Capítulo VI
Comando Rebelde
Naquela noite, Lúcio não conseguiu dormir.
A pedra continuava em sua cabeça.
Não porque fosse difícil movê-la.
Mas porque, pela primeira vez, alguém havia lhe dito que ele não estava simplesmente movendo objetos.
Havia alguma coisa por trás daquilo.
Alguma coisa que ele ainda não entendia.
No dia seguinte, voltou à Academia.
Thales estava esperando por ele.
— Chegou atrasado.
Lúcio olhou para o relógio.
— Ainda faltam cinco minutos.
— Então você chegou cinco minutos antes de estar atrasado.
Lúcio respirou fundo.
— O senhor é sempre assim?
— Infelizmente.
Thales apontou para o campo.
— Vamos.
Durante horas, Lúcio repetiu os mesmos exercícios.
Primeiro, pedras.
Depois, pequenos blocos de metal.
Em seguida, objetos em movimento.
Foi aí que percebeu a diferença.
Era fácil fazer um objeto parado deslizar.
Muito mais difícil era alterar o movimento de alguma coisa que já estivesse se deslocando.
— Mais rápido — ordenou Thales.
Lúcio tentou.
O bloco passou por ele.
— De novo.
Tentou outra vez.
Errou.
— De novo.
Na quinta tentativa, conseguiu alterar a trajetória do bloco.
Ele desviou no ar e caiu no chão.
Lúcio sorriu.
Thales permaneceu sério.
— Está melhorando.
— Isso foi um elogio?
— Não se acostume.
Nos dias seguintes, Lúcio começou a entender melhor o próprio poder.
Ele não precisava tocar nos objetos.
Precisava perceber o movimento.
Podia empurrar.
Frear.
Desviar.
Alterar a direção.
Mas quanto maior o objeto, maior era o esforço.
Quanto mais rápido estivesse se movendo, mais difícil era interferir.
E, quando exagerava, seu corpo cobrava o preço.
Certa tarde, depois de tentar parar uma estrutura metálica, Lúcio caiu de joelhos.
Uma gota de sangue escorreu de seu nariz.
Thales se aproximou.
— Chega.
— Eu consigo.
— Eu disse chega.
Lúcio passou a mão no nariz.
— Só mais uma vez.
— Você quer aprender a controlar seu poder ou quer descobrir até onde consegue se destruir?
Lúcio ficou em silêncio.
Thales virou-se.
— Amanhã continuamos.
Pela primeira vez, Lúcio percebeu que o velho talvez não estivesse tentando humilhá-lo.
Estava tentando ensiná-lo.
Naquela noite, Lúcio decidiu contar tudo para Carla.
Não sabia exatamente o que esperava dela.
Talvez uma explicação.
Talvez apenas alguém em quem pudesse confiar.
Pegou o casaco e saiu.
A cidade estava silenciosa.
Quando chegou ao prédio onde Carla morava, não bateu à porta.
Subiu pela escada de emergência e foi até a janela do quarto.
Bateu três vezes.
Nada.
Bateu novamente.
A janela se abriu.
Carla apareceu, assustada.
— Lúcio?
— Preciso falar com você.
Ela abriu espaço.
— Entra.
Ele entrou.
Carla fechou a janela.
— O que aconteceu?
Lúcio ficou parado no meio do quarto.
— Eu descobri por que a FES estava atrás de mim.
Carla esperou.
— Eu sou um Desperto.
Ela não demonstrou surpresa.
— Eu imaginei.
Lúcio franziu a testa.
— Você imaginou?
— Depois do que aconteceu naquela noite? Sim.
— Minha mãe sabia.
— E você só descobriu agora?
— Basicamente.
Carla se sentou.
— E qual é o seu poder?
Lúcio olhou para as mãos.
— Eu consigo interferir no movimento das coisas.
— Como?
— Não sei explicar.
Ele contou sobre a Academia.
Sobre Thales.
Sobre os exercícios.
Sobre a pedra.
Sobre a estrutura metálica.
Carla ouviu tudo em silêncio.
Quando terminou, ela levantou-se.
— Então talvez seja por isso.
— Por isso o quê?
Ela caminhou até uma estante.
— Há algumas semanas comecei a receber documentos estranhos.
— Que documentos?
Carla retirou uma pasta.
— Documentos da AIR.
Lúcio se aproximou.
— E daí?
— Esses não deveriam ter chegado até mim.
Ela abriu a pasta.
As folhas estavam marcadas com uma faixa vermelha.
— O que significa isso?
— Não sei.
— Mas alguém sabia.
Carla retirou outra folha.
— Quando comecei a perguntar, meu coordenador mandou destruir tudo.
— Tudo?
— Tudo.
— Por quê?
— Ele disse que aqueles arquivos não deveriam existir.
Lúcio ficou olhando para os documentos.
— E você destruiu?
— Alguns.
Ela abriu uma gaveta.
— Outros eu escondi.
Retirou duas pastas vermelhas.
Havia um símbolo da AIR na capa.
Abaixo dele, uma inscrição:
PRIORIDADE ZERO.
Lúcio sentiu um arrepio.
— O que tem aí?
— Ainda não consegui descobrir tudo.
Ela abriu a primeira pasta.
Havia relatórios sobre ataques ocorridos em diferentes regiões.
— Esses ataques foram atribuídos a grupos rebeldes.
Lúcio olhou para ela.
— E não foram?
Carla abriu a segunda pasta.
— É isso que eu não sei.
Ela virou uma página.
No topo estava escrito:
COMANDO REBELDE.
Lúcio leu o nome novamente.
— Comando Rebelde...
Carla assentiu.
— E tem mais.
Ela virou outra página.
Lúcio parou.
Havia uma fotografia.
Um rosto conhecido.
Billy.
— Não.
Carla olhou para ele.
— Billy está no comando.
Lúcio sentiu o estômago apertar.
— Isso não faz sentido.
— Eu sei.
— Ele não faria isso.
— Talvez você não conheça seu irmão tão bem quanto pensa.
Lúcio levantou os olhos.
— Cuidado com o que está dizendo.
Antes que Carla respondesse, um estrondo sacudiu o prédio.
As janelas tremeram.
Os dois olharam para fora.
Luzes vermelhas surgiram nas ruas.
Carla empalideceu.
— Eles nos encontraram.
Outro estrondo.
Dessa vez, muito mais perto.
— Quem?
Ela fechou rapidamente as pastas.
— FES.
Passos ecoaram no corredor.
Lúcio olhou para a porta.
Carla pegou as duas pastas.
— Temos que sair.
— Para onde?
Ela abriu a janela.
— Agora, Lúcio.
Ele a seguiu.
Quando desceu pela escada de emergência, ouviu o primeiro disparo.
E, pela primeira vez, não teve certeza de quem estava tentando protegê-lo.
Ou quem estava tentando matá-lo.
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