Capítulo IV
Templo
Lúcio abriu os olhos.
A primeira coisa que sentiu foi o frio.
Estava deitado sobre uma superfície dura, com os braços ao lado do corpo. Tentou se mexer, mas uma dor atravessou sua cabeça.
Levou a mão à testa.
Não havia sangue.
Olhou ao redor.
A sala era pequena e completamente branca.
Não havia janelas.
Nenhum relógio.
Nenhum objeto além de uma cadeira posicionada alguns metros à sua frente.
Lúcio tentou se levantar.
Conseguiu sentar.
A porta se abriu.
Um homem entrou.
Era alto, forte e tinha a barba por fazer. Vestia roupas simples e caminhava com tranquilidade, como se aquele lugar lhe pertencesse.
Ele fechou a porta.
Lúcio o encarou.
— Onde estou?
O homem puxou a cadeira e sentou-se.
— No Templo.
— Que lugar é esse?
— Um lugar para pessoas que ainda acreditam que o mundo pode ser salvo.
Lúcio franziu a testa.
— Eu quero ir embora.
— Imagino.
O homem apoiou os braços sobre os joelhos.
— Mas antes precisamos conversar.
— Sobre o quê?
— Sobre a verdade.
Lúcio permaneceu em silêncio.
— Você trabalha para a AIR.
— Trabalho.
— Há quanto tempo?
— Quase um ano.
— E gosta?
Lúcio não respondeu imediatamente.
— Gosto.
O homem observou seu rosto.
— Você acredita na AIR?
— Sim.
— Acredita em Vera?
Lúcio levantou os olhos.
— Sim.
O homem sorriu.
— Interessante.
Ele retirou uma pequena seringa do bolso.
Lúcio recuou.
— O que é isso?
— Uma maneira de facilitar nossa conversa.
— Não.
O homem levantou-se.
— Você não precisa ter medo.
— Eu não quero isso.
— Não é uma questão de querer.
Lúcio tentou se afastar, mas o homem segurou seu braço.
A agulha entrou.
Poucos segundos depois, o homem voltou a sentar.
— Agora vamos tentar novamente.
Lúcio respirava com dificuldade.
— O que aconteceu no Norte?
— Nada.
— Você encontrou Billy?
Lúcio ficou imóvel.
— Sim.
— O que ele disse?
— Nada importante.
— E a menina?
— Raylla.
O homem sorriu.
— Então você lembra.
Lúcio percebeu o erro.
— Ela está na AIR.
— Está?
— Sim.
— Por quê?
— Porque é uma criança.
— Isso não responde.
Lúcio fechou os olhos.
As lembranças começaram a surgir.
A Praça das Nações.
Os obeliscos.
A palavra Brasil.
Billy.
As perguntas.
Vera esperando no Vortex.
Os soldados.
Carla.
O corredor.
“O garoto?”
“Ainda não.”
Lúcio abriu os olhos.
— Eu não sei.
O homem aproximou-se.
— O que Vera queria?
— Eu não sei.
— O que existe nos arquivos da AIR?
— Eu não sei.
— O que Billy descobriu?
— Eu não sei!
A dor aumentou.
Lúcio levou as mãos à cabeça.
— Pare.
O homem permaneceu diante dele.
— Você sabe mais do que imagina.
As luzes começaram a piscar.
Lúcio respirou fundo.
Uma.
Duas vezes.
A mesa tremeu.
O homem olhou para ela.
— O que está acontecendo?
Lúcio também não sabia.
A mesa se moveu alguns centímetros.
Depois parou.
— Eu não estou fazendo isso.
O homem deu um passo para trás.
A lâmpada no teto explodiu.
Lúcio gritou.
Outra lâmpada estourou.
Depois outra.
O homem tentou alcançar a porta.
A cadeira foi arrastada violentamente pelo chão e atingiu suas pernas.
Ele caiu.
Lúcio levantou-se.
Não sabia como.
Não sabia por quê.
A mesa começou a deslizar em sua direção.
Ele estendeu as mãos.
— Para!
Tudo parou.
Por um instante, houve silêncio.
Então o homem se levantou.
— Você é um Desperto.
Lúcio olhou para ele.
— Não.
— É.
— Eu não sou.
— Você acabou de provar.
O homem avançou.
Lúcio recuou.
— Fique longe de mim.
O homem estendeu a mão.
— Controle isso.
— Eu não sei como!
Uma força invisível atravessou a sala.
O homem foi lançado contra a parede.
O impacto fez a estrutura tremer.
Lúcio ficou parado.
As mãos tremiam.
Ele olhou para o homem caído.
Depois para as próprias mãos.
— Meu Deus...
Sua visão começou a escurecer.
A última coisa que ouviu antes de perder os sentidos foi:
— Eles não podem descobrir o que você é.
Quando voltou a abrir os olhos, estava em outro lugar.
Uma rua vazia.
Lúcio estava deitado sobre o asfalto.
Tentou se levantar.
A cabeça doía.
O corpo inteiro parecia pesado.
Olhou para os prédios ao redor.
Cidade de Vidro.
Ele estava de volta.
Não sabia como.
Não sabia quem o havia levado.
E, principalmente, não sabia por que aquele homem tinha medo de que a AIR descobrisse o que ele era.
Lúcio caminhou sem direção.
A cada passo, tentava organizar as lembranças.
O Norte.
Billy.
Raylla.
Vera.
O Templo.
Aquele homem.
E aquilo que havia acontecido naquela sala.
Uma força que ele não conseguira controlar.
Quando chegou à estação, entrou no primeiro trem que apareceu.
Sentou-se sozinho.
As portas se fecharam.
O trem começou a andar.
Lúcio apoiou a cabeça no vidro.
Por alguns segundos, tudo permaneceu em silêncio.
Então a lâmpada acima dele piscou.
Lúcio levantou os olhos.
A luz piscou novamente.
E apagou.
Ele ficou olhando para ela.
— Não...
Outra lâmpada começou a piscar no vagão.
Lúcio fechou os olhos.
Não queria pensar naquilo.
Não queria entender.
Mas, pela primeira vez em toda a sua vida, a pergunta que tanto esperara responder havia finalmente encontrado uma resposta.
Ele era um Desperto.
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