta pra cozinha, serve água num copo alto e se senta na mesa. Faço o mesmo e lhe conto como foi o encontro com meu irmão.
"Eh...então ele quer que eu vá visitá-lo?"
"Pelo menos foi o que ele disse. Mas não disse muito mais".
"Então ele não desistiu da gente".
"Uh, desistir?"
"É. Achei que ele tinha desistido, e ido morar em algum lugar ermo e distante. Mas ele não está tão longe assim".
Nisso ela olha para o armário, ele se abre e pratos e talheres voam para a mesa. Há muito não via ela usar seu talento em casa. Meio que a tristeza o bloqueava. Saber notícias de Billy realmente deixou ela de bom humor. Hora de aproveitar a deixa.
"Hum, mãe, como foi que, hum, começou isso de ser uma Controladora?"
"Bem, é interessante já que perguntou. Eu não sabia que era uma Controladora, por que era difícil encontrar Controladores telepatas na Cidade das Pedras, que é de onde eu venho. A maioria dos Controladores de lá tem talentos ligados aos elementos. Seu tio Blásio por exemplo, consegue controlar o fogo. Então quando eu não manifestei nenhum talento ligado aos elementos até os 16 anos, todo mundo pensou que eu não fosse uma Controladora, mas ninguém ligou muito pra isso, já que minha mãe também não era Controladora, e geralmente se herda o talento da mãe. Foi por isso que passei horas e horas a fio com ela na cozinha aprendendo a cozinhar. Então um dia eu estava ajudando sua avó com uma torta, e deixei uma tigela com vários ovos caírem no chão. Eu lembro que gritei por medo dos cacos de cerâmica me cortarem, mas a tigela não caiu. Ela ficou flutuando no ar a uns dois palmos do chão, e duas lâmpadas estouraram, deixando minha mãe muito assustada".
"Que interessante". Eu mastigo com cautela os pedaços de frango e salada que ela serviu. Não é normal ela estar tão receptiva, nem tão falante assim. Não posso passar dos limites. "E como você soube que eu sou um Controlador também?" 
"Bem, eu sou uma telepata. Quando eu te toquei pela primeira vez, quando você nasceu, algo "estalou" dentro de mim. É algum tipo de sentido-controlador que só telepatas têm. Por que, aconteceu alguma coisa?"
"Bem, acho que eu estourei algumas lâmpadas com a mente, entre outras coisas". Não vou assustá-la com o fato de ter sido sequestrado e interrogado. Isso é uma informação que precisa ser investigada, e minha mãe definitivamente não é a pessoa certa pra isso. 
"Então você precisa de treinamento. Amanhã vou fazer uma visita a um amigo. Ele vai te treinar para aprender a usar seu talento com responsabilidade. Telepatas são raros, mas precisam ser treinados para não fazerem besteira".
Fico imaginando que tipo de besteira um telepata pode fazer, mas não preciso ir muito longe: lâmpadas explodindo já são uma boa ideia do que meu talento de controlador é capaz. Por um instante, vejo luz nos olhos dela. Parece que pelo menos por agora minha mãe está de volta.






Além da Terra Devastada. IV


Primeiro sinto o latejar da cabeça, e aos poucos as sombras que vejo vão se tornando mais nítidas. Estou em uma poltrona larga, confortável, na extremidade de uma sala retangular, comprida. Na minha frente há uma mesa, baixa, e uma cadeira. Sentada nela está um homem alto, forte com a barba por fazer. Seu olhar é penetrante, como se quisesse ler algo em mim. Percebo que muita gente parece querer algo de mim ultimamente.
“Olá”, ele diz, cruzando os braços e se apoiando na mesa, ficando baixo, como um animal selvagem prestes a atacar.
“Oi”.
“Espero que esteja confortável”.
“Um pouco demais, até. Não vai se apresentar?”
“Digamos apenas que saber meu nome não vai tornar as coisas mais agradáveis, Lúcio”. Quando diz isso ele desvia o olhar, e posso ver o piercing na lateral direita de seu rosto, próximo à orelha.
