quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ALÉM DA TERRA DEVASTADA - REMAKE - CAP 2

 

Capítulo II

Norte

O Vortex desapareceu atrás deles assim que Lúcio e Raylla deixaram a plataforma.

O homem que os recebera já havia seguido por uma das ruas laterais, deixando-os sozinhos.

Lúcio olhou ao redor.

Ainda era estranho.

Na Cidade de Vidro, tudo parecia ter sido planejado antes mesmo de ser construído. As ruas eram largas, os prédios altos e os caminhos perfeitamente organizados. No Norte, nada parecia obedecer à mesma lógica.

Havia casas pequenas construídas próximas umas das outras, ruas de terra, barracas improvisadas e pessoas circulando sem pressa. Crianças corriam entre os adultos, algumas brincando com pequenos objetos que flutuavam no ar ou se moviam sozinhos.

Lúcio tentou não encarar.

— Eles são Despertos? — perguntou.

Raylla deu de ombros.

— Alguns.

— E os outros?

— Alguns não são.

Ela continuou andando.

— Como você sabe?

— Porque eu moro aqui.

Lúcio sorriu.

— Justo.

Depois de alguns minutos, chegaram a uma pequena praça.

Havia um homem sentado sob a sombra de uma árvore.

Ele era alto, negro e tinha os cabelos raspados. Vestia uma camisa azul escura e segurava um mapa dobrado sobre os joelhos.

Quando viu Raylla, levantou-se.

— Você demorou.

— Eu estava esperando ele.

O homem olhou para Lúcio.

— Você é o garoto da AIR?

— Sou.

— Lúcio?

Ele assentiu.

— Cássio.

O homem estendeu a mão.

— Meu irmão falou de você.

Lúcio apertou sua mão.

— Seu irmão?

Cássio sorriu.

— Billy.

Lúcio imediatamente ficou mais atento.

— Você conhece o Billy?

— Conheço.

Cássio apontou para uma das ruas.

— Estamos indo para a Praça das Nações. Ele está nos esperando lá.

— Praça das Nações?

— Você vai entender.


A praça ficava no centro do Norte.

Era circular e muito maior do que Lúcio imaginava.

No centro havia uma estrutura de pedra cercada por dez enormes obeliscos. Cada um trazia símbolos e inscrições diferentes. Entre eles, uma chama ardia continuamente.

Lúcio caminhou devagar.

— O que é isso?

Cássio respondeu:

— A história.

Lúcio observou os obeliscos.

Cada um representava uma das dez Nações que haviam sobrevivido às guerras.

Durante séculos, guerras, disputas territoriais e conflitos religiosos haviam destruído países inteiros. Depois da devastação, as populações que restaram foram reorganizadas em grandes territórios.

As dez Nações eram o resultado daquele processo.

Não eram exatamente os países antigos.

Eram o que havia restado deles.

Lúcio passou os olhos pelas inscrições.

Havia nomes de cidades.

Regiões.

Povos.

Alguns ele conhecia apenas dos livros.

Então parou.

Brasil.

Ficou alguns segundos olhando para aquela palavra.

— Você conhece? — perguntou Raylla.

— Conheço.

— O que era?

Lúcio hesitou.

— Um país.

Raylla franziu a testa.

— Ainda existe?

Ele olhou novamente para a inscrição.

— Não.

Ela pareceu aceitar a resposta com facilidade.

Lúcio, porém, não conseguiu deixar de pensar naquilo.

Toda a sua vida havia aprendido que o mundo anterior às guerras era uma coisa distante, quase impossível de compreender.

Mas ali estavam os nomes.

Gravados em pedra.

Como se alguém tivesse decidido que eles não deveriam ser esquecidos.


— Lúcio!

A voz veio atrás dele.

Ele se virou.

Billy estava parado a poucos metros.

Por um instante, Lúcio não soube o que dizer.

Havia quase dois anos que não via o irmão.

Billy parecia diferente.

Mais velho. Mais magro. Mais sério.

Mas ainda era Billy.

— Você cresceu — disse ele.

Lúcio riu.

— Você também.

Billy abraçou o irmão.

