quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ALÉM DA TERRA DEVASTADA - REMAKE - CAP 10

 

Capítulo X

Frente a Frente

As portas se fecharam.

Lúcio olhou para Vera.

Ela continuava tranquila.

— O que você quer de mim?

Vera caminhou até a mesa e desligou o projetor.

— Quero que você pare de fugir.

— Eu não estou fugindo.

— Está desde o momento em que saiu do Norte.

Lúcio sentiu a irritação crescer.

— Eu fui atrás da verdade.

— E encontrou?

Ele pensou em Billy.

Nas pastas vermelhas.

No Templo.

Na FES.

Na Academia.

Naquela Torre.

— Encontrei coisas que você tentou esconder.

Vera assentiu.

— Algumas.

— Por quê?

— Porque nem toda verdade pode ser entregue de uma vez.

— Isso é o que vocês sempre dizem.

Vera se aproximou.

— E você sempre acreditou.

Lúcio ficou em silêncio.

Aquilo doeu mais do que deveria.

Porque era verdade.

Durante anos, ele acreditara na AIR.

Acreditara em Vera.

Acreditara que obedecer era uma forma de fazer a coisa certa.

— Você me enganou.

— Não.

Vera respondeu com calma.

— Eu deixei você acreditar no que precisava acreditar.

Lúcio franziu a testa.

— Isso é a mesma coisa.

— Não para mim.

Ele deu um passo à frente.

— O que aconteceu no Norte?

— Você descobriu que seu irmão faz parte do Comando Rebelde.

— E você já sabia.

— Sim.

— Por quanto tempo?

Vera não respondeu.

— Desde antes de eu chegar lá?

Silêncio.

Lúcio sentiu a resposta antes de ouvi-la.

— Sim.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Então aquela missão...

— Era necessária.

— Para encontrar Raylla?

— Também.

Lúcio abriu os olhos.

— Também?

Vera sustentou seu olhar.

— Para você encontrar Billy.

O coração de Lúcio disparou.

— Você queria que eu encontrasse meu irmão.

— Queria.

— Por quê?

— Porque eu precisava saber o que ele faria quando estivesse diante de você.

Lúcio ficou imóvel.

— E o que ele fez?

— Tentou convencê-lo a ficar.

— E você queria que eu recusasse.

— Eu queria que você escolhesse.

Lúcio riu sem humor.

— Você chama isso de escolha?

Vera não respondeu.

Ele começou a andar pela sala.

— Você colocou soldados em volta da Vortex.

— Sim.

— Mandou me perseguirem.

— Sim.

— Deixou que eu chegasse até aqui.

— Sim.

Lúcio parou.

— Então tudo isso foi planejado.

— Nem tudo.

— O quê não foi?

Vera sorriu discretamente.

— Você.

Pela primeira vez, Lúcio não soube o que responder.

Vera se aproximou da janela.

— Essa é a parte que você ainda não compreendeu. A AIR pode controlar cidades, exércitos, recursos. Pode decidir onde as pessoas vivem e quem recebe comida ou medicamentos.

Ela olhou para a cidade.

— Mas não pode controlar aquilo que uma pessoa se torna quando finalmente decide pensar por conta própria.

Lúcio observou-a.

— Então você quer que eu pense por conta própria?

— Quero que você sobreviva tempo suficiente para fazer isso.

Ele ficou em silêncio.

Vera voltou-se para ele.

— Seu irmão acredita que a AIR precisa desaparecer.

— E você acredita que ela precisa controlar tudo.

— Não.

A resposta veio firme.

— Eu acredito que alguém precisa impedir que o mundo volte a ser o que era.

Vera apontou para a cidade.

— Antes da AIR, as Nações tinham governos. Exércitos. Fronteiras. Recursos. E ainda assim não conseguiram impedir as guerras.

— Então você tomou o lugar delas.

— Alguém precisava tomar.

— E quem decidiu que esse alguém seria você?

Vera demorou alguns segundos.

— Ninguém.

Lúcio a encarou.

— Essa foi a primeira decisão que tomamos sozinhos.

A frase ficou suspensa no ar.

Lúcio pensou em Billy.

Talvez fosse isso que os separasse.

Billy queria devolver às pessoas o direito de decidir.

Vera acreditava que dar esse direito cedo demais poderia destruir tudo.

E ele estava no meio dos dois.

— E eu? — perguntou Lúcio.

Vera voltou a olhar para ele.

— Você é uma possibilidade.

— De quê?

Ela caminhou até a mesa e abriu uma pasta.

Dentro havia documentos antigos.

Muito mais antigos do que os outros.

Na primeira página havia apenas duas palavras:

PRIORIDADE ZERO.

Lúcio sentiu um frio percorrer o corpo.

— O que isso significa?

Vera colocou a mão sobre a pasta.

— Significa que você nunca foi apenas um Desperto.

Lúcio não respondeu.

— Seu nascimento foi registrado.

— Por quem?

— Pela AIR.

— A AIR nem existia quando eu nasci.

Vera sorriu.

— Exatamente.

Lúcio sentiu a respiração pesar.

— Então quem fez esse registro?

Vera não respondeu.

O silêncio foi interrompido pelo bracelete.

Uma mensagem apareceu.

CARLA: LÚCIO, NÃO CONFIE NELA.

Vera olhou para a tela.

Depois, para Lúcio.

— Ela está tentando protegê-lo.

— E você não?

— Eu estou tentando preparar você.

Lúcio fechou a pasta.

— Para quê?

Vera se aproximou.

— Para quando descobrir o que realmente aconteceu antes da guerra.

Lúcio sentiu a força ao redor dos objetos da sala responder à sua tensão.

Os papéis sobre a mesa começaram a se mover.

Vera não se afastou.

— Controle-se.

Ele respirou fundo.

Os papéis pararam.

Vera sorriu.

— Está vendo?

— O quê?

— Você ainda acha que seu poder é mover coisas.

Ela tocou na pasta.

— Não é.

Lúcio ficou imóvel.

— Então o que é?

Vera olhou diretamente para ele.

— Essa é a pergunta que seu irmão está tentando responder.

Um alarme começou a soar em algum lugar da Torre.

Vera não demonstrou preocupação.

Lúcio olhou para a porta.

— O que está acontecendo?

Ela apenas sorriu.

— Agora você vai descobrir.

As luzes se apagaram.

Por alguns segundos, a sala ficou completamente escura.

Então uma única tela se acendeu.

Nela apareceu uma imagem antiga.

Um registro de arquivo.

Uma data.

E, abaixo dela, um nome.

LÚCIO.

Ele se aproximou da tela.

O coração parou por um instante.

Porque aquela não era a data do seu nascimento.

Era uma data de anos antes.

E, abaixo do seu nome, havia uma segunda identificação:

PRIORIDADE ZERO: ATIVO.

Lúcio olhou para Vera.

Ela não sorria mais.

— Bem-vindo à verdadeira história — disse ela.

E, pela primeira vez, Lúcio percebeu que talvez sua história tivesse começado muito antes de ele nascer.

ALÉM DA TERRA DEVASTADA - REMAKE - CAP 9

 

Capítulo IX

Torre

As portas do elevador se fecharam atrás de Lúcio.

Ele permaneceu parado.

O corredor era silencioso demais.

Branco demais.

Não havia funcionários.

Não havia soldados.

Nenhuma câmera visível.

— Carla?

O bracelete não respondeu.

Lúcio caminhou.

Cada passo parecia mais alto do que deveria.

No fim do corredor havia uma porta de vidro.

Atrás dela, uma sala ampla.

E, no centro, uma mulher.

Vera.

Ela estava de costas, olhando pela janela.

Vestia branco.

Como sempre.

— Demorou.

Lúcio parou.

— Você sabia que eu viria.

Vera se virou.

Sorriu.

— Eu esperava que viesse.

