segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Além da Terra Devastada. IV


Primeiro sinto o latejar da cabeça, e aos poucos as sombras que vejo vão se tornando mais nítidas. Estou em uma poltrona larga, confortável, na extremidade de uma sala retangular, comprida. Na minha frente há uma mesa, baixa, e uma cadeira. Sentada nela está um homem alto, forte com a barba por fazer. Seu olhar é penetrante, como se quisesse ler algo em mim. Percebo que muita gente parece querer algo de mim ultimamente.
“Olá”, ele diz, cruzando os braços e se apoiando na mesa, ficando baixo, como um animal selvagem prestes a atacar.
“Oi”.
“Espero que esteja confortável”.
“Um pouco demais, até. Não vai se apresentar?”
“Digamos apenas que saber meu nome não vai tornar as coisas mais agradáveis, Lúcio”. Quando diz isso ele desvia o olhar, e posso ver o piercing na lateral direita de seu rosto, próximo à orelha.
“Pode pelo menos me dizer o que eu estou fazendo aqui?”
“Você é muito exigente para um auxiliar das Missões de 16 anos”.
“O que você esperava, uma garotinha que vai começar a chorar e pirar quando ameaçada?”
“Na verdade não, sendo quem você é”.
“E quem eu sou?”
“Ninguém, na verdade. Você está no Templo, Lúcio, refúgio para aqueles que defendem o bem”.
“Agora defender o bem é sequestrar auxiliares das Missões?”
“Não. Defender o bem é enxergar a verdade por trás das mentiras que nos contam. E vai por mim, eu sei muito bem quando mentem pra mim”. Ele se levanta rápido, e tira do bolso uma seringa com um líquido transparente. Estou começando a odiar seringas.
“Bem, isso não vai doer, só vai deixar você menos inibido, ok?”
“Quem você pensa que é pra fazer isso comigo? Você é um louco!” Digo e me levanto, encarando ele nos olhos, apenas a mesa entre nós.
“Isso não importa, na verdade. Segurem-no”. Dois homens surgem por trás de mim e me seguram. Eu vejo ele destampar a seringa e sinto a picada da injeção. Conforme os segundos passam, meus membros relaxam e minha mente começa a ficar levemente enevoada. É. Enevoada é a palavra correta.
“Vamos falar um pouco de você, meu jovem. Como se chama, onde trabalha?”
“Eu me chamo Lúcio”. De repente tudo flui de mim com uma imensa facilidade, como se não houvesse necessidade de guardar nada pra mim, ou de mentir. “Trabalho na divisão de missões humanitárias, na Cidade de Vidro, sede das Missões”.
“E você já fez alguma missão de campo?”
“Sim, uma”.
“E qual era o objetivo?” O objetivo. A Cidade do Norte. Meu irmão. Raylla. O Vortex. Alana. A FES. Clara. Eu não posso contar a ele. Mas talvez deva. Afinal, não tenho que guardar segredos. Guardar segredos deixa minha cabeça pesada, incomoda.
“Qual era o objetivo da sua missão, Lúcio?”
O incômodo aumenta. Preciso piscar os olhos várias vezes para espantar a dor que isso está se tornando. Minha pulsação aumenta. Quando olho novamente para meu interrogador, ele parece assustado.
“O que está acontecendo Lúcio?”
“E-eu não sei, mas dói. Faça parar”.
Então um espasmo percorre todo meu corpo, a dor vira um zumbido, e preciso cerrar os dentes. Seguro os braços da poltrona para me equilibrar, o zumbido aumenta e minha pulsação acelera. Sinto o sangue fervendo nas minhas veias. A luz da sala pisca intermitentemente. Sinto que vou explodir. Alguém tenta segurar meu braço, mas é arremessado para longe, como se uma mão invisível o puxasse para trás. As lâmpadas explodem, uma atrás da outra, e a escuridão toma conta do lugar. Meu corpo para de tremer. Eu relaxo. Sinto uma pontada no braço, e apago.


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