Depois de uns 10 anos? Resolvi que "Além da Terra Devastada" merecia uma olhadinha nova, considerando que eu sou hoje uma pessoa muito diferente, com visões diferentes. Então, reli os 11 capítulos já publicados e trago aqui uma nova redação e interpretação do meu proto-romance de adolescentes:
Além da Terra Devastada
— Lúcio. Acorda.
A voz de sua mãe atravessou a porta antes que ele estivesse realmente desperto.
— O café está na mesa.
Lúcio abriu os olhos e permaneceu alguns segundos olhando para o teto. A luz da manhã entrava pelas frestas da janela, desenhando linhas claras sobre a parede.
— Já vou.
Do outro lado, silêncio.
Ele se sentou na cama, esfregou o rosto e respirou fundo antes de levantar.
A casa estava silenciosa quando chegou à cozinha. Sua mãe estava sentada à mesa, com uma xícara entre as mãos. O café já havia esfriado um pouco.
— Você está atrasado.
Lúcio puxou a cadeira.
— Eu sei.
— Hoje você vai mesmo?
Ele sabia exatamente do que ela estava falando.
— Vou.
Sua mãe permaneceu olhando para ele.
— Você ainda pode desistir.
Lúcio baixou os olhos para o prato.
— Eu não quero desistir.
— Não é uma questão de querer.
Ele não respondeu.
Havia meses que aquela conversa se repetia, de formas diferentes, quase sempre terminando no mesmo lugar. Sua mãe queria que ele fizesse alguma coisa da própria vida. Queria que descobrisse aquilo que, segundo ela, estava dentro dele.
Os Despertos eram conhecidos havia décadas. Pessoas capazes de fazer coisas que ninguém mais conseguia explicar completamente. Alguns controlavam elementos. Outros possuíam habilidades ligadas ao corpo, à mente ou à matéria. Havia aqueles capazes de mover objetos, atravessar distâncias ou perceber coisas que passavam despercebidas para pessoas comuns.
Lúcio havia feito todos os testes.
E falhado em praticamente todos.
Nenhuma manifestação. Nenhuma habilidade identificável. Nada.
— Você sabe que não precisa provar nada para mim — sua mãe disse.
Lúcio quase sorriu.
Era justamente esse o problema.
Todos diziam que ele não precisava provar nada. Depois perguntavam o que havia descoberto, quando seu poder apareceria, por que os outros conseguiam e ele não.
Ele aprendera cedo que era mais fácil ser aquilo que esperavam dele.
Ser educado. Ser prestativo. Não reclamar. Não decepcionar.
Talvez, se fosse bom o bastante, finalmente parassem de esperar alguma coisa.
Mas nunca paravam.
— Eu só quero tentar outra coisa — disse.
Sua mãe ficou em silêncio.
Lúcio terminou o café e se levantou.
Naquela manhã, ele deixaria a casa.
Não para sempre. Não ainda.
Mas pela primeira vez faria alguma coisa simplesmente porque queria.
A AIR ocupava um dos maiores complexos da Cidade de Vidro.
A cidade recebera esse nome pelas construções que haviam surgido durante o período de reconstrução. Torres de vidro, passarelas suspensas, estruturas metálicas e enormes painéis translúcidos formavam uma paisagem que, vista de longe, parecia quase artificial.
Era difícil imaginar que o mundo havia chegado tão perto do fim.
Séculos de guerras haviam destruído países inteiros. Armas nucleares haviam transformado regiões em áreas inabitáveis. O derretimento parcial das calotas polares alterara o litoral de continentes inteiros. Quando as guerras finalmente cessaram, as antigas nações precisaram reaprender a existir.
A Autoridade Internacional de Reconstrução havia surgido nesse período.
Primeiro como uma estrutura internacional de reconstrução. Depois, tornou-se responsável pela distribuição de alimentos, atendimento médico, reassentamento populacional e recuperação dos territórios devastados.
Com o tempo, tornou-se muito mais do que isso.
Lúcio trabalhava ali havia quase um ano.
Era pouco tempo, mas suficiente para descobrir que gostava daquele lugar.
Ali ninguém perguntava o tempo inteiro quando seu poder apareceria.
Ali ele era apenas Lúcio.
Um dos jovens auxiliares da AIR.
E, pela primeira vez, isso parecia suficiente.
— Você está com uma cara péssima.
Lúcio virou-se.
Vera estava parada atrás dele.