Lúcio sentiu um arrepio.

— Por quê?

— Porque você sempre foi curioso.

— Não.

Ele deu um passo à frente.

— Porque você queria que eu viesse.

O sorriso dela diminuiu.

Não desapareceu.

Apenas mudou.

— Talvez.

Lúcio olhou para os lados.

— Onde estão os soldados?

— Que soldados?

— Os que estavam atrás de mim.

— Não há ninguém atrás de você.

Lúcio ficou em silêncio.

Então percebeu.

O corredor.

As portas.

O elevador.

Nenhum alarme.

Nenhum disparo.

Nada.

Ele havia atravessado toda aquela estrutura sem encontrar resistência.

— Você deixou.

Vera caminhou lentamente até ele.

— Você está aprendendo.

Lúcio sentiu a raiva crescer.

— Você mandou a FES atrás de mim?

— Algumas pessoas estavam procurando você.

— Isso não responde.

— Eu sei.

Ele apertou os punhos.

— Você sabia sobre os Despertos.

— Sim.

— Sabia sobre o Billy.

Vera não respondeu.

— Sabia sobre o Comando Rebelde.

Silêncio.

— E sabia que eu estava sendo perseguido.

Vera continuou olhando para ele.

— Você fez muitas perguntas desde que voltou do Norte.

— Porque ninguém me conta nada!

A voz de Lúcio ecoou pela sala.

Vera permaneceu calma.

— E agora você veio buscar respostas.

— Vim.

— Então entre.

Lúcio não se moveu.

— Por que eu?

Vera inclinou levemente a cabeça.

— Essa é uma pergunta melhor.

Ela caminhou até uma mesa.

Sobre ela havia uma série de documentos.

Fotografias.

Relatórios.

Gráficos.

Lúcio reconheceu imediatamente uma das imagens.

Era ele.

Ainda criança.

— O que é isso?

— Você.

— Eu sei que sou eu.

— Não. Você não sabe.

Vera tocou na fotografia.

— Sabe o que é curioso sobre você, Lúcio?

Ele não respondeu.

— Durante anos, acreditamos que os Despertos desenvolviam habilidades relativamente previsíveis. Algumas pessoas alteram temperatura. Outras possuem capacidades físicas incomuns. Algumas conseguem interferir na mente.

Ela olhou diretamente para ele.

— Mas você não se encaixa perfeitamente em nenhuma dessas categorias.

Lúcio sentiu o estômago apertar.

— Minha mãe disse que eu controlo movimento.

— Sua mãe percebeu apenas uma parte.

— Então me diga o resto.

Vera sorriu.

— É isso que estou tentando descobrir.

Lúcio deu um passo para trás.

— Eu não sou um experimento.

— Não.

Ela respondeu sem hesitar.

— Você é muito mais interessante do que isso.

A frase o incomodou.

— Então por que me tratou como um inimigo?

Vera ficou séria.

— Porque eu precisava saber até onde você iria.

— E mandar a FES atrás de mim fazia parte disso?

— Algumas vezes.

Lúcio sentiu a raiva aumentar.

Uma pequena mesa ao lado começou a vibrar.

Vera observou.

Não recuou.

— Controle-se.

Lúcio respirou fundo.

A mesa parou.

— Você sabia.

— Eu sabia que você tinha potencial.

— Desde quando?

Vera demorou alguns segundos.

— Desde antes de você saber que existia alguma coisa diferente em você.

Lúcio ficou imóvel.

— Como?

— Há informações que sua mãe nunca lhe contou.

Ele sentiu o coração acelerar.

— O que você sabe sobre minha mãe?

Vera não respondeu.

Em vez disso, aproximou-se da janela.

A cidade brilhava abaixo da Torre.

— Você acredita que a AIR é perfeita?

Lúcio franziu a testa.

— Não.

— Mas acredita que ela é necessária.

Ele pensou em tudo o que tinha visto.

As cidades reconstruídas.

Os hospitais.

Os centros de distribuição.

As pessoas vivendo graças à estrutura criada depois das guerras.

— Sim.

Vera assentiu.

— Eu também.

Lúcio esperava outra coisa.

Uma justificativa.

Uma ameaça.

Qualquer coisa.

Mas Vera apenas continuou:

— É por isso que você está aqui.

— Não entendi.

— Porque você ainda acredita que pode existir uma forma de salvar tudo isso sem destruir o que foi construído.

Lúcio encarou-a.

— E você acredita que não existe?

Vera sorriu.

— Eu acredito que já tentamos.

Ela voltou para a mesa.

— E quase perdemos tudo.

Lúcio olhou para os documentos.

Pela primeira vez, percebeu que talvez Vera não acreditasse estar destruindo o mundo.

Talvez acreditasse exatamente no contrário.

Talvez, para ela, controlar fosse a única maneira de impedir outro desastre.

— E o Billy?

O sorriso desapareceu.

— Seu irmão escolheu outro caminho.

— Ele é um terrorista?

Vera demorou a responder.

— Billy acredita que está libertando as pessoas.

— E está?

— Você vai descobrir.

Lúcio sentiu um peso no peito.

— Eu quero falar com ele.

Vera olhou para ele.

— Eu imaginei.

Nesse instante, o bracelete de Lúcio vibrou.

Uma mensagem apareceu:

CONEXÃO RESTABELECIDA.

A voz de Carla surgiu no dispositivo.

— Lúcio, saia daí.

Vera olhou para o bracelete.

— Carla.

Lúcio congelou.

— Você sabe quem ela é?

— Eu sei quem todos vocês são.

Vera aproximou-se.

— Mas você ainda não sabe quem é.

Lúcio sentiu a força ao redor de seu corpo mudar.

Não era como mover uma pedra.

Não era como empurrar uma parede.

Era como se alguma coisa estivesse tentando responder ao que ele sentia.

Vera percebeu.

E, pela primeira vez, seu olhar demonstrou algo diferente.

Não medo.

Interesse.

Genuíno interesse.

— É exatamente isso — murmurou.

Lúcio recuou.

— O quê?

Vera sorriu novamente.

— Seu poder.

As portas da sala se fecharam.

E Lúcio finalmente entendeu:

ele não havia invadido a Torre.

Vera havia deixado que ele chegasse até ela.

ALÉM DA TERRA DEVASTADA - REMAKE - CAP 8

 

Capítulo VIII

Infiltração

O antigo posto de saúde estava silencioso.

Do lado de fora, a cidade parecia normal.

Era justamente isso que preocupava Carla.

— Não podemos ficar aqui.

Julius fechou a cortina.

— E vamos para onde?

Carla não respondeu.

Sobre a mesa, o cubo de dados continuava projetando linhas de código.

— O rastreamento ainda está ativo — disse ela. — Só que agora ele está voltando para a AIR.

Lúcio olhou para o cubo.

— Então eles sabem onde estamos?

— Ainda não.

— E quando souberem?

Carla desligou a projeção.

— Teremos um problema.

Lúcio ficou alguns segundos em silêncio.

Depois falou:

— Eu vou até a Vera.

Carla levantou os olhos.

— O quê?

— Pela porta da frente.

— Você ficou maluco?

— Ela me conhece.

— Justamente por isso.

— Ela foi minha mentora. Foi ela quem me ensinou tudo o que eu sei sobre a AIR.

Carla balançou a cabeça.

— Lúcio, você acabou de descobrir que talvez ela esteja por trás de tudo isso.

— Talvez.

— E você ainda confia nela?

Lúcio demorou a responder.

— Eu não sei.

Ele olhou para as pastas vermelhas.

— Mas preciso descobrir.

Julius cruzou os braços.

— E você acha que ela vai simplesmente deixar você entrar?

— Não.

Lúcio encarou Carla.

— Acho que ela quer que eu vá.

Carla ficou em silêncio.


O plano era simples.

O que tornava tudo mais perigoso.

