Capítulo III
Prioridade Zero
Lúcio permaneceu imóvel diante do Vortex.
Os soldados da FES continuavam espalhados pela plataforma, mantendo distância entre si. Eram muitos para uma simples recepção.
Quinze, talvez mais.
Raylla apertou sua mão.
— Quem são eles?
Lúcio não respondeu.
Seus olhos estavam fixos em Vera.
Ela continuava tranquila.
— Bem-vindos — disse.
A voz era suave.
Quase cordial.
Lúcio olhou para os soldados.
— O que está acontecendo?
— Nada que precise preocupar você.
— Então por que tem uma unidade inteira da FES aqui?
Vera sorriu.
— Tivemos um pequeno problema.
Lúcio não acreditou.
Ela nunca usava aquela expressão quando realmente queria dizer que alguma coisa estava bem.
— Onde está a Alana?
Vera desviou os olhos por um instante.
— Trabalhando.
— Ela sabia que eu estava voltando?
— Sabia.
Lúcio olhou novamente para os soldados.
Alguns estavam armados com rifles.
Aquilo não fazia sentido.
Aquela não era uma operação de rotina.
— E a menina?
Vera finalmente olhou para Raylla.
Seu sorriso desapareceu por um instante.
Depois voltou.
— Ela será encaminhada para o setor médico.
— Eu posso acompanhá-la.
— Não.
A resposta veio rápida demais.
Lúcio franziu a testa.
— Por quê?
— Porque você precisa entregar o relatório da missão.
— Eu posso fazer isso depois.
Vera aproximou-se.
— Lúcio.
Ele ficou em silêncio.
— Faça o que estou pedindo.
Aquele tom era diferente.
Não era uma ordem.
Era pior.
Era uma expectativa.
Lúcio soltou a mão de Raylla.
— Eu volto para buscar você.
A menina assentiu.
Dois soldados se aproximaram dela.
Lúcio deu um passo à frente.
— Cuidado com ela.
Vera colocou a mão em seu ombro.
— Confie em mim.
Ele olhou para ela.
Durante alguns segundos, pensou em tudo o que Vera havia feito por ele.
Ela o ajudara quando ninguém mais parecia saber o que fazer.
Fora uma das primeiras pessoas a acreditar que ele poderia ser útil.
Talvez estivesse exagerando.
Talvez realmente houvesse uma explicação.
Lúcio assentiu.
— Tudo bem.
O caminho até o prédio da AIR foi silencioso.
Vera caminhava ao lado dele.
Os soldados vinham atrás.
— Você parece preocupado — ela disse.
— Estou.
— Por quê?
Lúcio pensou antes de responder.
— Não sei.
Vera sorriu.
— Você sempre foi muito observador.
— Talvez.
— E desconfiado.
Lúcio olhou para ela.
— Isso é ruim?
— Não.
Ela continuou caminhando.
— Só pode ser inconveniente.
Ele não respondeu.
Ao chegarem ao edifício principal, Vera parou.
— Vá para o seu setor. Entregue o relatório.
— E depois?
— Depois conversamos.
Lúcio entrou.
Por alguns minutos, tentou se concentrar no trabalho.
Abriu os registros da missão.
Preencheu os dados sobre o deslocamento.
Localização.
Condições médicas.
Tempo de permanência.
Mas alguma coisa não estava certa.
Ele não conseguia parar de pensar na quantidade de soldados.
Na maneira como Vera reagira quando ele mencionara Raylla.
E principalmente em uma coisa.
Ela já estava esperando por eles.
Mais tarde, Lúcio saiu do setor administrativo.
O corredor estava vazio.
Ele decidiu procurar Vera.
Precisava perguntar o que estava acontecendo.
Quando chegou próximo ao escritório dela, ouviu vozes.
Parou.
A porta estava entreaberta.
— ...não podemos manter isso por muito tempo.
Era a voz de Vera.
Lúcio aproximou-se alguns centímetros.
Outra voz respondeu:
— Então precisamos agir antes.
Ele não reconheceu.
— E o garoto?
Silêncio.
Lúcio sentiu o coração acelerar.
Vera respondeu:
— Ainda não.
Ele recuou.
Uma porta se abriu no final do corredor.
Lúcio virou-se e caminhou rapidamente na direção contrária.
Não queria ser visto.
Voltou para o setor administrativo.
Poucos minutos depois, encontrou Carla.
Ela trabalhava em uma das áreas próximas ao arquivo central.
— Você voltou cedo — disse ela.
— A missão foi rápida.
Carla observou seu rosto.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Você está mentindo.
Lúcio tentou sorrir.
— Estou cansado.
Carla não pareceu convencida.
— Você trouxe a menina?
Lúcio hesitou.
— Trouxe.
— E?
— Ficou sob responsabilidade da AIR.
Carla ficou séria.
— Então você não trouxe ela para casa?
— Não.
— Estranho.
— Por quê?