“Pode pelo menos me dizer o que eu estou fazendo aqui?”
“Você é muito exigente para um auxiliar das Missões de 16 anos”.
“O que você esperava, uma garotinha que vai começar a chorar e pirar quando ameaçada?”
“Na verdade não, sendo quem você é”.
“E quem eu sou?”
“Ninguém, na verdade. Você está no Templo, Lúcio, refúgio para aqueles que defendem o bem”.
“Agora defender o bem é sequestrar auxiliares das Missões?”
“Não. Defender o bem é enxergar a verdade por trás das mentiras que nos contam. E vai por mim, eu sei muito bem quando mentem pra mim”. Ele se levanta rápido, e tira do bolso uma seringa com um líquido transparente. Estou começando a odiar seringas.
“Bem, isso não vai doer, só vai deixar você menos inibido, ok?”
“Quem você pensa que é pra fazer isso comigo? Você é um louco!” Digo e me levanto, encarando ele nos olhos, apenas a mesa entre nós.
“Isso não importa, na verdade. Segurem-no”. Dois homens surgem por trás de mim e me seguram. Eu vejo ele destampar a seringa e sinto a picada da injeção. Conforme os segundos passam, meus membros relaxam e minha mente começa a ficar levemente enevoada. É. Enevoada é a palavra correta.
“Vamos falar um pouco de você, meu jovem. Como se chama, onde trabalha?”
“Eu me chamo Lúcio”. De repente tudo flui de mim com uma imensa facilidade, como se não houvesse necessidade de guardar nada pra mim, ou de mentir. “Trabalho na divisão de missões humanitárias, na Cidade de Vidro, sede das Missões”.
“E você já fez alguma missão de campo?”
“Sim, uma”.
“E qual era o objetivo?” O objetivo. A Cidade do Norte. Meu irmão. Raylla. O Vortex. Alana. A FES. Clara. Eu não posso contar a ele. Mas talvez deva. Afinal, não tenho que guardar segredos. Guardar segredos deixa minha cabeça pesada, incomoda.
“Qual era o objetivo da sua missão, Lúcio?”
O incômodo aumenta. Preciso piscar os olhos várias vezes para espantar a dor que isso está se tornando. Minha pulsação aumenta. Quando olho novamente para meu interrogador, ele parece assustado.
“O que está acontecendo Lúcio?”
“E-eu não sei, mas dói. Faça parar”.
Então um espasmo percorre todo meu corpo, a dor vira um zumbido, e preciso cerrar os dentes. Seguro os braços da poltrona para me equilibrar, o zumbido aumenta e minha pulsação acelera. Sinto o sangue fervendo nas minhas veias. A luz da sala pisca intermitentemente. Sinto que vou explodir. Alguém tenta segurar meu braço, mas é arremessado para longe, como se uma mão invisível o puxasse para trás. As lâmpadas explodem, uma atrás da outra, e a escuridão toma conta do lugar. Meu corpo para de tremer. Eu relaxo. Sinto uma pontada no braço, e apago.


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Além da Terra Devastada. III

Sim, cercados.
"Bem vindo de volta, Lúcio".
"O que está acontecendo Alana?"
Ela pareceu meio assustada, como se esperasse algum tipo de reação minha. Ou outra coisa.
"Não, nada na verdade. Só estamos aqui para assegurar que correu tudo bem. A garota vai ser levada para um alojamento agora".
Um dos comandados de Alana, usando uniforme da Força de Estabilidade Social segurando uma arma prateada subiu na plataforma e pegou Raylla pelas mãos.
"Billy disse que você ia cuidar bem de mim".
"Não se preocupe, eu vou te visitar sempre que puder".
"Vai mesmo? Promete?"
"Prometo".
"Agora que as despedidas já foram feitas, você deve se reportar à Clara imediatamente, Lúcio".
"Ok. Estou indo".
