sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Além da Terra Devastada. III

Sim, cercados.
"Bem vindo de volta, Lúcio".
"O que está acontecendo Alana?"
Ela pareceu meio assustada, como se esperasse algum tipo de reação minha. Ou outra coisa.
"Não, nada na verdade. Só estamos aqui para assegurar que correu tudo bem. A garota vai ser levada para um alojamento agora".
Um dos comandados de Alana, usando uniforme da Força de Estabilidade Social segurando uma arma prateada subiu na plataforma e pegou Raylla pelas mãos.
"Billy disse que você ia cuidar bem de mim".
"Não se preocupe, eu vou te visitar sempre que puder".
"Vai mesmo? Promete?"
"Prometo".
"Agora que as despedidas já foram feitas, você deve se reportar à Clara imediatamente, Lúcio".
"Ok. Estou indo".
Algo na forma ríspida como Alana agiu me incomoda. Ela é grosseira e insensível na maioria das vezes, mas dessa vez ela parecia nervosa. Como se tivesse medo que alguém ou alguma coisa estivesse prestes a sair do vortex e atacá-la. Mas deve ser impressão minha. Viajar no vortex me deixa meio zonzo.
É meio da manhã, o sol se mantém firme e escaldante enquanto caminho entre os prédios de vidro e metal que dominam a paisagem da Cidade de Vidro desde que me entendo por gente. Foi aqui que a Missão escolheu ficar, erguendo a cidade do zero quando as Nações começaram a se reerguer após séculos de guerras nucleares e o degelo de parte das calotas polares do planeta. Como sou pequeno perto de toda a grandiosidade da Cidade de Vidro. Mas eu sei que lá fora, nas Nações, ainda há muito o que ver e descobrir.
"Ah, você está aí!"
"Oi Carla. Tudo bem?"
"Tudo ótimo. Fiquei sabendo que você saiu numa missão no vortex. ME CONTA TUDO! Sabe que sou louca pra fazer uma missão fora da Cidade de Vidro!"
"Te conto no bloco-restaurante, pode ser? Quero pegar um suco, o vortex me deixa com a boca seca".
"Então, pra onde você foi?, o que você fez?, quem foi com você?, o que você achou?, como era lá?"
"Calma. Eu fui para a Cidade do Norte, buscar uma garotinha orfã. Fui sozinho, foi rápido, não deu pra 'achar' muita coisa, mas era tudo muito verde lá, e fresco, as pessoas pareciam sempre sorridentes, e era bem quente".
"PÁRA TUDO. VOCÊ foi pra Cidade do Norte, no seu primeiro trabalho de campo, SOZINHO, buscar uma garotinha? Não achou nada disso meio estranho não?"
"Não. O mais estranho foi na volta. A Alana tava me esperando - ou esperando a garotinha, Raylla, não sei - com uma escolta armada da Força de Estabilidade Social. Eu achei que eles iam me prender ou me matar na hora que cheguei. Eles tinham cercado a plataforma do vortex".
"Quantos eram? da FES?"
"Uns 15 homens, armados. Por quê?"
"Bem, por que esse número é uma unidade inteira de contenção da FES. Isso não é comum. Normalmente eles nem ficam muito por aqui. O que uma unidade da FES estava fazendo longe do centro de treinamento deles?"
"Eu não sei, só sei que foi MUITO estranho, ainda mais por que era só uma garotinha".
"Essa é outra coisa estranha. Eu e você recebemos nossas designações pra atuar em questões muito específicas. Você trabalha com no setor das Missões Humanitárias, e eu estou nas bibliotecas. Mesmo assim, isso não justifica você ter ido nessa missão. Existem agentes de campo pra isso".
"Acho que talvez a Clara só esteja querendo que eu aprenda mais, tenha mais experiências. Ela me disse que isso é muito importante. Eu não vou sair por aí questionando as decisões dela só por que você está toda paranoica. Eu confio na Clara. Ela me ensinou tudo que eu sei".
"Tudo bem, cara. Não precisa encanar desse jeito. Olha, eu vou voltar pra biblioteca e terminar uma atualização no servidor. Nos vemos mais tarde".