Julius cortou superficialmente o próprio braço com um bisturi.

— Isso vai funcionar?

Carla observou o ferimento.

— Se alguém perguntar, você se machucou durante o ataque.

— Ótimo.

— E tente parecer que está sentindo dor.

Julius fez uma expressão dramática.

— Assim?

— Menos.

Enquanto isso, Carla vestia roupas largas e escondia os cabelos.

Em poucos minutos, parecia uma senhora idosa.

Lúcio colocou um capuz.

— E eu?

Carla entregou a ele uma faixa escura.

— Você não fala.

— Por quê?

— Porque qualquer pessoa que reconhecer sua voz pode acabar com o plano.

Julius riu.

— Finalmente uma missão em que ficar calado vai ajudar.

Eles deixaram o posto de saúde.

Julius caminhava apoiado em Carla.

Lúcio vinha atrás.

Na entrada, dois funcionários da AIR se aproximaram.

— O que aconteceu?

Carla respondeu com voz trêmula:

— Meu filho se machucou durante o ataque.

O soldado olhou para Julius.

— Precisamos levá-lo para atendimento.

— Por favor.

O homem fez um sinal.

Os três entraram.


O centro de distribuição ficava abaixo da Torre.

Era enorme.

Centenas de pessoas circulavam entre corredores, elevadores e plataformas.

Caixas de medicamentos, alimentos e equipamentos passavam de um lado para outro.

Algumas delas flutuavam.

Lúcio observou.

Despertos trabalhavam ali.

Não como soldados.

Como trabalhadores.

Ele sentiu um desconforto estranho.

Durante anos, havia imaginado a AIR como algo distante.

Agora estava vendo como aquela estrutura funcionava por dentro.

Carla apontou discretamente para um corredor.

Lúcio se afastou.

Entrou em uma pequena sala de funcionários.

Havia uniformes pendurados.

Ele pegou um.

Vestiu a camisa.

Colocou o boné.

Depois encontrou um par de óculos escuros.

Quando saiu, parecia apenas mais um funcionário.

O elevador estava cheio.

Lúcio entrou.

Ninguém prestou atenção nele.

As portas se fecharam.

Ele respirou fundo.

O elevador começou a subir.


— Lúcio.

A voz de Carla surgiu no pequeno dispositivo preso ao ouvido.

Ele quase levou a mão ao aparelho.

— Não toque.

— Como você está falando comigo?

— Seu bracelete.

Lúcio olhou para o pulso.

Um pequeno dispositivo azul estava preso ali.

— Quando você colocou isso?

— Enquanto você dormia.

— Isso é tranquilizador.

— Ele permite comunicação, localização e acesso à rede interna.

Lúcio olhou para os corredores.

— Você consegue ver tudo?

— Não tudo.

Uma pausa.

— Mas estou entrando no sistema.

Naquele instante, uma série de portas se abriu ao longo do corredor.

Lúcio continuou andando.

— E minha mãe?

Carla demorou alguns segundos.

— Julius conseguiu chegar até ela.

Lúcio parou.

— Ela está bem?

— Está.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Ainda bem.

— Lúcio...

— O quê?

— Encontrei alguma coisa.

A voz dela mudou.

— O rastreamento que estava seguindo a gente voltou para o computador central.

— Onde?

— Perto do escritório da Vera.

Lúcio sentiu o coração acelerar.

— Então ela sabe.

— Provavelmente.

— E ainda assim estamos aqui.

— Eu sei.

Lúcio olhou para o final do corredor.

A Torre se erguia acima dele.

— Ela quer que eu chegue até ela.

Carla ficou em silêncio.

— É exatamente o que eu estava pensando.


As luzes do corredor piscaram.

Lúcio parou.

— Carla?

Nenhuma resposta.

— Carla?

O bracelete vibrou.

Uma mensagem apareceu:

ACESSO NEGADO.

Depois outra:

IDENTIFICAÇÃO INVÁLIDA.

Lúcio olhou ao redor.

As portas começaram a se fechar.

— Carla?

Finalmente, a voz dela voltou.

— Eles descobriram.

Lúcio correu.

Atrás dele, ouviram-se passos.

— Quanto tempo?

— Pouco.

— Para onde?

— Elevador da direita.

Lúcio entrou.

As portas começaram a fechar.

Um soldado apareceu no corredor.

Lúcio levantou a mão por instinto.

O homem parou.

Por uma fração de segundo, Lúcio sentiu o movimento do corpo dele.

Poderia empurrá-lo.

Mas não fez isso.

As portas se fecharam.

O elevador subiu.

— Você poderia ter derrubado aquele homem — disse Carla.

— Eu sei.

— Por que não fez?

Lúcio olhou para a própria mão.

— Porque estou começando a entender que não quero ser como eles.

Silêncio.

— Carla?

— Estou aqui.

— O que acontece agora?

Ela respirou fundo.

— Agora você vai até a Vera.

Lúcio fechou os olhos.

A última coisa que Carla disse antes de perder a comunicação foi:

— E, Lúcio...

— Sim?

— Não confie em ninguém.

As portas do elevador se abriram.

Do outro lado havia um corredor branco.

No fim dele, uma porta.

Lúcio caminhou lentamente.

Então ouviu uma voz.

— Lúcio?

Ele parou.

Conhecia aquela voz.

Era Vera.

E, naquele momento, percebeu que talvez tivesse cometido o maior erro de sua vida.

A porta começou a se abrir.

ALÉM DA TERRA DEVASTADA - REMAKE - CAP 7

 

Capítulo VII

Verdade

Lúcio abriu os olhos lentamente.

O teto era branco.

Por alguns segundos, não soube onde estava.

Tentou se levantar e sentiu uma dor forte na cabeça.

— Calma.

A voz vinha do outro lado da sala.

Lúcio virou o rosto.

Um homem estava sentado em uma cadeira, segurando uma pequena bolsa de primeiros socorros.

— Quem é você?

— Julius.

Lúcio tentou se lembrar.

Carla.

A janela.

Os arquivos.

Billy.

Depois, o estrondo.

— Onde está a Carla?

— Aqui.

Ela apareceu na porta.

Tinha o rosto sujo e os cabelos desarrumados.

— Você desmaiou.

Lúcio olhou para as próprias mãos.

— O que aconteceu?

Julius apontou para o teto.

— Você derrubou uma escada inteira.

Lúcio arregalou os olhos.

— Eu fiz isso?

— Fez.

Carla se aproximou.

— Você estava sangrando pelo nariz.

Lúcio passou a mão no rosto.

— E a FES?

— Perdemos eles.

— Por enquanto — respondeu Julius.

Lúcio ficou em silêncio.

Então olhou para Carla.

— Quero saber a verdade.

Ela sabia exatamente do que ele estava falando.

— Sobre o Billy?

Lúcio assentiu.

Carla caminhou até uma mesa.

Sobre ela estava o pequeno cubo de dados que havia levado consigo.

— Eu também quero.

Ela colocou o cubo sobre a mesa.

Uma pequena projeção apareceu no ar.

Linhas de código começaram a se mover.

— O sistema da AIR está tentando nos localizar.

— Como?

— Rastreamento interno. Mas estou tentando devolver o sinal para eles.

Julius riu.

— Você está fazendo o sistema de rastreamento rastrear a si mesmo?

— Exatamente.

— Isso é possível?

Carla olhou para ele.

— Agora é.

Lúcio quase sorriu.

Mas a fotografia de Billy ainda estava em sua cabeça.

— E os arquivos?

Carla ficou séria.

— Vamos descobrir.

Ela colocou as duas pastas vermelhas sobre a mesa.

Abriu a primeira.

Relatórios.

Datas.

Nomes de cidades.

Fotografias.

Ataques.

Mortes.

— Tudo isso foi atribuído ao Comando Rebelde — explicou Carla. — Mas os documentos não mostram apenas os ataques. Mostram também as decisões tomadas pela AIR antes e depois deles.