Algo na forma ríspida como Alana agiu me incomoda. Ela é grosseira e insensível na maioria das vezes, mas dessa vez ela parecia nervosa. Como se tivesse medo que alguém ou alguma coisa estivesse prestes a sair do vortex e atacá-la. Mas deve ser impressão minha. Viajar no vortex me deixa meio zonzo.
É meio da manhã, o sol se mantém firme e escaldante enquanto caminho entre os prédios de vidro e metal que dominam a paisagem da Cidade de Vidro desde que me entendo por gente. Foi aqui que a Missão escolheu ficar, erguendo a cidade do zero quando as Nações começaram a se reerguer após séculos de guerras nucleares e o degelo de parte das calotas polares do planeta. Como sou pequeno perto de toda a grandiosidade da Cidade de Vidro. Mas eu sei que lá fora, nas Nações, ainda há muito o que ver e descobrir.
"Ah, você está aí!"
"Oi Carla. Tudo bem?"
"Tudo ótimo. Fiquei sabendo que você saiu numa missão no vortex. ME CONTA TUDO! Sabe que sou louca pra fazer uma missão fora da Cidade de Vidro!"
"Te conto no bloco-restaurante, pode ser? Quero pegar um suco, o vortex me deixa com a boca seca".
"Então, pra onde você foi?, o que você fez?, quem foi com você?, o que você achou?, como era lá?"
"Calma. Eu fui para a Cidade do Norte, buscar uma garotinha orfã. Fui sozinho, foi rápido, não deu pra 'achar' muita coisa, mas era tudo muito verde lá, e fresco, as pessoas pareciam sempre sorridentes, e era bem quente".
"PÁRA TUDO. VOCÊ foi pra Cidade do Norte, no seu primeiro trabalho de campo, SOZINHO, buscar uma garotinha? Não achou nada disso meio estranho não?"
"Não. O mais estranho foi na volta. A Alana tava me esperando - ou esperando a garotinha, Raylla, não sei - com uma escolta armada da Força de Estabilidade Social. Eu achei que eles iam me prender ou me matar na hora que cheguei. Eles tinham cercado a plataforma do vortex".
"Quantos eram? da FES?"
"Uns 15 homens, armados. Por quê?"
"Bem, por que esse número é uma unidade inteira de contenção da FES. Isso não é comum. Normalmente eles nem ficam muito por aqui. O que uma unidade da FES estava fazendo longe do centro de treinamento deles?"
"Eu não sei, só sei que foi MUITO estranho, ainda mais por que era só uma garotinha".
"Essa é outra coisa estranha. Eu e você recebemos nossas designações pra atuar em questões muito específicas. Você trabalha com no setor das Missões Humanitárias, e eu estou nas bibliotecas. Mesmo assim, isso não justifica você ter ido nessa missão. Existem agentes de campo pra isso".
"Acho que talvez a Clara só esteja querendo que eu aprenda mais, tenha mais experiências. Ela me disse que isso é muito importante. Eu não vou sair por aí questionando as decisões dela só por que você está toda paranoica. Eu confio na Clara. Ela me ensinou tudo que eu sei".
"Tudo bem, cara. Não precisa encanar desse jeito. Olha, eu vou voltar pra biblioteca e terminar uma atualização no servidor. Nos vemos mais tarde".
E saiu pisando duro. Carla sempre foi uma pessoa dessas marcantes, com seus olhos verdes e cabelos "negros como a noite", como ela mesma gostava de dizer. Mas era minha amiga, e eu sei que quando os instintos dela agem assim, é por que tem alguma coisa errada. Mas talvez dessa vez fosse só apreensão pelo fato de eu ter ido sozinho.
***
"Extremamente irresponsável, pra dizer o mínimo! Una despelote! (N. d. A.: Uma desordem, bagunça)".
Eu não me apresentei imediatamente à Clara, como Alana havia me dito. E, óbvio, estou levando uma lavada por causa disso nesse exato momento.
