quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ALÉM DA TERRA DEVASTADA - REMAKE - CAP 8

 

Capítulo VIII

Infiltração

O antigo posto de saúde estava silencioso.

Do lado de fora, a cidade parecia normal.

Era justamente isso que preocupava Carla.

— Não podemos ficar aqui.

Julius fechou a cortina.

— E vamos para onde?

Carla não respondeu.

Sobre a mesa, o cubo de dados continuava projetando linhas de código.

— O rastreamento ainda está ativo — disse ela. — Só que agora ele está voltando para a AIR.

Lúcio olhou para o cubo.

— Então eles sabem onde estamos?

— Ainda não.

— E quando souberem?

Carla desligou a projeção.

— Teremos um problema.

Lúcio ficou alguns segundos em silêncio.

Depois falou:

— Eu vou até a Vera.

Carla levantou os olhos.

— O quê?

— Pela porta da frente.

— Você ficou maluco?

— Ela me conhece.

— Justamente por isso.

— Ela foi minha mentora. Foi ela quem me ensinou tudo o que eu sei sobre a AIR.

Carla balançou a cabeça.

— Lúcio, você acabou de descobrir que talvez ela esteja por trás de tudo isso.

— Talvez.

— E você ainda confia nela?

Lúcio demorou a responder.

— Eu não sei.

Ele olhou para as pastas vermelhas.

— Mas preciso descobrir.

Julius cruzou os braços.

— E você acha que ela vai simplesmente deixar você entrar?

— Não.

Lúcio encarou Carla.

— Acho que ela quer que eu vá.

Carla ficou em silêncio.


O plano era simples.

O que tornava tudo mais perigoso.

Julius cortou superficialmente o próprio braço com um bisturi.

— Isso vai funcionar?

Carla observou o ferimento.

— Se alguém perguntar, você se machucou durante o ataque.

— Ótimo.

— E tente parecer que está sentindo dor.

Julius fez uma expressão dramática.

— Assim?

— Menos.

Enquanto isso, Carla vestia roupas largas e escondia os cabelos.

Em poucos minutos, parecia uma senhora idosa.

Lúcio colocou um capuz.

— E eu?

Carla entregou a ele uma faixa escura.

— Você não fala.

— Por quê?

— Porque qualquer pessoa que reconhecer sua voz pode acabar com o plano.

Julius riu.

— Finalmente uma missão em que ficar calado vai ajudar.

Eles deixaram o posto de saúde.

Julius caminhava apoiado em Carla.

Lúcio vinha atrás.

Na entrada, dois funcionários da AIR se aproximaram.

— O que aconteceu?

Carla respondeu com voz trêmula:

— Meu filho se machucou durante o ataque.

O soldado olhou para Julius.

— Precisamos levá-lo para atendimento.

— Por favor.

O homem fez um sinal.

Os três entraram.


O centro de distribuição ficava abaixo da Torre.

Era enorme.

Centenas de pessoas circulavam entre corredores, elevadores e plataformas.

Caixas de medicamentos, alimentos e equipamentos passavam de um lado para outro.

Algumas delas flutuavam.

Lúcio observou.

Despertos trabalhavam ali.

Não como soldados.

Como trabalhadores.

Ele sentiu um desconforto estranho.

Durante anos, havia imaginado a AIR como algo distante.

Agora estava vendo como aquela estrutura funcionava por dentro.

Carla apontou discretamente para um corredor.

Lúcio se afastou.

Entrou em uma pequena sala de funcionários.

Havia uniformes pendurados.

Ele pegou um.

Vestiu a camisa.

Colocou o boné.

Depois encontrou um par de óculos escuros.

Quando saiu, parecia apenas mais um funcionário.

O elevador estava cheio.

Lúcio entrou.

Ninguém prestou atenção nele.

As portas se fecharam.

Ele respirou fundo.

O elevador começou a subir.


— Lúcio.

A voz de Carla surgiu no pequeno dispositivo preso ao ouvido.

Ele quase levou a mão ao aparelho.

— Não toque.

— Como você está falando comigo?

— Seu bracelete.

Lúcio olhou para o pulso.

Um pequeno dispositivo azul estava preso ali.

— Quando você colocou isso?

— Enquanto você dormia.

— Isso é tranquilizador.

— Ele permite comunicação, localização e acesso à rede interna.

Lúcio olhou para os corredores.

— Você consegue ver tudo?

— Não tudo.

Uma pausa.

— Mas estou entrando no sistema.

Naquele instante, uma série de portas se abriu ao longo do corredor.

Lúcio continuou andando.

— E minha mãe?

Carla demorou alguns segundos.

— Julius conseguiu chegar até ela.

Lúcio parou.

— Ela está bem?

— Está.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Ainda bem.

— Lúcio...

— O quê?

— Encontrei alguma coisa.

A voz dela mudou.

— O rastreamento que estava seguindo a gente voltou para o computador central.

— Onde?

— Perto do escritório da Vera.

Lúcio sentiu o coração acelerar.

— Então ela sabe.

— Provavelmente.

— E ainda assim estamos aqui.

— Eu sei.

Lúcio olhou para o final do corredor.

A Torre se erguia acima dele.

— Ela quer que eu chegue até ela.

Carla ficou em silêncio.

— É exatamente o que eu estava pensando.


As luzes do corredor piscaram.

Lúcio parou.

— Carla?

Nenhuma resposta.

— Carla?

O bracelete vibrou.

Uma mensagem apareceu:

ACESSO NEGADO.

Depois outra:

IDENTIFICAÇÃO INVÁLIDA.

Lúcio olhou ao redor.

As portas começaram a se fechar.

— Carla?

Finalmente, a voz dela voltou.

— Eles descobriram.

Lúcio correu.

Atrás dele, ouviram-se passos.

— Quanto tempo?

— Pouco.

— Para onde?

— Elevador da direita.

Lúcio entrou.

As portas começaram a fechar.

Um soldado apareceu no corredor.

Lúcio levantou a mão por instinto.

O homem parou.

Por uma fração de segundo, Lúcio sentiu o movimento do corpo dele.

Poderia empurrá-lo.

Mas não fez isso.

As portas se fecharam.

O elevador subiu.

— Você poderia ter derrubado aquele homem — disse Carla.

— Eu sei.

— Por que não fez?

Lúcio olhou para a própria mão.

— Porque estou começando a entender que não quero ser como eles.

Silêncio.

— Carla?

— Estou aqui.

— O que acontece agora?

Ela respirou fundo.

— Agora você vai até a Vera.

Lúcio fechou os olhos.

A última coisa que Carla disse antes de perder a comunicação foi:

— E, Lúcio...

— Sim?

— Não confie em ninguém.

As portas do elevador se abriram.

Do outro lado havia um corredor branco.

No fim dele, uma porta.

Lúcio caminhou lentamente.

Então ouviu uma voz.

— Lúcio?

Ele parou.

Conhecia aquela voz.

Era Vera.

E, naquele momento, percebeu que talvez tivesse cometido o maior erro de sua vida.

A porta começou a se abrir.

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