Lúcio passou os olhos pelas páginas.

— O que estamos procurando?

— O começo.

Carla abriu uma pasta menor.

O documento mais antigo tinha dez anos.

No topo havia uma identificação:

CONSELHO INTERNACIONAL DE RECONSTRUÇÃO.

— Antes da AIR ser o que é hoje — disse Carla — existiam apenas acordos temporários entre as Nações.

Lúcio leu algumas linhas.

— Eles queriam acabar com a AIR?

— Queriam acabar com a autoridade centralizada.

Ela projetou o documento na parede.

Dez representantes apareciam sentados ao redor de uma mesa.

— A proposta era criar uma força conjunta, controlada diretamente pelas Nações. A reconstrução continuaria, mas nenhuma autoridade teria poder absoluto sobre os territórios.

Lúcio sentiu um aperto no peito.

— E Vera recusou.

Carla assentiu.

— Ela dizia que era cedo demais.

O próximo documento apareceu.

Depois outro.

E outro.

Até que uma gravação foi aberta.

Uma mulher mais jovem apareceu.

Vera.

Ainda usava roupas brancas.

Ainda sorria.

Mas parecia diferente.

Mais jovem.

Mais insegura.

— A humanidade acabou de sair de uma guerra que quase destruiu tudo o que conhecíamos — dizia ela. — Não podemos simplesmente devolver o poder às mesmas estruturas que permitiram que isso acontecesse.

A gravação avançou.

— As Nações ainda não possuem condições de administrar seus próprios territórios. Não possuem recursos. Não possuem infraestrutura. E, principalmente, não possuem estabilidade.

Lúcio observava em silêncio.

Não parecia um discurso de uma vilã.

Parecia um discurso de alguém que realmente acreditava no que dizia.

— A AIR é a única barreira entre a reconstrução e um novo colapso.

A gravação terminou.

Julius cruzou os braços.

— Ela não estava completamente errada.

Lúcio olhou para ele.

— O quê?

— Olha o mundo lá fora.

Julius apontou para a janela.

— A maioria dessas cidades só existe porque alguém manteve comida, água e energia funcionando.

Carla permaneceu olhando para os arquivos.

— Mas isso não explica o resto.

Ela abriu outro documento.

— Depois dessa reunião, a situação mudou.

Havia registros de tropas da FES sendo deslocadas.

Centenas de soldados.

Despertos especializados.

Equipamentos militares.

— Vera começou a ameaçar as Nações — disse Carla.

— Ameaçar?

— Se tentassem retirar a AIR, perderiam apoio.

Lúcio continuou lendo.

Uma das primeiras cidades a se posicionar contra Vera era a Nação Oriental.

Depois, a Cidade da Água.

Carla abriu outro arquivo.

— Primeiro, Vera cortou os suprimentos da Nação Oriental.

Lúcio levantou os olhos.

— Ela fez isso?

— Durante semanas.

Outro documento.

— Depois, reduziu o fornecimento de alimentos para as regiões do deserto.

Outro.

— E quando as cidades começaram a ceder...

Carla abriu uma gravação.

Um homem aparecia diante do Conselho.

— Não temos escolha. Precisamos da AIR.

Lúcio ficou imóvel.

— Eles foram obrigados.

— Exatamente.

Carla avançou o vídeo.

Um dos representantes do Norte aparece.

— A AIR deve permanecer.

Lúcio reconheceu o símbolo.

— Norte.

— O líder do Norte apoiou Vera — disse Carla. — E convenceu outros representantes de que abandonar a AIR colocaria todos em risco.

— E conseguiu?

— Cinco Nações abandonaram a proposta.

Carla fechou o arquivo.

— Vera venceu.

Lúcio ficou olhando para a fotografia de Billy.

— E os ataques?

Carla hesitou.

— Foi aí que tudo começou a ficar pior.

Ela abriu outro documento.

Havia relatos de atentados contra instalações da AIR.

Explosões.

Sabotagens.

Mortes.

— Depois que o Conselho desistiu, surgiram os primeiros ataques atribuídos aos rebeldes.

— Atribuídos?

Carla apontou para uma observação no relatório.

— Não existe prova conclusiva de que o Comando Rebelde tenha realizado todos eles.

Lúcio respirou fundo.

— Então Vera inventou tudo?

— Não sabemos.

Julius se aproximou.

— Mas alguém estava atacando a AIR.

Carla assentiu.

— Sim.

Ela abriu o último arquivo daquela sequência.

Uma fotografia antiga apareceu.

Um homem muito mais jovem estava ao lado de Vera.

Lúcio reconheceu imediatamente.

Era o homem do Templo.

O mesmo que o havia interrogado.

— Ele.

Carla olhou para a fotografia.

— Você conhece?

— Foi ele que me sequestrou.

Julius ficou sério.

Carla continuou lendo.

— Seis anos atrás, ele foi descoberto como agente infiltrado dentro da estrutura da AIR.

Lúcio sentiu um arrepio.

— E depois?

— Fugiu da Fortaleza de Pedra.

Ela abriu outro documento.

— Foi quando o Comando Rebelde começou a crescer.

Lúcio olhou novamente para a fotografia de Billy.

— Então ele está trabalhando para o meu irmão?

Carla não respondeu imediatamente.

— Talvez.

— Ou Billy esteja trabalhando para ele.

Silêncio.

Lúcio sentou-se.

Durante anos, Billy havia sido a pessoa que ele mais admirava.

O irmão mais velho que sempre parecia saber quando alguma coisa estava errada.

O primeiro a questionar.

O primeiro a dizer que Lúcio não precisava agradar todo mundo.

Agora havia uma fotografia dele no arquivo de uma organização clandestina.

— Eu não acredito que ele seja um terrorista.

Carla sentou-se ao lado dele.

— Talvez ele também não se considere um.

Lúcio levantou os olhos.

— Então o que ele é?

Carla respirou fundo.

— Alguém que acredita que está fazendo a coisa certa.

Lúcio ficou em silêncio.

Talvez fosse justamente isso que mais o assustava.

Porque, pela primeira vez, percebeu que talvez ele e Billy estivessem fazendo a mesma coisa.

Tentando salvar o mundo.

Só que cada um havia escolhido um lado diferente.

E talvez nenhum dos dois soubesse mais quem estava certo.

ALÉM DA TERRA DEVASTADA - REMAKE - CAP 6

 

Capítulo VI

Comando Rebelde

Naquela noite, Lúcio não conseguiu dormir.

A pedra continuava em sua cabeça.

Não porque fosse difícil movê-la.

Mas porque, pela primeira vez, alguém havia lhe dito que ele não estava simplesmente movendo objetos.

Havia alguma coisa por trás daquilo.

Alguma coisa que ele ainda não entendia.

No dia seguinte, voltou à Academia.

Thales estava esperando por ele.

— Chegou atrasado.

Lúcio olhou para o relógio.

— Ainda faltam cinco minutos.

— Então você chegou cinco minutos antes de estar atrasado.

Lúcio respirou fundo.

— O senhor é sempre assim?

— Infelizmente.

Thales apontou para o campo.

— Vamos.

Durante horas, Lúcio repetiu os mesmos exercícios.

Primeiro, pedras.

Depois, pequenos blocos de metal.

Em seguida, objetos em movimento.

Foi aí que percebeu a diferença.

Era fácil fazer um objeto parado deslizar.

Muito mais difícil era alterar o movimento de alguma coisa que já estivesse se deslocando.

— Mais rápido — ordenou Thales.

Lúcio tentou.

O bloco passou por ele.

— De novo.

Tentou outra vez.

Errou.

— De novo.

Na quinta tentativa, conseguiu alterar a trajetória do bloco.

Ele desviou no ar e caiu no chão.

Lúcio sorriu.

Thales permaneceu sério.

— Está melhorando.

— Isso foi um elogio?

— Não se acostume.


Nos dias seguintes, Lúcio começou a entender melhor o próprio poder.

Ele não precisava tocar nos objetos.

Precisava perceber o movimento.

Podia empurrar.

Frear.

Desviar.

Alterar a direção.

Mas quanto maior o objeto, maior era o esforço.

Quanto mais rápido estivesse se movendo, mais difícil era interferir.

E, quando exagerava, seu corpo cobrava o preço.

Certa tarde, depois de tentar parar uma estrutura metálica, Lúcio caiu de joelhos.

Uma gota de sangue escorreu de seu nariz.

Thales se aproximou.

— Chega.

— Eu consigo.

— Eu disse chega.

Lúcio passou a mão no nariz.

— Só mais uma vez.

— Você quer aprender a controlar seu poder ou quer descobrir até onde consegue se destruir?

Lúcio ficou em silêncio.

Thales virou-se.

— Amanhã continuamos.

Pela primeira vez, Lúcio percebeu que o velho talvez não estivesse tentando humilhá-lo.

Estava tentando ensiná-lo.


Naquela noite, Lúcio decidiu contar tudo para Carla.

Não sabia exatamente o que esperava dela.

Talvez uma explicação.

Talvez apenas alguém em quem pudesse confiar.

Pegou o casaco e saiu.

A cidade estava silenciosa.

Quando chegou ao prédio onde Carla morava, não bateu à porta.

Subiu pela escada de emergência e foi até a janela do quarto.

Bateu três vezes.

Nada.

Bateu novamente.

A janela se abriu.

Carla apareceu, assustada.

— Lúcio?

— Preciso falar com você.

Ela abriu espaço.

— Entra.

Ele entrou.

Carla fechou a janela.

— O que aconteceu?

Lúcio ficou parado no meio do quarto.

— Eu descobri por que a FES estava atrás de mim.

Carla esperou.

— Eu sou um Desperto.

Ela não demonstrou surpresa.

— Eu imaginei.

Lúcio franziu a testa.

— Você imaginou?

— Depois do que aconteceu naquela noite? Sim.

— Minha mãe sabia.

— E você só descobriu agora?

— Basicamente.

Carla se sentou.

— E qual é o seu poder?

Lúcio olhou para as mãos.

— Eu consigo interferir no movimento das coisas.

— Como?

— Não sei explicar.

Ele contou sobre a Academia.

Sobre Thales.

Sobre os exercícios.

Sobre a pedra.

Sobre a estrutura metálica.

Carla ouviu tudo em silêncio.

Quando terminou, ela levantou-se.

— Então talvez seja por isso.

— Por isso o quê?

Ela caminhou até uma estante.

— Há algumas semanas comecei a receber documentos estranhos.

— Que documentos?

Carla retirou uma pasta.

— Documentos da AIR.

Lúcio se aproximou.

— E daí?

— Esses não deveriam ter chegado até mim.

Ela abriu a pasta.

As folhas estavam marcadas com uma faixa vermelha.

— O que significa isso?

— Não sei.

— Mas alguém sabia.

Carla retirou outra folha.

— Quando comecei a perguntar, meu coordenador mandou destruir tudo.

— Tudo?

— Tudo.

— Por quê?

— Ele disse que aqueles arquivos não deveriam existir.

Lúcio ficou olhando para os documentos.

— E você destruiu?

— Alguns.

Ela abriu uma gaveta.

— Outros eu escondi.

Retirou duas pastas vermelhas.

Havia um símbolo da AIR na capa.

Abaixo dele, uma inscrição:

PRIORIDADE ZERO.

Lúcio sentiu um arrepio.

— O que tem aí?

— Ainda não consegui descobrir tudo.

Ela abriu a primeira pasta.

Havia relatórios sobre ataques ocorridos em diferentes regiões.

— Esses ataques foram atribuídos a grupos rebeldes.

Lúcio olhou para ela.

— E não foram?

Carla abriu a segunda pasta.

— É isso que eu não sei.

Ela virou uma página.

No topo estava escrito:

COMANDO REBELDE.

Lúcio leu o nome novamente.

— Comando Rebelde...

Carla assentiu.

— E tem mais.

Ela virou outra página.

Lúcio parou.

Havia uma fotografia.

Um rosto conhecido.

Billy.

— Não.

Carla olhou para ele.

— Billy está no comando.

Lúcio sentiu o estômago apertar.

— Isso não faz sentido.

— Eu sei.

— Ele não faria isso.

— Talvez você não conheça seu irmão tão bem quanto pensa.

Lúcio levantou os olhos.

— Cuidado com o que está dizendo.

Antes que Carla respondesse, um estrondo sacudiu o prédio.

As janelas tremeram.

Os dois olharam para fora.

Luzes vermelhas surgiram nas ruas.

Carla empalideceu.

— Eles nos encontraram.

Outro estrondo.

Dessa vez, muito mais perto.

— Quem?

Ela fechou rapidamente as pastas.

— FES.

Passos ecoaram no corredor.

Lúcio olhou para a porta.

Carla pegou as duas pastas.

— Temos que sair.

— Para onde?

Ela abriu a janela.

— Agora, Lúcio.

Ele a seguiu.

Quando desceu pela escada de emergência, ouviu o primeiro disparo.

E, pela primeira vez, não teve certeza de quem estava tentando protegê-lo.

Ou quem estava tentando matá-lo.

ALÉM DA TERRA DEVASTADA - REMAKE - CAP 5

 

Capítulo V

Academia

Lúcio passou o caminho inteiro até sua casa tentando entender o que havia acontecido.

Era um Desperto.

A palavra parecia estranha quando pensava em si mesmo.

Durante anos, havia esperado por aquele momento. Imaginara que, quando finalmente acontecesse, sentiria alguma coisa diferente.

Orgulho.

Alívio.

Talvez até felicidade.

Mas não sentia nada disso.

Sentia medo.

Quando entrou em casa, encontrou a mãe na cozinha.

Ela estava preparando o jantar.

— Você chegou tarde.

Lúcio não respondeu.

Sua mãe olhou para ele.

— O que aconteceu?

— Nada.

Ela ficou alguns segundos observando seu rosto.

— Lúcio.

Ele respirou fundo.

— Eu encontrei o Billy.

A expressão dela mudou imediatamente.

— Você encontrou seu irmão?

— Encontrei.

Ela largou o que estava fazendo.

— Onde?

— No Norte.

Por alguns segundos, ela apenas sorriu.

Era a primeira vez em muito tempo que Lúcio via aquela expressão no rosto dela.

— Como ele está?

— Bem.

— Ele perguntou por mim?

— Perguntou.

Ela voltou a sorrir.

— Eu sabia que aquele menino ainda estava vivo.

Lúcio se sentou à mesa.

— Mãe...

Ela olhou para ele.

— O quê?

— Eu preciso te contar uma coisa.

Ela percebeu a hesitação.

— O que aconteceu?

Lúcio olhou para as próprias mãos.

— Alguma coisa aconteceu comigo.

O sorriso desapareceu do rosto dela.

— O quê?

— Eu acho que...

Ele parou.

Não sabia como dizer.

— Acho que eu sou um Desperto.

Sua mãe permaneceu imóvel.

Lúcio esperava surpresa.

Perguntas.

Talvez medo.

Mas ela apenas respirou fundo.

— Finalmente.

Ele levantou os olhos.

— Finalmente?

Ela se sentou diante dele.

— Eu estava esperando você perceber.

Lúcio franziu a testa.

— Você sabia?

— Desde que você nasceu.

— Como?

Ela hesitou.

— Eu sou uma Desperta.

Lúcio ficou em silêncio.

— Você?

Ela assentiu.

— Eu tenho uma habilidade ligada à mente. Consigo perceber pensamentos e emoções de outras pessoas.