E saiu pisando duro. Carla sempre foi uma pessoa dessas marcantes, com seus olhos verdes e cabelos "negros como a noite", como ela mesma gostava de dizer. Mas era minha amiga, e eu sei que quando os instintos dela agem assim, é por que tem alguma coisa errada. Mas talvez dessa vez fosse só apreensão pelo fato de eu ter ido sozinho.
***
"Extremamente irresponsável, pra dizer o mínimo! Una despelote! (N. d. A.: Uma desordem, bagunça)".
Eu não me apresentei imediatamente à Clara, como Alana havia me dito. E, óbvio, estou levando uma lavada por causa disso nesse exato momento.
"Desculpe Clara, não sabia que estava em algum tipo de missão secreta. Você não me disse nada. Aliás, não disse nada mesmo. Eu fui mandado na minha primeira missão de campo, com quase nenhuma informação, e ainda passei pelo infortúnio de encontrar o meu irmão. Então agradeceria se você parasse de me tratar como um garotinho, pois eu não sou um".
"Tudo bem, eu me excedi um pouco. Por que demorou?"
"Eu passei no bloco-restaurante pra tomar um suco. Eu não defino viajar no vortex como uma boa experiência".
Nesse exato momento eu tive certeza que alguma coisa estava errada. Na hora que mencionei o bloco-restaurante ela abriu a boca para dizer algo, mas parou no meio do movimento, ficando com a boca meio aberta, meio torta. E então ela se recompôs.
"Hum. E você encontrou alguém no caminho? Comentou sobre a sua missão com alguém?"
Eu poderia dizer a verdade. Que me encontrei com Carla e que conversamos sobre a missão. É o que eu devo fazer, é o certo, ainda mais com Clara, líder das Missões. Mas a forma como ela pareceu assustada me assustou também. Como se disso dependesse bem mais que uma simples punição em alguma tarefa chata. Eu ia precisar mentir, algo no qual eu não sou exatamente bom. Minha mãe diz que meu olho direito treme quando minto.
"Não. Eu não encontrei ninguém conhecido. Entrei, tomei um suco, me recompus e saí. Eu precisava de um tempo pra pensar. Eu encontrei o meu irmão na Cidade do Norte". Disse, tentando parecer um pouco chateado - o que não é mentira - para que ela não se importasse com meu olho tremendo. Para fazer parecer genuíno.
"Bem, já que é assim está o.k. Preciso que você mantenha essa missão em segredo. Se perguntarem, você foi apenas coletar dados sobre um medicamento. Não fale sobre a garota a ninguém. Queremos que ela possa se integrar à comunidade e ser adotada logo. Sua origem não é relevante".
"Se você quer assim, não faço nenhuma objeção".
"Você é um bom garoto, Lúcio. Muito maduro. Sua mãe deve ter orgulho de você. Agora, tire o resto do dia para você, está bem?"
"Muito obrigado Clara. Até mais".
"Até breve Lúcio. E não se esqueça, estou de olho em você".
Algo no olhar dela me faz acreditar que ela realmente está de olho em mim.
Não é simples começar a desconfiar de uma pessoa que é referência pra você na realização de ações humanitárias e na defesa dos direitos das pessoas, mas a desconfiança de Carla parece fazer sentido agora. Por que Clara agiria desse jeito? Por que ela enviaria Alana e uma equipe de contenção da FES para me recepcionar? Caminho a esmo pelas ruas da Cidade de Vidro enquanto penso nisso. As ruas estão brilhantes, devido ao reflexo da luz do sol nos prédios de vidro. É tudo tão lindo, mas vazio a essa hora. Posso ver algumas pessoas com as tradicionais vestes azuis e brancas das Missões passando por mim em direção ao bloco-restaurante. 
"Ei, será que você pode me ajudar?"
O pedido é feito meio baixinho, mas vem do beco próximo a mim. Caminho até a origem da voz, chego ao final do beco, mas não vejo ninguém. Pela visão periférica, vejo uma sombra atrás de mim. Eu me viro, mas é tarde demais. Tudo que vejo - e sinto - é o brilho de uma agulha e seu toque com a pele de meu braço. 
Depois disso não vejo mais nada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário