Quanto é Eterno
Brasil, 1968.
E ele derramou sobre mim aquele seu olhar resignado, acusador e persecutório, enquanto caminhava em meio à bagunça e às minhas roupas. Parou e começou a vasculhar minha bolsa cáqui, provavelmente em busca de algo que incriminasse alguma traição. Lembrei-me que estava ali a carta de tarô, o enamorado, com meu nome escrito em seu verso. Quando a pegou, observou atentamente e me perguntou do que se tratava. Disse que era um presente, algo que havia ganho. Ele pareceu se interessar pelo objeto, mas não me perguntou nada mais, talvez para não me aborrecer, ou aborrecer a si mesmo. Pousou a carta sobre a cômoda e se aproximou de mim. Podia sentir sua respiração apressada, podia ver suas mãos tremendo e o suor escorrendo por sobre sua pele que ardia. Arrebatou-me em seus braços e me beijou, com uma volúpia que eu não compreendia. Naquele momento me entreguei à ele, mesmo sabendo que não era ele meu destino, mesmo sabendo que o dono do meu coração estava por aí em algum lugar.
Me esperando?
Então ele ligou o aparelho de som. Na rádio, “Carinhoso” tocava enquanto ao mesmo tempo ele me despia e abraçava. O sol da manhã jogava uma luminescência dourada através das cortinas de renda. O ar aquecido, somado ao gosto amargo de seu perfume quando meus lábios tocaram seu pescoço, me intoxicava. Me jogou na cama e me beijou ainda mais. Tirou sua roupa e então nossos corpos nus se encontraram, com força, ferocidade, selvageria até.
Após algum tempo, nossas respirações aceleraram. Podia sentir que o momento se aproximava. O ápice chegava com pressa, como se dentro dele estivesse guardado há muito tempo, esperando para se libertar. Quando não podia mais, com o suor escorrendo entre nossos corpos, o calor de nossa pele queimando, a velocidade, a força, tudo se uniu num turbilhão de sensações, cores, toques, sons, gritos, gemidos, e assim como começou, rápido se foi.
Levantei-me, e tomei banho. Da cama ele me observava, e quando saí pude ver lágrimas se formando em seus olhos. Não podia ficar para ver, não podia mais me unir a ele. Não podia deixar que continuássemos. Tinha que seguir meu caminho, foi o que a cigana disse.
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