Foi um abraço rápido, mas sincero.

Quando se afastaram, Billy olhou para Raylla.

— Você trouxe a menina?

— Trouxe.

— Então está tudo certo.

Lúcio observou os dois.

— Ela vai voltar comigo.

Billy ficou em silêncio.

— Não.

Lúcio franziu a testa.

— Não?

— Ela não quer voltar.

Raylla cruzou os braços.

— Eu já disse.

— Raylla precisa ir para a Cidade de Vidro — respondeu Lúcio. — Lá ela vai ter atendimento médico, alimentação, escola...

— Eu tenho tudo isso aqui.

Lúcio olhou para Billy.

— Você sabe que ela não pode ficar.

Billy sustentou o olhar do irmão.

— Por quê?

Lúcio abriu a boca, mas não respondeu.

Era uma pergunta simples.

E, de repente, ele percebeu que não tinha uma resposta própria.

Apenas aquilo que ouvira tantas vezes.

— Porque é o procedimento da AIR.

Billy soltou uma pequena risada.

— Claro.

Lúcio ficou incomodado.

— Qual é o problema?

— Nenhum.

Billy colocou a mão no ombro de Raylla.

— Ela fica.

— Billy...

— Lúcio, você veio buscar uma criança porque alguém mandou. Eu entendo.

Ele apontou para a praça.

— Mas talvez esteja na hora de começar a perguntar por que algumas pessoas precisam ser levadas de um lugar para outro só porque uma autoridade decidiu que é melhor para elas.

Lúcio ficou calado.

Não gostava daquele tipo de conversa.

Principalmente porque Billy sabia exatamente onde tocar.

— Você ainda trabalha para a AIR? — perguntou Billy.

— Trabalho.

— Gosta?

Lúcio pensou.

— Gosto.

Billy assentiu.

— Então continue gostando.

Ele sorriu.

— Só não deixe que gostar deles impeça você de pensar.


Lúcio passou o restante da tarde no Norte.

Raylla mostrou-lhe algumas das casas próximas à praça. Cássio explicou como funcionavam as relações entre as Nações e contou que Billy atuava como uma espécie de representante entre o Norte e a AIR.

Lúcio achou estranho.

— Então você trabalha para eles?

Billy respondeu:

— Não.

— Mas você é o representante.

— Represento o Norte. Não a AIR.

A resposta ficou na cabeça de Lúcio.

No fim da tarde, chegou o momento de partir.

Raylla se aproximou dele.

— Você vai voltar?

Lúcio olhou para ela.

— Vou.

— Promete?

— Prometo.

Ela sorriu.

Billy acompanhou os dois até o Vortex.

Antes que Lúcio entrasse, o irmão segurou seu braço.

— Cuida dela.

— Vou cuidar.

— Não estou falando da viagem.

Lúcio ficou em silêncio.

Billy soltou seu braço.

— Boa viagem.

Lúcio entrou no Vortex.

Raylla veio logo atrás.

As luzes começaram a acender.

O ruído grave tomou conta da plataforma.

Lúcio respirou fundo.

Pensou na praça.

Nos obeliscos.

Na palavra Brasil.

Nas perguntas de Billy.

E, pela primeira vez, percebeu que talvez não conhecesse a história do mundo tanto quanto imaginava.

O Vortex foi ativado.


Quando chegaram à Cidade de Vidro, alguma coisa estava errada.

Lúcio percebeu antes mesmo de sair da plataforma.

Havia pessoas demais.

Homens armados.

Uniformes da FES.

Cerca de quinze soldados cercavam o Vortex.

E, no meio deles, estava Vera.

Lúcio parou.

Raylla segurou sua mão.

Vera olhou diretamente para os dois.

Seu rosto continuava sereno.

Mas havia alguma coisa diferente em seu olhar.

Como se estivesse esperando exatamente por aquele momento.

Lúcio engoliu em seco.

— O que está acontecendo?

Vera não respondeu.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

Então um dos soldados deu um passo à frente.

Lúcio sentiu o estômago se apertar.

Havia alguma coisa errada.

E, daquela vez, ele tinha certeza.

Nenhum comentário:

Postar um comentário