"Desculpe Clara, não sabia que estava em algum tipo de missão secreta. Você não me disse nada. Aliás, não disse nada mesmo. Eu fui mandado na minha primeira missão de campo, com quase nenhuma informação, e ainda passei pelo infortúnio de encontrar o meu irmão. Então agradeceria se você parasse de me tratar como um garotinho, pois eu não sou um".
"Tudo bem, eu me excedi um pouco. Por que demorou?"
"Eu passei no bloco-restaurante pra tomar um suco. Eu não defino viajar no vortex como uma boa experiência".
Nesse exato momento eu tive certeza que alguma coisa estava errada. Na hora que mencionei o bloco-restaurante ela abriu a boca para dizer algo, mas parou no meio do movimento, ficando com a boca meio aberta, meio torta. E então ela se recompôs.
"Hum. E você encontrou alguém no caminho? Comentou sobre a sua missão com alguém?"
Eu poderia dizer a verdade. Que me encontrei com Carla e que conversamos sobre a missão. É o que eu devo fazer, é o certo, ainda mais com Clara, líder das Missões. Mas a forma como ela pareceu assustada me assustou também. Como se disso dependesse bem mais que uma simples punição em alguma tarefa chata. Eu ia precisar mentir, algo no qual eu não sou exatamente bom. Minha mãe diz que meu olho direito treme quando minto.
"Não. Eu não encontrei ninguém conhecido. Entrei, tomei um suco, me recompus e saí. Eu precisava de um tempo pra pensar. Eu encontrei o meu irmão na Cidade do Norte". Disse, tentando parecer um pouco chateado - o que não é mentira - para que ela não se importasse com meu olho tremendo. Para fazer parecer genuíno.
"Bem, já que é assim está o.k. Preciso que você mantenha essa missão em segredo. Se perguntarem, você foi apenas coletar dados sobre um medicamento. Não fale sobre a garota a ninguém. Queremos que ela possa se integrar à comunidade e ser adotada logo. Sua origem não é relevante".
"Se você quer assim, não faço nenhuma objeção".
"Você é um bom garoto, Lúcio. Muito maduro. Sua mãe deve ter orgulho de você. Agora, tire o resto do dia para você, está bem?"
"Muito obrigado Clara. Até mais".
"Até breve Lúcio. E não se esqueça, estou de olho em você".
Algo no olhar dela me faz acreditar que ela realmente está de olho em mim.
Não é simples começar a desconfiar de uma pessoa que é referência pra você na realização de ações humanitárias e na defesa dos direitos das pessoas, mas a desconfiança de Carla parece fazer sentido agora. Por que Clara agiria desse jeito? Por que ela enviaria Alana e uma equipe de contenção da FES para me recepcionar? Caminho a esmo pelas ruas da Cidade de Vidro enquanto penso nisso. As ruas estão brilhantes, devido ao reflexo da luz do sol nos prédios de vidro. É tudo tão lindo, mas vazio a essa hora. Posso ver algumas pessoas com as tradicionais vestes azuis e brancas das Missões passando por mim em direção ao bloco-restaurante. 
"Ei, será que você pode me ajudar?"
O pedido é feito meio baixinho, mas vem do beco próximo a mim. Caminho até a origem da voz, chego ao final do beco, mas não vejo ninguém. Pela visão periférica, vejo uma sombra atrás de mim. Eu me viro, mas é tarde demais. Tudo que vejo - e sinto - é o brilho de uma agulha e seu toque com a pele de meu braço. 
Depois disso não vejo mais nada.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Além da Terra Devastada. II

É. Eu tinha razão. Minha vida não vai mesmo ser fácil daqui pra frente, não depois do vexame nos testes de aptidão da Missão. Definitivamente não sirvo para o trabalho de campo.
"Olá, meu nome é Cássio. Você é?".
"Lúcio. Da Missão da Cidade de Vidro. Tenho uma tarefa a cumprir aqui. Pode me ajudar com o mapa?"
"É claro. Bem, você está nesse ponto, que é o centro da Cidade do Norte. Aqui diz para você ir até a Praça das Nações, que fica a algumas quadras. Dá pra ir andando. É só sair do prédio e virar à direita. Quando chegar ao fim da rua, vai ver placas indicando o local".
"Obrigado".
"A propósito, nas ordens que recebi você fica por apenas uma hora, então não perca tempo, ok?"
"Pode deixar, quero ser rápido"
Minha mãe sempre me disse que as pessoas do Norte eram diferentes. Caminhando por entre as ruas de chão batido vejo membros de várias nações indo e vindo. Diferente da Cidade de Vidro, onde o povo das Missões meio que domina tudo ao seu redor. Aqui tudo parece mais selvagem, e as pessoas mais espontâneas. Crianças usando macacões verdes passam rindo e gritando, o que me assusta um pouco. Não é típico da Missão agir assim, mas aqui no Norte é diferente.
A Praça das Nações é grande e circular, com 10 obeliscos espalhados em torno de uma pira gigantesca que permanece sempre acessa: o símbolo de que o sistema das 10 Nações funciona e continua mantendo a chama da humanidade acesa mesmo depois de vários séculos da destruição parcial do nosso mundo. Na base da chama, vários desenhos de lugares que existiam aqui antes. Quando aqui ainda se chamava "Brasil", diz o texto entalhado na pedra. "Brasil". Nome engraçado.
"Lúcio!"
A voz familiar chama minha atenção.
"Billy!"
Meu irmão. Alguém que eu não via há anos vem caminhando de mãos dadas com uma garotinha.
"Venha cá me dar um abraço!"
Abraços. Ele sempre foi caloroso assim.
"Então é aqui que você vive Billy?"
"É sim. Depois que entrei para a Missão fui mandado para cá, mas acabei me juntando ao povo do Norte. Sou uma espécie de embaixador entre a Missão e o Norte agora".
"Nossa mãe vai gostar de receber notícias suas".
"Diga a ela que estou bem, e que venha me visitar quando for possível. Esta é Raylla".
"Olá Raylla. Eu sou Lúcio, da Missão. Vim te buscar para a Cidade de Vidro".
"Você não devia me levar, eu quero ficar aqui".
"Raylla, vá com meu irmão, ele vai cuidar bem de você. E você sabe que não pode mais ficar aqui".
"Você vai para a Missão com Lúcio, e ponto. Boa viagem e boa sorte lá".
"Não precisa ser tão rude com uma criança, você sabe Billy".
"E agora você vai me dizer que eu não devia ter escolhido também? Hora Lúcio, eu estou onde eu deveria estar. E você que é um Controlador e não consegue fazer nada com seus dons patéticos?"
A adrenalina inundou meu sangue. Minha pulsação aumentou e tive uma vontade louca de socar a cara dele. Mas o tempo está passando, afinal. eu tenho que levar a garota.
"Quantos anos você tem Raylla?"
"Tenho nove".
"Então venha, que está na hora de ir".
No caminho de volta, procurei me distrair com Raylla, que dava passos vacilantes por entre as ruas sem calçamento, o que fazia a massa de cabelos loiros e finos de sua cabeça oscilar para frente e para trás. Cássio continuava lá, sentado com um sanduíche na mão. O cheiro era estranho, diferente do que temos na Missão, mas não tive tempo de perguntar o que era.
"Você vai levar ESSA garotinha?"
"Sim, algum problema? Está aqui a autorização".
Com cara de cético, Cássio leu o documento, depois checou a assinatura e o registro numa tela grande ao lado do painel de controle do vortex.
"Bem, parece que está tudo bem então. Suba no vortex com ela".
"Venha Raylla, está na hora".
"Eu tô com medo".
"Não tenha. Eu estou aqui, e vai ficar tudo bem. Você vai pra um lugar confortável onde vai ser bem cuidada, e vamos arranjar um lar pra você".
Ela ainda tropeçou no degrau da plataforma e parecia receosa, mas veio até mim. Acenei para Cássio e ele ligou o dispositivo. O zumbido característico seguido por um flash indicaram que estávamos de volta à Missão. Mas havia alguma coisa errada. Estávamos cercados.



