Eu abro os olhos, mas
continua escuro. Quando olho para cima posso ver estrelas e luzes no topo dos
prédios, e tudo cintila. É lindo. Estou de volta à Cidade de Vidro. Meu corpo
está fraco, minhas pernas tremem. Minha boca está seca. Vortex.
Estou estirado, no chão de concreto do mesmo beco de antes. O lugar todo vazio, como antes. Mas a sensação de estar sendo observado não me abandona. Flashes do "interrogatório" espocam na minha mente junto com o latejar da dor de cabeça. Até me levantar dói.
Respiro devagar, fico de pé e me oriento. Sigo pela rua lateral andando devagar até a próxima estação de trem. No relógio, oito e meia da noite, bem a tempo do próximo trem para o lado oeste da cidade, onde moro. A viagem corre tranquila, num vagão vazio. Apenas o trepidar do trem e o latejar da cabeça atrapalham meus pensamentos.
Definitivamente é muita informação para processar: em apenas um dia fui mandado para a capital da Nação do Norte, encontrei meu irmão mais velho que sumiu há quase dois anos sem deixar notícias, fui cercado por uma equipe da Força de Estabilidade Social, Clara chamou minha atenção e me pediu para mentir, fui atacado, sequestrado e interrogado, e acho que as luzes piscando e estourando só podem significar que meu talento de Controlador está se manifestando.
"Vivas pra mim, então". Eu rio, descontroladamente no vagão vazio. É o que eu faço quando fico nervoso. Daí a lâmpada na outra ponta do vagão explode e me assusto. Hora de parar e me acalmar. Finalmente o trem chega na estação e eu desço. Agora são só alguns minutos até em casa.
Minha casa cinza e silenciosa. Ficou assim depois que Billy se foi, há quase três anos. Eu nem lembro de como era quando papai estava aqui. Eu nem lembro do rosto dele. Mas ele se foi, para sempre, como minha mãe - amarga e vazia - costuma dizer.
Quando entro, passo pelo hall e ela está lá, na sua cadeira de balanço sentada, com um livro no colo, olhando o vazio, exatamente como todos os outros dias nos últimos anos. O cheiro de comida impregna o ar - ela continua uma ótima cozinheira -, mas a alegria de cozinhar e criar novos pratos parece ter se esvaído dela.
"Boa noite mãe"
"Boa noite Lúcio" - Ela continua olhando o vazio.
"Como foi seu dia?"
"Eu cuidei da casa, fiz compras, cozinhei para nós, fiz trabalho voluntário. E você?"
Essa é a resposta de todos os dias.
"Eu saí numa missão de campo, e vi o Billy".
Num salto, ela se ergue da cadeira, joga fora o livro e anda na minha direção. Pela primeira vez em anos eu vejo brilho em seu olhar. Ela me arrasta pra cozinha, serve água num copo alto e se senta na mesa. Faço o mesmo e lhe conto como foi o encontro com meu irmão.
"Eh...então ele quer que eu vá visitá-lo?"
"Pelo menos foi o que ele disse. Mas não disse muito mais".
"Então ele não desistiu da gente".
"Uh, desistir?"
"É. Achei que ele tinha desistido, e ido morar em algum lugar ermo e distante. Mas ele não está tão longe assim".
Nisso ela olha para o armário, ele se abre e pratos e talheres voam para a mesa. Há muito não via ela usar seu talento em casa. Meio que a tristeza o bloqueava. Saber notícias de Billy realmente deixou ela de bom humor. Hora de aproveitar a deixa.
"Hum, mãe, como foi que, hum, começou isso de ser uma Controladora?"
"Bem, é interessante já que perguntou. Eu não sabia que era uma Controladora, por que era difícil encontrar Controladores telepatas na Cidade das Pedras, que é de onde eu venho. A maioria dos Controladores de lá tem talentos ligados aos elementos. Seu tio Blásio por exemplo, consegue controlar o fogo. Então quando eu não manifestei nenhum talento ligado aos elementos até os 16 anos, todo mundo pensou que eu não fosse uma Controladora, mas ninguém ligou muito pra isso, já que minha mãe também não era Controladora, e geralmente se herda o talento da mãe. Foi por isso que passei horas e horas a fio com ela na cozinha aprendendo a cozinhar. Então um dia eu estava ajudando sua avó com uma torta, e deixei uma tigela com vários ovos caírem no chão. Eu lembro que gritei por medo dos cacos de cerâmica me cortarem, mas a tigela não caiu. Ela ficou flutuando no ar a uns dois palmos do chão, e duas lâmpadas estouraram, deixando minha mãe muito assustada".
"Que interessante". Eu mastigo com cautela os pedaços de frango e salada que ela serviu. Não é normal ela estar tão receptiva, nem tão falante assim. Não posso passar dos limites. "E como você soube que eu sou um Controlador também?"
"Bem, eu sou uma telepata. Quando eu te toquei pela primeira vez, quando você nasceu, algo "estalou" dentro de mim. É algum tipo de sentido-controlador que só telepatas têm. Por que, aconteceu alguma coisa?"
"Bem, acho que eu estourei algumas lâmpadas com a mente, entre outras coisas". Não vou assustá-la com o fato de ter sido sequestrado e interrogado. Isso é uma informação que precisa ser investigada, e minha mãe definitivamente não é a pessoa certa pra isso.
"Então você precisa de treinamento. Amanhã vou fazer uma visita a um amigo. Ele vai te treinar para aprender a usar seu talento com responsabilidade. Telepatas são raros, mas precisam ser treinados para não fazerem besteira".