— Porque normalmente crianças resgatadas passam primeiro pelo setor médico e depois são encaminhadas para reassentamento.
— Foi isso que aconteceu.
— Não necessariamente.
Lúcio franziu a testa.
— O que você quer dizer?
Carla olhou para os dois lados do corredor antes de responder.
— Vera não costuma mandar uma unidade inteira da FES para receber uma criança.
Lúcio ficou calado.
— Eu sabia que você tinha percebido — ela continuou.
— Percebido o quê?
Carla não respondeu.
Apenas olhou para ele.
— Tome cuidado.
Naquela noite, Lúcio voltou para casa.
Tentou dormir.
Não conseguiu.
A conversa no corredor continuava em sua cabeça.
“O garoto?”
“Ainda não.”
Ele levantou.
Foi até a cozinha.
Bebeu água.
A casa estava silenciosa.
Então ouviu um ruído atrás de si.
Lúcio se virou.
Nada.
Esperou.
Outro ruído.
Dessa vez, vindo da janela.
Ele se aproximou.
Abriu a cortina.
A rua estava vazia.
— Tem alguém aí?
Nenhuma resposta.
Lúcio fechou a janela.
Quando se virou, sentiu uma picada no braço.
Olhou para baixo.
Uma agulha estava presa em sua pele.
Ele tentou puxá-la.
Tarde demais.
Sua visão começou a ficar turva.
A cozinha pareceu se afastar.
As pernas perderam a força.
Lúcio caiu de joelhos.
Uma sombra surgiu atrás dele.
— Não...
Foi a última palavra que conseguiu dizer.
Quando abriu os olhos novamente, não sabia quanto tempo havia passado.
Estava deitado sobre uma superfície fria.
Tentou se mexer.
As mãos estavam livres.
Os pés também.
Mas o corpo parecia pesado.
Lúcio ergueu a cabeça.
O ambiente era completamente branco.
Não havia janelas.
Apenas uma porta.
Então ela se abriu.
Um homem entrou.
Era alto, forte e tinha a barba por fazer.
Seu olhar era duro.
Ele fechou a porta atrás de si e permaneceu alguns segundos observando Lúcio.
— Finalmente.
Lúcio tentou se levantar.
— Onde eu estou?
O homem não respondeu.
Aproximou-se e colocou uma cadeira diante dele.
Sentou.
— Vamos começar pelo básico.
Lúcio o encarou.
— Quem é você?
O homem sorriu.
— Isso não é importante.
Ele colocou uma pequena seringa sobre a mesa.
— O que importa é saber quem você é.
Lúcio sentiu um arrepio.
— Meu nome é Lúcio.
— Eu sei.
O homem inclinou-se para frente.
— Quero saber o que aconteceu no Norte.
Lúcio ficou em silêncio.
— Quem estava lá?
Ele não respondeu.
— O que a AIR está fazendo?
Lúcio continuou calado.
O homem observou seu rosto.
— Você sabe quando alguém está mentindo?
Lúcio não respondeu.
— Eu sei.
Ele pegou a seringa.
— E você vai me contar a verdade.
A agulha aproximou-se de seu braço.
Lúcio tentou recuar.
— Não.
O homem segurou seu braço.
— Vai ser mais fácil assim.
A seringa entrou.
O líquido desapareceu lentamente sob sua pele.
Poucos segundos depois, o ambiente começou a girar.
As lembranças vieram de uma vez.
O Norte.
A Praça das Nações.
Billy.
Raylla.
O Vortex.
Alana.
Os soldados.
Vera.
As perguntas.
A voz no corredor.
“O garoto?”
“Ainda não.”
Lúcio fechou os olhos.
Sentiu o coração disparar.
— O que a AIR está fazendo? — perguntou o homem.
— Eu...
A cabeça de Lúcio começou a doer.
— Quem é Billy?
— Meu irmão.
— O que ele sabe?
— Eu não sei.
— Quem é Raylla?
— Uma criança.
— Por que Vera estava esperando por vocês?
Lúcio apertou os olhos.
— Eu não sei.
O homem ficou irritado.
— Você está mentindo.
A dor aumentou.
Lúcio levou as mãos à cabeça.
As luzes começaram a piscar.
— Eu não sei!
Uma lâmpada explodiu.
O homem levantou-se.
— O que foi isso?
Lúcio abriu os olhos.
Outra lâmpada explodiu.
Depois outra.
O ar pareceu vibrar.
A mesa diante dele começou a se mover.
Devagar.
Primeiro alguns centímetros.
Depois cada vez mais rápido.
Lúcio olhou para o homem.
Ele também parecia assustado.
— Pare!
Lúcio tentou controlar a respiração.
Não conseguiu.
A mesa foi arremessada contra a parede.
O homem foi atingido e lançado para trás.
Lúcio permaneceu imóvel.
O silêncio tomou conta da sala.
Ele olhou para as próprias mãos.
Não entendia o que havia feito.
Então tudo ficou escuro.
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