“Acorda logo, pra não perder o
café da manhã”.
Eu não queria mesmo me levantar,
queria continuar deitado, dormir mais um pouco, e esquecer o pesadelo que tinha
sido a última semana. Desci para o café e estavam todos lá ainda, me encarando
como se eu tivesse feito alguma coisa extremamente errada.
A culpa era toda minha, eu sabia
disso, mas dessa vez eu tive que escolher. Todos da nossa nação tiveram que
fazer a escolha, eu apenas fiz a minha, e preferi me sentir realizado a agradar
à todo mundo. Como eu estava enganado.
“Você não devia dormir até tão
tarde, já que é um ajudante agora”.
“E você não deveria se importar
com o que eu faço, se desaprova tanto a minha escolha”.
Minha mãe. Como era difícil lidar
com ela nos últimos tempos. Nem lembro mais quando começou, mas deve ter sido logo
após meu irmão ter partido para as Missões.
“Então vá embora logo, já que te
querem tão bem naquele lugar”.
Aquele lugar. Aquele lugar era um
conjunto de prédios pintados de azul e branco, que simbolizavam a força
humanitária das Missões. Desde a era das guerras as Missões tem ajudado as
pessoas no mundo todo – ou no que sobrou dele – a reconstruir suas vidas. Foram
as Missões que descobriram os Controladores. Humanos dotados de capacidades que
transcendem o que entendíamos por normalidade. Passou muito tempo desde os
primeiros Controladores, segundo minha mãe. Só sei que eu sou um deles, mas meu
talento ainda não se desenvolveu, então não sou nada de extraordinário, na
verdade.
Por isso escolhi trabalhar nas
Missões. Aqui ninguém fica me pressionando, ou encarando na esperança de eu
fazer objetos levitarem ou controlar uma tempestade. Aqui eu sou Lúcio. Só mais
um dos jovens ajudantes da Missão.
Eu entrei no prédio e fui direto
para a sala de Clara. Minha chefe no último ano, e que me ensinou quase tudo
que eu sei sobre o nosso planeta e sociedade. Me mostrou que o trabalho da
Missão é muito importante, e me ensinou a preservar a vida dos outros.
“Bom dia, Lúcio. Temos um caso
novo para você. Existe uma órfã no norte e preciso que vá buscá-la”.
“Sim, qual supervisor vai me
acompanhar Clara?”.
“Nenhum. Você vai sozinho”.
“Eu só tenho um ano na Missão,
não posso sair por aí sozinho”.
“Pode sim, eu estou te enviando
por que confio em você. Agora se prepare e vá ajudar essa garota”.
“Devo levar algo?”.
“Apenas o básico. O vortex estará
pronto para partir em meia hora. Suas instruções estarão te esperando no
lançamento”.
Ah, o vortex. Antes da primeira
viagem, achava que ia ser o máximo, mas viajar de um ponto a outro
instantaneamente por união quântica não foi uma experiência muito agradável. Na
entrada do vortex, Alana me esperava com uma bolsa azul na mão e uma pasta
preta.
“Lúcio, aqui está o roteiro da
sua tarefa, e essa bolsa contém o que você precisa. Lembre-se que não deve
ficar muito tempo por lá. O norte continua perigoso, cheio de Controladores mal
intencionados. Você tem uma hora para buscar a menina e trazê-la. Na volta
receberá novas instruções”.
Ríspida como sempre, nem olhou
nos meus olhos direito. Mas também não gostaria que ela o fizesse. As marcas em
seu rosto já são assustadoras o suficiente para evitar qualquer contato
prolongado.
Me dirigi à plataforma quadrada e
preta do vortex e fiz sinal de positivo. Como
se fosse gostoso ter suas partículas desmontadas e atiradas por essa coisa.
Ouvi um zumbido, seguido de um flash e caí no chão. Quando olhei novamente para
onde Alana estava, um homem negro com a cabeça raspada vestido de azul acenou
me chamando.
“Seja muito bem vindo ao norte!”.
Meu Deus, meu gênero favorito!!!
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