quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Além da Terra Devastada. I



“Acorda logo, pra não perder o café da manhã”.
Eu não queria mesmo me levantar, queria continuar deitado, dormir mais um pouco, e esquecer o pesadelo que tinha sido a última semana. Desci para o café e estavam todos lá ainda, me encarando como se eu tivesse feito alguma coisa extremamente errada.
A culpa era toda minha, eu sabia disso, mas dessa vez eu tive que escolher. Todos da nossa nação tiveram que fazer a escolha, eu apenas fiz a minha, e preferi me sentir realizado a agradar à todo mundo. Como eu estava enganado.
“Você não devia dormir até tão tarde, já que é um ajudante agora”.
“E você não deveria se importar com o que eu faço, se desaprova tanto a minha escolha”.
Minha mãe. Como era difícil lidar com ela nos últimos tempos. Nem lembro mais quando começou, mas deve ter sido logo após meu irmão ter partido para as Missões.
“Então vá embora logo, já que te querem tão bem naquele lugar”.
Aquele lugar. Aquele lugar era um conjunto de prédios pintados de azul e branco, que simbolizavam a força humanitária das Missões. Desde a era das guerras as Missões tem ajudado as pessoas no mundo todo – ou no que sobrou dele – a reconstruir suas vidas. Foram as Missões que descobriram os Controladores. Humanos dotados de capacidades que transcendem o que entendíamos por normalidade. Passou muito tempo desde os primeiros Controladores, segundo minha mãe. Só sei que eu sou um deles, mas meu talento ainda não se desenvolveu, então não sou nada de extraordinário, na verdade.
Por isso escolhi trabalhar nas Missões. Aqui ninguém fica me pressionando, ou encarando na esperança de eu fazer objetos levitarem ou controlar uma tempestade. Aqui eu sou Lúcio. Só mais um dos jovens ajudantes da Missão.
Eu entrei no prédio e fui direto para a sala de Clara. Minha chefe no último ano, e que me ensinou quase tudo que eu sei sobre o nosso planeta e sociedade. Me mostrou que o trabalho da Missão é muito importante, e me ensinou a preservar a vida dos outros.
“Bom dia, Lúcio. Temos um caso novo para você. Existe uma órfã no norte e preciso que vá buscá-la”.
“Sim, qual supervisor vai me acompanhar Clara?”.
“Nenhum. Você vai sozinho”.
“Eu só tenho um ano na Missão, não posso sair por aí sozinho”.
“Pode sim, eu estou te enviando por que confio em você. Agora se prepare e vá ajudar essa garota”.
“Devo levar algo?”.
“Apenas o básico. O vortex estará pronto para partir em meia hora. Suas instruções estarão te esperando no lançamento”.
Ah, o vortex. Antes da primeira viagem, achava que ia ser o máximo, mas viajar de um ponto a outro instantaneamente por união quântica não foi uma experiência muito agradável. Na entrada do vortex, Alana me esperava com uma bolsa azul na mão e uma pasta preta.
“Lúcio, aqui está o roteiro da sua tarefa, e essa bolsa contém o que você precisa. Lembre-se que não deve ficar muito tempo por lá. O norte continua perigoso, cheio de Controladores mal intencionados. Você tem uma hora para buscar a menina e trazê-la. Na volta receberá novas instruções”.
Ríspida como sempre, nem olhou nos meus olhos direito. Mas também não gostaria que ela o fizesse. As marcas em seu rosto já são assustadoras o suficiente para evitar qualquer contato prolongado.
Me dirigi à plataforma quadrada e preta do vortex e fiz sinal de positivo. Como se fosse gostoso ter suas partículas desmontadas e atiradas por essa coisa. Ouvi um zumbido, seguido de um flash e caí no chão. Quando olhei novamente para onde Alana estava, um homem negro com a cabeça raspada vestido de azul acenou me chamando.

“Seja muito bem vindo ao norte!”.

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