quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Quando é Eterno. Parte II


Quando cheguei à universidade, pude sentir a tensão que pesava o ar e enchia os corredores de murmúrios e vozes conspiradoras. Na semana seguinte, estaríamos a caminho de Ibiúna. Tudo podia dar errado, poderíamos ser presos pela dita dura. E eu me assustava com a possibilidade de a polícia nos descobrir e não conseguia me concentrar; sabia que todos contavam comigo, mas como poderia ir para Ibiúna, se não 
sei onde meu destino pode estar? 

 A carta de tarô continuava pesando, em minha bolsa, mente e coração. Em algum lugar do meu cérebro, eu registrava a passagem dos dias, as reuniões incontáveis na calada da noite, as negociações com a PJ e a Viração. Nem dez dias passaram antes que eu já estivesse em Ibiúna. Minha tarefa seria receber um grupo de vinte e cindo estudantes na enorme casa que herdei de minha avó, e continuava lá, intacta, como se ela ainda morasse naquele sobrado de paredes caiadas. Na soleira da porta, lembranças da infância me assolaram, e eu podia sentir a aura do lugar me puxando para dentro da casa. Há muito tempo ninguém ia lá, portanto era preciso uma limpeza no local. Depois de tudo limpo e arrumado com a ajuda de uma diarista, saí para fazer compras e abastecer a dispensa. Na cidade, todos estranhavam minha presença repentina. Não que seja algo que pudesse passar despercebido, mas eu esperava que “eles” fossem menos intrusos. Tive que emitir falsos sorrisos e mentir por mais de uma dúzia de vezes. O discurso ensaiado foi fácil de dizer: 
 - Resolvi trazer alguns amigos da faculdade para passar o final de semana na casa de vovó. Acho um desperdício deixar aquela casa grande fechada. 
Dois dias depois começaram a chegar os meus convivas. Alguns já amigos de longa data, outros aliados da oposição, e alguns rostos novos. Formávamos um grupo bem diverso de jovens estudantes, espalhados em grupos pelos grandes quartos do casarão. Na sexta de manhã, chegaram os últimos dois, que dividiriam o meu antigo quarto no térreo. Juntos, eram estranhamente diferentes, mas complementares ao mesmo tempo, 
como se houvesse algum tipo de dependência entre os dois. León, mais velho, rosto marcado pelo sol, e marcas de expressão de um sorriso fácil, já conhecia de vista. Um estudante de Filosofia da UnB. O outro, porém, mais parecia um garoto. Sim, sua idade deveria estar em torno dos 17 anos, não mais que isso. Seu nome era Gabriel. 
Tudo parecia correr bem. Infelizmente, não conseguimos disfarçar nossa movimentação. A cidade inchou com a presença dos aproximadamente 1.000 estudantes mobilizados para o que seria o XXX Congresso da UNE, feito na clandestinidade, o que não passou despercebido no comércio local. Faltou comida e outros gêneros nos supermercados, vendas, mercearias e farmácias. 
Depois de uma reunião que se arrastou horas e horas noite adentro, e alguns copos de vinho, eu já estava perto de casa andando sozinho no silencio da madrugada quando os ouvi.. Carros passavam velozmente pelas ruas próximas, e passos ecoavam cadenciadamente em minha direção. Corri, vencendo os poucos metros que ainda me afastavam de casa, e me atirei portão adentro. No escuro, não vi que mais alguém se movia apressadamente por ali. Só fui perceber tarde demais quando nossos corpos se chocaram e bati contra o solo gramado. León arrastava Gabriel porta adentro enquanto gritava com um olhar ferino no rosto: 
- Vá pra dentro. Se esconde. Vou fazer eles me seguirem. 
Então ele pegou minha mão e me fez segurar Gabriel. 
- Ajuda ele. Por mim, sim? Cuida do meu irmão! 
Puxei Gabriel, que relutava em se afastar de León, e tranquei a porta. Dane-se. Não dava tempo de esperar todos chegarem, a maioria devia estar escondida mesmo em algum lugar, nalguma das outras casas que usamos para alojar os estudantes. Quem tiver ficado fora que se arranje. Fomos para a cozinha, onde tranquei a porta dos fundos, e esperamos. Ouvi o portão de grade bater com estardalhaço, provável vítima de um chute. 
Precisávamos nos esconder, mas o garoto mal se movia, sentado num canto da cozinha, e muito menos dava qualquer atenção ao que eu fazia. Peguei minha bolsa cáqui, coloquei uma vasilha com alguns biscoitos e um cantil; não adiantaria muito, já que a casa deveria estar cercada. Foi aí que me lembrei. Com os biscoitos de nata na mão, o cheiro de casa velha, a mobília puída, os panos de prato bordados, parecia que minha vó estava ali, ao meu lado, retirando do forno sua própria receita de biscoito herdada da bisa: 
- Desça já daí e venha comer! Já falei pra não ficar brincando no elevador de pratos! 
Estava bem ali. Alguns metros ao lado, a portinha de madeira, escondida sob o papel de parede ao lado da escada, que abrigava o pequeno elevador utilizado por minha avó para subir os pratos para a sala de jantar no segundo andar. O mimo que meu avô construiu para que ela pudesse dar seus animados jantares na sala de cima. Puxei o garoto relutante, abri a porta e o fiz entrar. Me espremi lá dentro o máximo que pude. Bati a porta e passei a pequena tranca que havia do lado de dentro e que eu havia instalado com minhas próprias mãos na infância. 
O calor aumentava e ambos suávamos mais e mais naquele espaço pequeno e abafado; abafamento esse que só se agravava, pois fomos obrigados a nos abraçar para caber lá dentro. Um estrondo foi o anúncio da porta da frente sendo levada ao chão. Passos apressados, policiais gritando. A repressão estava ali, a centímetros de nós, quando dois policiais pararam bem em frente ao elevador, e começaram a transmitir ordens para os demais. Prendi minha respiração o máximo que pude. Gabriel procurava não fazer barulho algum. Passado algum tempo, eles se foram. Entretanto, continuamos ali. Com muito esforço ele tirou a camiseta branca que vestia e continuou junto ao meu corpo, em silencio. Me afastei dele os poucos centímetros que o espaço apartado permitia, e nos observamos atentamente. Seus cabelos, castanhos, não sabiam se queriam ser lisos ou crespos; tinha a pele do rosto com manchas brancas, provavelmente do sol; no ombro direito, uma marca, em V, branca como uma cicatriz, contrastava na meia luz com sua pele queimada de sol; eu podia ouvir seu coração batendo acelerado, sentir sua respiração. Foi quando seus olhos profundamente cinzentos e meus olhos negros como breu se encontraram. 
Sem aviso, sem qualquer sinal, na meia luz e no calor infernal, em meio à tensão e ao medo, seus lábios vieram de encontro aos meus; sua língua quente e áspera tocou a minha, e me levou mais para perto de si. 
Ali, naquele turbilhão de sensações, perdi o foco do presente por um momento e vaguei para a distante lembrança da garota cigana naquela noite, um mês atrás. A noite em que ganhei a carta de tarô: 
“-Você irá encontra-lo quando houver medo em seu coração. Ele terá olhos de tempestade e lhe tirará da solidão. É seu destino tê-lo nos braços, mas haverá que escolher, entre seguir seu caminho, ou ficar ao lado dele, protege-lo e lutar ao lado dele”. 
Lembro que achei impossível, lembro que recusei. Lembro que ela se foi assim que me entregou a carta. A carta que pesa em minha bolsa mente e coração. Eu não podia acreditar que aquele homenzinho, aquele garoto de 17 anos era a minha outra parte. A parte perdida da minha alma, que fosse me completar. Logo eu, já responsável por mim mesmo do alto de meus 21 anos. Logo eu, Caio César, que fugi de casa quando meu pai não me aceitou, homossexual que sou. 
Como poderia aceitar que um garoto me beijava com tanta ternura e afeto? Como seria possível ele ser parte de mim e eu ser parte dele naquele exato momento? Não sei. Só sei que o amei mais que a mim mesmo, ali naquele instante, quando seus olhos tocaram o fundo dos meus. Quando nossas almas se abraçaram; quando soube que o protegeria e sairíamos vivos dali, a qualquer custo. 