Além da Terra Devastada. I



“Acorda logo, pra não perder o café da manhã”.
Eu não queria mesmo me levantar, queria continuar deitado, dormir mais um pouco, e esquecer o pesadelo que tinha sido a última semana. Desci para o café e estavam todos lá ainda, me encarando como se eu tivesse feito alguma coisa extremamente errada.
A culpa era toda minha, eu sabia disso, mas dessa vez eu tive que escolher. Todos da nossa nação tiveram que fazer a escolha, eu apenas fiz a minha, e preferi me sentir realizado a agradar à todo mundo. Como eu estava enganado.
“Você não devia dormir até tão tarde, já que é um ajudante agora”.
“E você não deveria se importar com o que eu faço, se desaprova tanto a minha escolha”.
Minha mãe. Como era difícil lidar com ela nos últimos tempos. Nem lembro mais quando começou, mas deve ter sido logo após meu irmão ter partido para as Missões.
“Então vá embora logo, já que te querem tão bem naquele lugar”.
Aquele lugar. Aquele lugar era um conjunto de prédios pintados de azul e branco, que simbolizavam a força humanitária das Missões. Desde a era das guerras as Missões tem ajudado as pessoas no mundo todo – ou no que sobrou dele – a reconstruir suas vidas. Foram as Missões que descobriram os Controladores. Humanos dotados de capacidades que transcendem o que entendíamos por normalidade. Passou muito tempo desde os primeiros Controladores, segundo minha mãe. Só sei que eu sou um deles, mas meu talento ainda não se desenvolveu, então não sou nada de extraordinário, na verdade.
Por isso escolhi trabalhar nas Missões. Aqui ninguém fica me pressionando, ou encarando na esperança de eu fazer objetos levitarem ou controlar uma tempestade. Aqui eu sou Lúcio. Só mais um dos jovens ajudantes da Missão.
Eu entrei no prédio e fui direto para a sala de Clara. Minha chefe no último ano, e que me ensinou quase tudo que eu sei sobre o nosso planeta e sociedade. Me mostrou que o trabalho da Missão é muito importante, e me ensinou a preservar a vida dos outros.
“Bom dia, Lúcio. Temos um caso novo para você. Existe uma órfã no norte e preciso que vá buscá-la”.
“Sim, qual supervisor vai me acompanhar Clara?”.
“Nenhum. Você vai sozinho”.
“Eu só tenho um ano na Missão, não posso sair por aí sozinho”.
“Pode sim, eu estou te enviando por que confio em você. Agora se prepare e vá ajudar essa garota”.
“Devo levar algo?”.
“Apenas o básico. O vortex estará pronto para partir em meia hora. Suas instruções estarão te esperando no lançamento”.
Ah, o vortex. Antes da primeira viagem, achava que ia ser o máximo, mas viajar de um ponto a outro instantaneamente por união quântica não foi uma experiência muito agradável. Na entrada do vortex, Alana me esperava com uma bolsa azul na mão e uma pasta preta.
“Lúcio, aqui está o roteiro da sua tarefa, e essa bolsa contém o que você precisa. Lembre-se que não deve ficar muito tempo por lá. O norte continua perigoso, cheio de Controladores mal intencionados. Você tem uma hora para buscar a menina e trazê-la. Na volta receberá novas instruções”.
Ríspida como sempre, nem olhou nos meus olhos direito. Mas também não gostaria que ela o fizesse. As marcas em seu rosto já são assustadoras o suficiente para evitar qualquer contato prolongado.
Me dirigi à plataforma quadrada e preta do vortex e fiz sinal de positivo. Como se fosse gostoso ter suas partículas desmontadas e atiradas por essa coisa. Ouvi um zumbido, seguido de um flash e caí no chão. Quando olhei novamente para onde Alana estava, um homem negro com a cabeça raspada vestido de azul acenou me chamando.

“Seja muito bem vindo ao norte!”.