Lúcio tentou processar aquilo.

— Então você sabia que eu era um Desperto?

— Sabia.

— Como?

— Quando você nasceu, eu senti.

— Sentiu o quê?

— Você.

Ela sorriu de leve.

— Era diferente.

Lúcio não sabia o que responder.

— Por que nunca me contou?

— Porque não sabia quando aconteceria.

— E se nunca acontecesse?

— Eu continuaria sendo sua mãe.

A resposta o atingiu de uma maneira que ele não esperava.

— Mas você sempre me pressionou.

Ela baixou os olhos.

— Eu sei.

— Por quê?

— Porque eu tinha medo.

— De quê?

— De que você nunca descobrisse quem era.

Lúcio ficou em silêncio.

Ela continuou:

— Na minha família, os Despertos costumavam manifestar seus poderes ainda jovens. Meu irmão Blásio controlava o fogo. Eu manifestei meu poder aos dezesseis anos.

— E como aconteceu?

Ela sorriu.

— Eu estava na cozinha.

Lúcio quase riu.

— Claro.

— Uma tigela caiu da mesa. Eu tentei segurá-la.

Ela apontou para o armário.

— A tigela parou no ar.

— Você a moveu?

— Sem tocar.

— E depois?

— Depois as lâmpadas da casa explodiram.

Lúcio olhou para ela.

— Então é por isso que você não ficou surpresa quando eu falei das lâmpadas.

— Exatamente.

Ele abaixou os olhos.

— Eu também fiz uma coisa no Templo.

Sua mãe ficou séria.

— O quê?

Lúcio hesitou.

Não contou sobre o sequestro.

Não contou sobre o homem.

Não contou sobre a seringa.

Mas contou sobre a força.

— Eu consegui mover uma mesa.

— Como?

— Não sei.

— Você tocou nela?

— Não.

Ela ficou pensativa.

— E depois?

— O homem foi lançado contra a parede.

Sua mãe levantou-se.

— Você precisa aprender a controlar isso.

— Eu sei.

— Não. Você ainda não sabe.

Ela caminhou até uma gaveta e retirou um pequeno cartão.

Entregou a ele.

— Amanhã você vai conhecer alguém.

Lúcio olhou para o cartão.

Havia um endereço.

E uma palavra.

Academia.


A Academia ficava em uma das regiões mais antigas da Cidade de Vidro.

O prédio era enorme.

Diferente das torres espelhadas do centro, sua estrutura era predominantemente cinza e azul. Havia poucas janelas e nenhuma identificação além de um símbolo metálico na entrada.

Lúcio parou diante da porta.

— Tem certeza disso?

A mãe assentiu.

— Tenho.

— E você conhece alguém lá?

— Conheço.

A porta se abriu.

Um homem apareceu.

Era baixo, magro e usava óculos.

— Você deve ser o Lúcio.

— Sou.

O homem sorriu.

— Alfredo.

Eles apertaram as mãos.

Alfredo olhou para a mãe de Lúcio.

— Faz tempo.

— Muito.

— Você nunca mais apareceu.

— Eu tive motivos.

Alfredo voltou a olhar para Lúcio.

— Ele sabe?

— Sabe o suficiente.

Lúcio não gostou daquela resposta.

Alfredo percebeu.

— Não se preocupe. Você vai entender tudo.

Entraram.

O interior da Academia era muito maior do que parecia do lado de fora.

Havia salas de treinamento, laboratórios, áreas médicas e enormes espaços vazios cercados por paredes reforçadas.

Pessoas treinavam em diferentes pontos do prédio.

Algumas movimentavam objetos.

Outras produziam pequenas ondas de energia.

Um rapaz fazia a água de um tanque subir e descer lentamente.

Uma garota permanecia sentada diante de uma parede, de olhos fechados, enquanto um instrutor fazia perguntas.

— Todos aqui são Despertos? — perguntou Lúcio.

— Sim.

— E o que eles aprendem?

Alfredo continuou andando.

— Controle.

— Só isso?

— Controle é quase tudo.

Ele apontou para uma das salas.

— Alguns precisam aprender a controlar emoções. Outros, força física. Outros, percepção. Existem habilidades muito diferentes.

— E eu?

Alfredo olhou para ele.

— Ainda não sabemos.

Lúcio parou.

— Minha mãe disse que eu movi uma mesa.

— Então já sabemos alguma coisa.

— O quê?

Alfredo sorriu.

— Que você consegue mover uma mesa.

Lúcio suspirou.

— Muito útil.

— Você vai descobrir.

Uma voz surgiu atrás deles.

— Se continuar conversando, nunca vai descobrir.

Lúcio se virou.

Um homem velho vinha caminhando pelo corredor.

Era grande.

Muito grande.

Tinha uma barriga enorme, cabelos brancos ralos e uma expressão permanentemente irritada.

Vestia uma camisa simples e calças largas.

Parou diante de Lúcio.

— Você é filho da Helena?

— Sou.

O homem o examinou por alguns segundos.

— Parece com ela.

Lúcio ficou surpreso.

— Você conheceu minha mãe?

— Infelizmente.

O homem fez uma pausa.

— Ela me devia dinheiro.

Lúcio não conseguiu evitar uma risada.

O homem não riu.

— Venha.

— Para onde?

— Treinar.

Ele começou a andar.

Lúcio olhou para Alfredo.

— Ele é sempre assim?

— Sim.

— Ótimo.

O homem parou no fim do corredor.

— Eu ouvi isso.

Lúcio engoliu seco.

— Desculpa.

— Não peça desculpas. Aprenda.


O campo de treinamento ficava em uma área aberta.

O sol estava forte.

No centro havia um círculo desenhado no chão.

Dentro dele, uma pedra.

O homem apontou para ela.

— Tire a pedra do círculo.

Lúcio olhou para a pedra.

— Só isso?

— Só.

— E como eu faço?

— Você é o Desperto. Descubra.

Lúcio respirou fundo.

Concentrou-se.

Nada aconteceu.

Tentou novamente.

Nada.

— Não está funcionando.

— Então tente melhor.

Lúcio cerrou os dentes.

— Eu estou tentando.

— Não está.

— Como você sabe?

— Porque a pedra continua no lugar.

Lúcio sentiu a irritação crescer.

Tentou novamente.

Nada.

O homem cruzou os braços.

— Você quer mesmo aprender?

— Quero.

— Então pare de tentar fazer a pedra se mover.

Lúcio franziu a testa.

— Como assim?

— Você não sabe o que está fazendo.

— É por isso que estou aqui.

— Então descubra primeiro o que consegue fazer.

Lúcio olhou para a pedra.

Respirou.

Tentou perceber alguma coisa.

Não a pedra.

O movimento.

A força.

A pressão.

Por alguns segundos, não aconteceu nada.

Então a pedra se moveu.

Poucos centímetros.

Lúcio arregalou os olhos.

— Eu consegui.

— Continue.

Ele tentou novamente.

A pedra deslizou mais alguns centímetros.

Lúcio começou a sorrir.

Até perceber que o homem não parecia impressionado.

— De novo.

Lúcio respirou fundo.

Concentrou-se.

A pedra começou a tremer.

Depois deslizou rapidamente.

Saiu do círculo.

— Pronto.

O homem se aproximou.

— Não.

Lúcio franziu a testa.

— Não?

— Você apenas conseguiu mover uma pedra.

— Mas era isso que você pediu.

— Eu pedi para controlar.

Lúcio ficou em silêncio.

O homem apontou para a pedra.

— Você não controla a pedra.

Apontou para o chão.

— Você interfere naquilo que faz a pedra se mover.

Lúcio olhou para ele.

— Então o que eu faço?

— Descubra.

O homem virou-se.

— Amanhã, novamente.

Lúcio permaneceu parado no campo.

Olhou para a pedra.