***

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Quando é Eterno. Parte I

[Antes de qualquer coisa, é preciso explicar o por que da ausência de posts por aqui. Além da Terra Devastada está em Hiatus (ou seja, uma pausa), por que a trama é complexa e precisa de um tempo que não estou podendo dispor para terminá-la. Enquanto isso, deixo vocês com esse conto em três partes chamado Quando é Eterno, um conto de época. Apresentei ele na Bienal de Cultura e Arte da UNE, no começo de 2013. Espero que gostem. 2 beijos, Glauco]

Quanto é Eterno  

Brasil, 1968.   

E ele derramou sobre mim aquele seu olhar resignado, acusador e persecutório, enquanto caminhava em meio à bagunça e às minhas roupas. Parou e começou a vasculhar minha bolsa cáqui, provavelmente em busca de algo que incriminasse alguma traição. Lembrei-me que estava ali a carta de tarô, o enamorado, com meu nome escrito em seu verso. Quando a pegou, observou atentamente e me perguntou do que se tratava. Disse que era um presente, algo que havia ganho. Ele pareceu se interessar pelo objeto, mas não me perguntou nada mais, talvez para não me aborrecer, ou aborrecer a si mesmo. Pousou a carta sobre a cômoda e se aproximou de mim. Podia sentir sua respiração apressada, podia ver suas mãos tremendo e o suor escorrendo por sobre sua pele que ardia. Arrebatou-me em seus braços e me beijou, com uma volúpia que eu não compreendia. Naquele momento me entreguei à ele, mesmo sabendo que não era ele meu destino, mesmo sabendo que o dono do meu coração estava por aí em algum lugar. 
Me esperando?  
Então ele ligou o aparelho de som. Na rádio, “Carinhoso” tocava enquanto ao mesmo tempo ele me despia e abraçava. O sol da manhã jogava uma luminescência dourada através das cortinas de renda. O ar aquecido, somado ao gosto amargo de seu perfume quando meus lábios tocaram seu pescoço, me intoxicava. Me jogou na cama e me beijou ainda mais. Tirou sua roupa e então nossos corpos nus se encontraram, com força, ferocidade, selvageria até.  
Após algum tempo, nossas respirações aceleraram. Podia sentir que o momento se aproximava. O ápice chegava com pressa, como se dentro dele estivesse guardado há muito tempo, esperando para se libertar. Quando não podia mais, com o suor escorrendo entre nossos corpos, o calor de nossa pele queimando, a velocidade, a força, tudo se uniu num turbilhão de sensações, cores, toques, sons, gritos, gemidos, e assim como começou, rápido se foi.  
Levantei-me, e tomei banho. Da cama ele me observava, e quando saí pude ver lágrimas se formando em seus olhos. Não podia ficar para ver, não podia mais me unir a ele. Não podia deixar que continuássemos. Tinha que seguir meu caminho, foi o que a cigana disse.   

***