quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Além da Terra Devastada. II

É. Eu tinha razão. Minha vida não vai mesmo ser fácil daqui pra frente, não depois do vexame nos testes de aptidão da Missão. Definitivamente não sirvo para o trabalho de campo.
"Olá, meu nome é Cássio. Você é?".
"Lúcio. Da Missão da Cidade de Vidro. Tenho uma tarefa a cumprir aqui. Pode me ajudar com o mapa?"
"É claro. Bem, você está nesse ponto, que é o centro da Cidade do Norte. Aqui diz para você ir até a Praça das Nações, que fica a algumas quadras. Dá pra ir andando. É só sair do prédio e virar à direita. Quando chegar ao fim da rua, vai ver placas indicando o local".
"Obrigado".
"A propósito, nas ordens que recebi você fica por apenas uma hora, então não perca tempo, ok?"
"Pode deixar, quero ser rápido"
Minha mãe sempre me disse que as pessoas do Norte eram diferentes. Caminhando por entre as ruas de chão batido vejo membros de várias nações indo e vindo. Diferente da Cidade de Vidro, onde o povo das Missões meio que domina tudo ao seu redor. Aqui tudo parece mais selvagem, e as pessoas mais espontâneas. Crianças usando macacões verdes passam rindo e gritando, o que me assusta um pouco. Não é típico da Missão agir assim, mas aqui no Norte é diferente.
A Praça das Nações é grande e circular, com 10 obeliscos espalhados em torno de uma pira gigantesca que permanece sempre acessa: o símbolo de que o sistema das 10 Nações funciona e continua mantendo a chama da humanidade acesa mesmo depois de vários séculos da destruição parcial do nosso mundo. Na base da chama, vários desenhos de lugares que existiam aqui antes. Quando aqui ainda se chamava "Brasil", diz o texto entalhado na pedra. "Brasil". Nome engraçado.
"Lúcio!"
A voz familiar chama minha atenção.
"Billy!"
Meu irmão. Alguém que eu não via há anos vem caminhando de mãos dadas com uma garotinha.
"Venha cá me dar um abraço!"
Abraços. Ele sempre foi caloroso assim.
"Então é aqui que você vive Billy?"
"É sim. Depois que entrei para a Missão fui mandado para cá, mas acabei me juntando ao povo do Norte. Sou uma espécie de embaixador entre a Missão e o Norte agora".
"Nossa mãe vai gostar de receber notícias suas".
"Diga a ela que estou bem, e que venha me visitar quando for possível. Esta é Raylla".
"Olá Raylla. Eu sou Lúcio, da Missão. Vim te buscar para a Cidade de Vidro".
"Você não devia me levar, eu quero ficar aqui".
"Raylla, vá com meu irmão, ele vai cuidar bem de você. E você sabe que não pode mais ficar aqui".
"Você vai para a Missão com Lúcio, e ponto. Boa viagem e boa sorte lá".
"Não precisa ser tão rude com uma criança, você sabe Billy".
"E agora você vai me dizer que eu não devia ter escolhido também? Hora Lúcio, eu estou onde eu deveria estar. E você que é um Controlador e não consegue fazer nada com seus dons patéticos?"
A adrenalina inundou meu sangue. Minha pulsação aumentou e tive uma vontade louca de socar a cara dele. Mas o tempo está passando, afinal. eu tenho que levar a garota.
"Quantos anos você tem Raylla?"
"Tenho nove".
"Então venha, que está na hora de ir".
No caminho de volta, procurei me distrair com Raylla, que dava passos vacilantes por entre as ruas sem calçamento, o que fazia a massa de cabelos loiros e finos de sua cabeça oscilar para frente e para trás. Cássio continuava lá, sentado com um sanduíche na mão. O cheiro era estranho, diferente do que temos na Missão, mas não tive tempo de perguntar o que era.
"Você vai levar ESSA garotinha?"
"Sim, algum problema? Está aqui a autorização".
Com cara de cético, Cássio leu o documento, depois checou a assinatura e o registro numa tela grande ao lado do painel de controle do vortex.
"Bem, parece que está tudo bem então. Suba no vortex com ela".
"Venha Raylla, está na hora".
"Eu tô com medo".
"Não tenha. Eu estou aqui, e vai ficar tudo bem. Você vai pra um lugar confortável onde vai ser bem cuidada, e vamos arranjar um lar pra você".
Ela ainda tropeçou no degrau da plataforma e parecia receosa, mas veio até mim. Acenei para Cássio e ele ligou o dispositivo. O zumbido característico seguido por um flash indicaram que estávamos de volta à Missão. Mas havia alguma coisa errada. Estávamos cercados.



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