quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ALÉM DA TERRA DEVASTADA - REMAKE - CAP 4

 

Capítulo IV

Templo

Lúcio abriu os olhos.

A primeira coisa que sentiu foi o frio.

Estava deitado sobre uma superfície dura, com os braços ao lado do corpo. Tentou se mexer, mas uma dor atravessou sua cabeça.

Levou a mão à testa.

Não havia sangue.

Olhou ao redor.

A sala era pequena e completamente branca.

Não havia janelas.

Nenhum relógio.

Nenhum objeto além de uma cadeira posicionada alguns metros à sua frente.

Lúcio tentou se levantar.

Conseguiu sentar.

A porta se abriu.

Um homem entrou.

Era alto, forte e tinha a barba por fazer. Vestia roupas simples e caminhava com tranquilidade, como se aquele lugar lhe pertencesse.

Ele fechou a porta.

Lúcio o encarou.

— Onde estou?

O homem puxou a cadeira e sentou-se.

— No Templo.

— Que lugar é esse?

— Um lugar para pessoas que ainda acreditam que o mundo pode ser salvo.

Lúcio franziu a testa.

— Eu quero ir embora.

— Imagino.

O homem apoiou os braços sobre os joelhos.

— Mas antes precisamos conversar.

— Sobre o quê?

— Sobre a verdade.

Lúcio permaneceu em silêncio.

— Você trabalha para a AIR.

— Trabalho.

— Há quanto tempo?

— Quase um ano.

— E gosta?

Lúcio não respondeu imediatamente.

— Gosto.

O homem observou seu rosto.

— Você acredita na AIR?

— Sim.

— Acredita em Vera?

Lúcio levantou os olhos.

— Sim.

O homem sorriu.

— Interessante.

Ele retirou uma pequena seringa do bolso.

Lúcio recuou.

— O que é isso?

— Uma maneira de facilitar nossa conversa.

— Não.

O homem levantou-se.

— Você não precisa ter medo.

— Eu não quero isso.

— Não é uma questão de querer.

Lúcio tentou se afastar, mas o homem segurou seu braço.

A agulha entrou.

Poucos segundos depois, o homem voltou a sentar.

— Agora vamos tentar novamente.

Lúcio respirava com dificuldade.

— O que aconteceu no Norte?

— Nada.

— Você encontrou Billy?

Lúcio ficou imóvel.

— Sim.

— O que ele disse?

— Nada importante.

— E a menina?

— Raylla.

O homem sorriu.

— Então você lembra.

Lúcio percebeu o erro.

— Ela está na AIR.

— Está?

— Sim.

— Por quê?

— Porque é uma criança.

— Isso não responde.

Lúcio fechou os olhos.

As lembranças começaram a surgir.

A Praça das Nações.

Os obeliscos.

A palavra Brasil.

Billy.

As perguntas.

Vera esperando no Vortex.

Os soldados.

Carla.

O corredor.

“O garoto?”

“Ainda não.”

Lúcio abriu os olhos.

— Eu não sei.

O homem aproximou-se.

— O que Vera queria?

— Eu não sei.

— O que existe nos arquivos da AIR?

— Eu não sei.

— O que Billy descobriu?

— Eu não sei!

A dor aumentou.

Lúcio levou as mãos à cabeça.

— Pare.

O homem permaneceu diante dele.

— Você sabe mais do que imagina.

As luzes começaram a piscar.

Lúcio respirou fundo.

Uma.

Duas vezes.

A mesa tremeu.

O homem olhou para ela.

— O que está acontecendo?

Lúcio também não sabia.

A mesa se moveu alguns centímetros.

Depois parou.

— Eu não estou fazendo isso.

O homem deu um passo para trás.

A lâmpada no teto explodiu.

Lúcio gritou.

Outra lâmpada estourou.

Depois outra.

O homem tentou alcançar a porta.

A cadeira foi arrastada violentamente pelo chão e atingiu suas pernas.

Ele caiu.

Lúcio levantou-se.

Não sabia como.

Não sabia por quê.

A mesa começou a deslizar em sua direção.

Ele estendeu as mãos.

— Para!

Tudo parou.

Por um instante, houve silêncio.

Então o homem se levantou.

— Você é um Desperto.

Lúcio olhou para ele.

— Não.

— É.

— Eu não sou.

— Você acabou de provar.

O homem avançou.

Lúcio recuou.

— Fique longe de mim.

O homem estendeu a mão.

— Controle isso.

— Eu não sei como!

Uma força invisível atravessou a sala.

O homem foi lançado contra a parede.

O impacto fez a estrutura tremer.

Lúcio ficou parado.

As mãos tremiam.

Ele olhou para o homem caído.

Depois para as próprias mãos.

— Meu Deus...

Sua visão começou a escurecer.

A última coisa que ouviu antes de perder os sentidos foi:

— Eles não podem descobrir o que você é.


Quando voltou a abrir os olhos, estava em outro lugar.

Uma rua vazia.

Lúcio estava deitado sobre o asfalto.

Tentou se levantar.

A cabeça doía.

O corpo inteiro parecia pesado.

Olhou para os prédios ao redor.

Cidade de Vidro.

Ele estava de volta.

Não sabia como.

Não sabia quem o havia levado.

E, principalmente, não sabia por que aquele homem tinha medo de que a AIR descobrisse o que ele era.

Lúcio caminhou sem direção.

A cada passo, tentava organizar as lembranças.

O Norte.

Billy.

Raylla.

Vera.

O Templo.

Aquele homem.

E aquilo que havia acontecido naquela sala.

Uma força que ele não conseguira controlar.

Quando chegou à estação, entrou no primeiro trem que apareceu.

Sentou-se sozinho.

As portas se fecharam.

O trem começou a andar.

Lúcio apoiou a cabeça no vidro.

Por alguns segundos, tudo permaneceu em silêncio.

Então a lâmpada acima dele piscou.

Lúcio levantou os olhos.

A luz piscou novamente.

E apagou.

Ele ficou olhando para ela.

— Não...

Outra lâmpada começou a piscar no vagão.

Lúcio fechou os olhos.

Não queria pensar naquilo.

Não queria entender.

Mas, pela primeira vez em toda a sua vida, a pergunta que tanto esperara responder havia finalmente encontrado uma resposta.

Ele era um Desperto.

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