Ela vestia branco, como quase sempre. Uma blusa simples, calça clara e os cabelos perfeitamente arrumados. Não havia nada de ameaçador em sua aparência. Pelo contrário. Vera tinha um jeito naturalmente acolhedor que fazia as pessoas confiarem nela com facilidade.
— Dormi pouco — respondeu Lúcio.
— Nervoso?
— Um pouco.
Ela sorriu.
— Você sempre fica nervoso antes de fazer alguma coisa importante.
— Talvez porque eu sempre ache que vou fazer alguma coisa errada.
— E faz?
Lúcio pensou.
— Às vezes.
— Então está aprendendo.
Ela passou por ele e continuou andando.
Lúcio a acompanhou.
Vera havia sido uma das pessoas mais importantes em sua formação na AIR. Fora ela quem lhe ensinara sobre a organização, sobre os territórios devastados e sobre a necessidade de preservar as comunidades que ainda existiam.
Também era uma das poucas pessoas que nunca o tratara como alguém incompleto.
Por isso, Lúcio confiava nela.
Talvez confiasse até demais.
— Tenho uma tarefa para você — disse Vera.
Lúcio ergueu as sobrancelhas.
— Sozinho?
— Sozinho.
Ela lhe entregou uma pasta preta.
— Norte.
Lúcio abriu a pasta.
Dentro havia poucas informações. Um nome. Uma fotografia. Alguns dados médicos.
— Uma criança?
— Uma menina. Nove anos.
— O que aconteceu com os pais?
— Não sabemos.
Ele olhou para Vera.
— E o que eu preciso fazer?
— Buscá-la.
— Só isso?
— Trazê-la para cá com segurança. O restante será resolvido depois.
Lúcio fechou a pasta.
— Por que eu?
Vera o observou durante alguns segundos.
— Porque você conhece o funcionamento da AIR, conhece o Vortex e, principalmente, porque precisa começar a fazer alguma coisa sozinho.
Lúcio não soube se aquilo era uma missão ou uma provocação.
— E se alguma coisa der errado?
— Você volta.
— E se não puder?
Vera sorriu.
— Então terá que descobrir o que fazer.
Ele não gostou muito daquela resposta.
Ainda assim, assentiu.
Alana o esperava na plataforma do Vortex.
Era uma mulher alta, de cabelos escuros presos para trás. As cicatrizes que atravessavam parte de seu rosto eram difíceis de ignorar, mas Lúcio já havia aprendido que perguntar sobre elas não era uma boa ideia.
Ela entregou a ele uma mochila azul.
— Tudo o que você precisa está aqui.
— Quanto tempo?
— Uma hora.
— Uma hora?
— Para encontrar a menina, trazê-la até o Vortex e retornar.
— E se eu demorar?
Alana apontou para a pasta preta.
— Então espero que tenha uma boa explicação para a sua chefe.
Lúcio sorriu sem graça.
— Ela não parece o tipo de pessoa que aceita boas explicações.
— Não é.
Alana conferiu o dispositivo preso ao pulso dele.
— E escute uma coisa: não confie em qualquer pessoa que encontrar no Norte.
— Você está falando sério?
— Estou.
O Norte era diferente da Cidade de Vidro.
Mais pobre. Mais descentralizado. Mais livre.
Pelo menos era assim que as pessoas gostavam de descrevê-lo.
Também era uma das regiões onde havia maior concentração de Despertos.
Lúcio não perguntou por quê.
O Vortex começou a emitir um ruído grave.
As luzes ao redor da plataforma acenderam-se.
— Pronto?
Lúcio olhou uma última vez para Alana.
— Não.
Ela riu.
— Melhor assim.
O mundo desapareceu.
Por alguns segundos, Lúcio teve a sensação de que o próprio corpo havia deixado de existir. Não havia chão, teto, peso ou direção. Apenas uma pressão violenta atravessando cada parte dele.
Então tudo voltou.
Ele caiu de joelhos.
Tossiu.
— Odeio isso.
Uma voz respondeu:
— Todo mundo odeia.
Lúcio levantou a cabeça.
Um homem negro, de cabeça raspada, vestindo azul, estava diante dele.
— Seja muito bem-vindo ao Norte!
Lúcio respirou fundo.
Atrás daquele homem, uma estrada de terra seguia entre construções baixas. Crianças corriam pela rua. Pessoas conversavam nas portas das casas. Mais ao longe, além das construções, havia uma faixa extensa de vegetação.
Nada se parecia com a Cidade de Vidro.
Lúcio levantou-se devagar.
A missão havia começado.
E ele ainda não fazia ideia de que aquela seria a última vez que acreditaria conhecer o mundo em que vivia.
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