Pela primeira vez, percebeu que talvez seu poder não fosse simplesmente mover coisas.

Era alguma coisa diferente.

Alguma coisa que ainda não sabia nomear.

E, naquele momento, Lúcio entendeu que descobrir que era um Desperto tinha sido apenas o começo.

ALÉM DA TERRA DEVASTADA - REMAKE - CAP 4

 

Capítulo IV

Templo

Lúcio abriu os olhos.

A primeira coisa que sentiu foi o frio.

Estava deitado sobre uma superfície dura, com os braços ao lado do corpo. Tentou se mexer, mas uma dor atravessou sua cabeça.

Levou a mão à testa.

Não havia sangue.

Olhou ao redor.

A sala era pequena e completamente branca.

Não havia janelas.

Nenhum relógio.

Nenhum objeto além de uma cadeira posicionada alguns metros à sua frente.

Lúcio tentou se levantar.

Conseguiu sentar.

A porta se abriu.

Um homem entrou.

Era alto, forte e tinha a barba por fazer. Vestia roupas simples e caminhava com tranquilidade, como se aquele lugar lhe pertencesse.

Ele fechou a porta.

Lúcio o encarou.

— Onde estou?

O homem puxou a cadeira e sentou-se.

— No Templo.

— Que lugar é esse?

— Um lugar para pessoas que ainda acreditam que o mundo pode ser salvo.

Lúcio franziu a testa.

— Eu quero ir embora.

— Imagino.

O homem apoiou os braços sobre os joelhos.

— Mas antes precisamos conversar.

— Sobre o quê?

— Sobre a verdade.

Lúcio permaneceu em silêncio.

— Você trabalha para a AIR.

— Trabalho.

— Há quanto tempo?

— Quase um ano.

— E gosta?

Lúcio não respondeu imediatamente.

— Gosto.

O homem observou seu rosto.

— Você acredita na AIR?

— Sim.

— Acredita em Vera?

Lúcio levantou os olhos.

— Sim.

O homem sorriu.

— Interessante.

Ele retirou uma pequena seringa do bolso.

Lúcio recuou.

— O que é isso?

— Uma maneira de facilitar nossa conversa.

— Não.

O homem levantou-se.

— Você não precisa ter medo.

— Eu não quero isso.

— Não é uma questão de querer.

Lúcio tentou se afastar, mas o homem segurou seu braço.

A agulha entrou.

Poucos segundos depois, o homem voltou a sentar.

— Agora vamos tentar novamente.

Lúcio respirava com dificuldade.

— O que aconteceu no Norte?

— Nada.

— Você encontrou Billy?

Lúcio ficou imóvel.

— Sim.

— O que ele disse?

— Nada importante.

— E a menina?

— Raylla.

O homem sorriu.

— Então você lembra.

Lúcio percebeu o erro.

— Ela está na AIR.

— Está?

— Sim.

— Por quê?

— Porque é uma criança.

— Isso não responde.

Lúcio fechou os olhos.

As lembranças começaram a surgir.

A Praça das Nações.

Os obeliscos.

A palavra Brasil.

Billy.

As perguntas.

Vera esperando no Vortex.

Os soldados.

Carla.

O corredor.

“O garoto?”

“Ainda não.”

Lúcio abriu os olhos.

— Eu não sei.

O homem aproximou-se.

— O que Vera queria?

— Eu não sei.

— O que existe nos arquivos da AIR?

— Eu não sei.

— O que Billy descobriu?

— Eu não sei!

A dor aumentou.

Lúcio levou as mãos à cabeça.

— Pare.

O homem permaneceu diante dele.

— Você sabe mais do que imagina.

As luzes começaram a piscar.

Lúcio respirou fundo.

Uma.

Duas vezes.

A mesa tremeu.

O homem olhou para ela.

— O que está acontecendo?

Lúcio também não sabia.

A mesa se moveu alguns centímetros.

Depois parou.

— Eu não estou fazendo isso.

O homem deu um passo para trás.

A lâmpada no teto explodiu.

Lúcio gritou.

Outra lâmpada estourou.

Depois outra.

O homem tentou alcançar a porta.

A cadeira foi arrastada violentamente pelo chão e atingiu suas pernas.

Ele caiu.

Lúcio levantou-se.

Não sabia como.

Não sabia por quê.

A mesa começou a deslizar em sua direção.

Ele estendeu as mãos.

— Para!

Tudo parou.

Por um instante, houve silêncio.

Então o homem se levantou.

— Você é um Desperto.

Lúcio olhou para ele.

— Não.

— É.

— Eu não sou.

— Você acabou de provar.

O homem avançou.

Lúcio recuou.

— Fique longe de mim.

O homem estendeu a mão.

— Controle isso.

— Eu não sei como!

Uma força invisível atravessou a sala.

O homem foi lançado contra a parede.

O impacto fez a estrutura tremer.

Lúcio ficou parado.

As mãos tremiam.

Ele olhou para o homem caído.

Depois para as próprias mãos.

— Meu Deus...

Sua visão começou a escurecer.

A última coisa que ouviu antes de perder os sentidos foi:

— Eles não podem descobrir o que você é.


Quando voltou a abrir os olhos, estava em outro lugar.

Uma rua vazia.

Lúcio estava deitado sobre o asfalto.

Tentou se levantar.

A cabeça doía.

O corpo inteiro parecia pesado.

Olhou para os prédios ao redor.

Cidade de Vidro.

Ele estava de volta.

Não sabia como.

Não sabia quem o havia levado.

E, principalmente, não sabia por que aquele homem tinha medo de que a AIR descobrisse o que ele era.

Lúcio caminhou sem direção.

A cada passo, tentava organizar as lembranças.

O Norte.

Billy.

Raylla.

Vera.

O Templo.

Aquele homem.

E aquilo que havia acontecido naquela sala.

Uma força que ele não conseguira controlar.

Quando chegou à estação, entrou no primeiro trem que apareceu.

Sentou-se sozinho.

As portas se fecharam.

O trem começou a andar.

Lúcio apoiou a cabeça no vidro.

Por alguns segundos, tudo permaneceu em silêncio.

Então a lâmpada acima dele piscou.

Lúcio levantou os olhos.

A luz piscou novamente.

E apagou.

Ele ficou olhando para ela.

— Não...

Outra lâmpada começou a piscar no vagão.

Lúcio fechou os olhos.

Não queria pensar naquilo.

Não queria entender.

Mas, pela primeira vez em toda a sua vida, a pergunta que tanto esperara responder havia finalmente encontrado uma resposta.

Ele era um Desperto.

ALÉM DA TERRA DEVASTADA - REMAKE - CAP 3

 

Capítulo III

Prioridade Zero

Lúcio permaneceu imóvel diante do Vortex.

Os soldados da FES continuavam espalhados pela plataforma, mantendo distância entre si. Eram muitos para uma simples recepção.

Quinze, talvez mais.

Raylla apertou sua mão.

— Quem são eles?

Lúcio não respondeu.

Seus olhos estavam fixos em Vera.

Ela continuava tranquila.

— Bem-vindos — disse.

A voz era suave.

Quase cordial.

Lúcio olhou para os soldados.

— O que está acontecendo?

— Nada que precise preocupar você.

— Então por que tem uma unidade inteira da FES aqui?

Vera sorriu.

— Tivemos um pequeno problema.

Lúcio não acreditou.

Ela nunca usava aquela expressão quando realmente queria dizer que alguma coisa estava bem.

— Onde está a Alana?

Vera desviou os olhos por um instante.

— Trabalhando.

— Ela sabia que eu estava voltando?

— Sabia.

Lúcio olhou novamente para os soldados.

Alguns estavam armados com rifles.

Aquilo não fazia sentido.

Aquela não era uma operação de rotina.

— E a menina?

Vera finalmente olhou para Raylla.

Seu sorriso desapareceu por um instante.

Depois voltou.