Fico imaginando que tipo de besteira um telepata pode fazer, mas não preciso ir muito longe: lâmpadas explodindo já são uma boa ideia do que meu talento de controlador é capaz. Por um instante, vejo luz nos olhos dela. Parece que pelo menos por agora minha mãe está de volta.
Respiro devagar, fico de pé e me oriento. Sigo pela rua lateral andando devagar até a próxima estação de trem. No relógio, oito e meia da noite, bem a tempo do próximo trem para o lado oeste da cidade, onde moro. A viagem corre tranquila, num vagão vazio. Apenas o trepidar do trem e o latejar da cabeça atrapalham meus pensamentos.
Definitivamente é muita informação para processar: em apenas um dia fui mandado para a capital da Nação do Norte, encontrei meu irmão mais velho que sumiu há quase dois anos sem deixar notícias, fui cercado por uma equipe da Força de Estabilidade Social, Clara chamou minha atenção e me pediu para mentir, fui atacado, sequestrado e interrogado, e acho que as luzes piscando e estourando só podem significar que meu talento de Controlador está se manifestando.
"Vivas pra mim, então". Eu rio, descontroladamente no vagão vazio. É o que eu faço quando fico nervoso. Daí a lâmpada na outra ponta do vagão explode e me assusto. Hora de parar e me acalmar. Finalmente o trem chega na estação e eu desço. Agora são só alguns minutos até em casa.
Minha casa cinza e silenciosa. Ficou assim depois que Billy se foi, há quase três anos. Eu nem lembro de como era quando papai estava aqui. Eu nem lembro do rosto dele. Mas ele se foi, para sempre, como minha mãe - amarga e vazia - costuma dizer.
Quando entro, passo pelo hall e ela está lá, na sua cadeira de balanço sentada, com um livro no colo, olhando o vazio, exatamente como todos os outros dias nos últimos anos. O cheiro de comida impregna o ar - ela continua uma ótima cozinheira -, mas a alegria de cozinhar e criar novos pratos parece ter se esvaído dela.
"Boa noite mãe"
"Boa noite Lúcio" - Ela continua olhando o vazio.
"Como foi seu dia?"
"Eu cuidei da casa, fiz compras, cozinhei para nós, fiz trabalho voluntário. E você?"
Essa é a resposta de todos os dias.
"Eu saí numa missão de campo, e vi o Billy".
Num salto, ela se ergue da cadeira, joga fora o livro e anda na minha direção. Pela primeira vez em anos eu vejo brilho em seu olhar. Ela me arrasta pra cozinha, serve água num copo alto e se senta na mesa. Faço o mesmo e lhe conto como foi o encontro com meu irmão.
"Eh...então ele quer que eu vá visitá-lo?"
"Pelo menos foi o que ele disse. Mas não disse muito mais".
"Então ele não desistiu da gente".
"Uh, desistir?"
"É. Achei que ele tinha desistido, e ido morar em algum lugar ermo e distante. Mas ele não está tão longe assim".
Nisso ela olha para o armário, ele se abre e pratos e talheres voam para a mesa. Há muito não via ela usar seu talento em casa. Meio que a tristeza o bloqueava. Saber notícias de Billy realmente deixou ela de bom humor. Hora de aproveitar a deixa.
"Hum, mãe, como foi que, hum, começou isso de ser uma Controladora?"
"Bem, é interessante já que perguntou. Eu não sabia que era uma Controladora, por que era difícil encontrar Controladores telepatas na Cidade das Pedras, que é de onde eu venho. A maioria dos Controladores de lá tem talentos ligados aos elementos. Seu tio Blásio por exemplo, consegue controlar o fogo. Então quando eu não manifestei nenhum talento ligado aos elementos até os 16 anos, todo mundo pensou que eu não fosse uma Controladora, mas ninguém ligou muito pra isso, já que minha mãe também não era Controladora, e geralmente se herda o talento da mãe. Foi por isso que passei horas e horas a fio com ela na cozinha aprendendo a cozinhar. Então um dia eu estava ajudando sua avó com uma torta, e deixei uma tigela com vários ovos caírem no chão. Eu lembro que gritei por medo dos cacos de cerâmica me cortarem, mas a tigela não caiu. Ela ficou flutuando no ar a uns dois palmos do chão, e duas lâmpadas estouraram, deixando minha mãe muito assustada".
"Que interessante". Eu mastigo com cautela os pedaços de frango e salada que ela serviu. Não é normal ela estar tão receptiva, nem tão falante assim. Não posso passar dos limites. "E como você soube que eu sou um Controlador também?"
"Bem, eu sou uma telepata. Quando eu te toquei pela primeira vez, quando você nasceu, algo "estalou" dentro de mim. É algum tipo de sentido-controlador que só telepatas têm. Por que, aconteceu alguma coisa?"
"Bem, acho que eu estourei algumas lâmpadas com a mente, entre outras coisas". Não vou assustá-la com o fato de ter sido sequestrado e interrogado. Isso é uma informação que precisa ser investigada, e minha mãe definitivamente não é a pessoa certa pra isso.
"Então você precisa de treinamento. Amanhã vou fazer uma visita a um amigo. Ele vai te treinar para aprender a usar seu talento com responsabilidade. Telepatas são raros, mas precisam ser treinados para não fazerem besteira".
Fico imaginando que tipo de besteira um telepata pode fazer, mas não preciso ir muito longe: lâmpadas explodindo já são uma boa ideia do que meu talento de controlador é capaz. Por um instante, vejo luz nos olhos dela. Parece que pelo menos por agora minha mãe está de volta.
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