— Ela será encaminhada para o setor médico.

— Eu posso acompanhá-la.

— Não.

A resposta veio rápida demais.

Lúcio franziu a testa.

— Por quê?

— Porque você precisa entregar o relatório da missão.

— Eu posso fazer isso depois.

Vera aproximou-se.

— Lúcio.

Ele ficou em silêncio.

— Faça o que estou pedindo.

Aquele tom era diferente.

Não era uma ordem.

Era pior.

Era uma expectativa.

Lúcio soltou a mão de Raylla.

— Eu volto para buscar você.

A menina assentiu.

Dois soldados se aproximaram dela.

Lúcio deu um passo à frente.

— Cuidado com ela.

Vera colocou a mão em seu ombro.

— Confie em mim.

Ele olhou para ela.

Durante alguns segundos, pensou em tudo o que Vera havia feito por ele.

Ela o ajudara quando ninguém mais parecia saber o que fazer.

Fora uma das primeiras pessoas a acreditar que ele poderia ser útil.

Talvez estivesse exagerando.

Talvez realmente houvesse uma explicação.

Lúcio assentiu.

— Tudo bem.


O caminho até o prédio da AIR foi silencioso.

Vera caminhava ao lado dele.

Os soldados vinham atrás.

— Você parece preocupado — ela disse.

— Estou.

— Por quê?

Lúcio pensou antes de responder.

— Não sei.

Vera sorriu.

— Você sempre foi muito observador.

— Talvez.

— E desconfiado.

Lúcio olhou para ela.

— Isso é ruim?

— Não.

Ela continuou caminhando.

— Só pode ser inconveniente.

Ele não respondeu.

Ao chegarem ao edifício principal, Vera parou.

— Vá para o seu setor. Entregue o relatório.

— E depois?

— Depois conversamos.

Lúcio entrou.

Por alguns minutos, tentou se concentrar no trabalho.

Abriu os registros da missão.

Preencheu os dados sobre o deslocamento.

Localização.

Condições médicas.

Tempo de permanência.

Mas alguma coisa não estava certa.

Ele não conseguia parar de pensar na quantidade de soldados.

Na maneira como Vera reagira quando ele mencionara Raylla.

E principalmente em uma coisa.

Ela já estava esperando por eles.


Mais tarde, Lúcio saiu do setor administrativo.

O corredor estava vazio.

Ele decidiu procurar Vera.

Precisava perguntar o que estava acontecendo.

Quando chegou próximo ao escritório dela, ouviu vozes.

Parou.

A porta estava entreaberta.

— ...não podemos manter isso por muito tempo.

Era a voz de Vera.

Lúcio aproximou-se alguns centímetros.

Outra voz respondeu:

— Então precisamos agir antes.

Ele não reconheceu.

— E o garoto?

Silêncio.

Lúcio sentiu o coração acelerar.

Vera respondeu:

— Ainda não.

Ele recuou.

Uma porta se abriu no final do corredor.

Lúcio virou-se e caminhou rapidamente na direção contrária.

Não queria ser visto.

Voltou para o setor administrativo.

Poucos minutos depois, encontrou Carla.

Ela trabalhava em uma das áreas próximas ao arquivo central.

— Você voltou cedo — disse ela.

— A missão foi rápida.

Carla observou seu rosto.

— O que aconteceu?

— Nada.

— Você está mentindo.

Lúcio tentou sorrir.

— Estou cansado.

Carla não pareceu convencida.

— Você trouxe a menina?

Lúcio hesitou.

— Trouxe.

— E?

— Ficou sob responsabilidade da AIR.

Carla ficou séria.

— Então você não trouxe ela para casa?

— Não.

— Estranho.

— Por quê?

— Porque normalmente crianças resgatadas passam primeiro pelo setor médico e depois são encaminhadas para reassentamento.

— Foi isso que aconteceu.

— Não necessariamente.

Lúcio franziu a testa.

— O que você quer dizer?

Carla olhou para os dois lados do corredor antes de responder.

— Vera não costuma mandar uma unidade inteira da FES para receber uma criança.

Lúcio ficou calado.

— Eu sabia que você tinha percebido — ela continuou.

— Percebido o quê?

Carla não respondeu.

Apenas olhou para ele.

— Tome cuidado.


Naquela noite, Lúcio voltou para casa.

Tentou dormir.

Não conseguiu.

A conversa no corredor continuava em sua cabeça.

“O garoto?”

“Ainda não.”

Ele levantou.

Foi até a cozinha.

Bebeu água.

A casa estava silenciosa.

Então ouviu um ruído atrás de si.

Lúcio se virou.

Nada.

Esperou.

Outro ruído.

Dessa vez, vindo da janela.

Ele se aproximou.

Abriu a cortina.

A rua estava vazia.

— Tem alguém aí?

Nenhuma resposta.

Lúcio fechou a janela.

Quando se virou, sentiu uma picada no braço.

Olhou para baixo.

Uma agulha estava presa em sua pele.

Ele tentou puxá-la.

Tarde demais.

Sua visão começou a ficar turva.

A cozinha pareceu se afastar.

As pernas perderam a força.

Lúcio caiu de joelhos.

Uma sombra surgiu atrás dele.

— Não...

Foi a última palavra que conseguiu dizer.


Quando abriu os olhos novamente, não sabia quanto tempo havia passado.

Estava deitado sobre uma superfície fria.

Tentou se mexer.

As mãos estavam livres.

Os pés também.

Mas o corpo parecia pesado.

Lúcio ergueu a cabeça.

O ambiente era completamente branco.

Não havia janelas.

Apenas uma porta.

Então ela se abriu.

Um homem entrou.

Era alto, forte e tinha a barba por fazer.

Seu olhar era duro.

Ele fechou a porta atrás de si e permaneceu alguns segundos observando Lúcio.

— Finalmente.

Lúcio tentou se levantar.

— Onde eu estou?

O homem não respondeu.

Aproximou-se e colocou uma cadeira diante dele.

Sentou.

— Vamos começar pelo básico.

Lúcio o encarou.

— Quem é você?

O homem sorriu.

— Isso não é importante.

Ele colocou uma pequena seringa sobre a mesa.

— O que importa é saber quem você é.

Lúcio sentiu um arrepio.

— Meu nome é Lúcio.

— Eu sei.

O homem inclinou-se para frente.

— Quero saber o que aconteceu no Norte.

Lúcio ficou em silêncio.

— Quem estava lá?

Ele não respondeu.

— O que a AIR está fazendo?

Lúcio continuou calado.

O homem observou seu rosto.

— Você sabe quando alguém está mentindo?

Lúcio não respondeu.

— Eu sei.

Ele pegou a seringa.

— E você vai me contar a verdade.

A agulha aproximou-se de seu braço.

Lúcio tentou recuar.

— Não.

O homem segurou seu braço.

— Vai ser mais fácil assim.

A seringa entrou.

O líquido desapareceu lentamente sob sua pele.

Poucos segundos depois, o ambiente começou a girar.

As lembranças vieram de uma vez.

O Norte.

A Praça das Nações.

Billy.

Raylla.

O Vortex.

Alana.

Os soldados.

Vera.

As perguntas.

A voz no corredor.

“O garoto?”

“Ainda não.”

Lúcio fechou os olhos.

Sentiu o coração disparar.

— O que a AIR está fazendo? — perguntou o homem.

— Eu...

A cabeça de Lúcio começou a doer.

— Quem é Billy?

— Meu irmão.

— O que ele sabe?

— Eu não sei.

— Quem é Raylla?

— Uma criança.

— Por que Vera estava esperando por vocês?

Lúcio apertou os olhos.

— Eu não sei.

O homem ficou irritado.

— Você está mentindo.

A dor aumentou.

Lúcio levou as mãos à cabeça.

As luzes começaram a piscar.

— Eu não sei!

Uma lâmpada explodiu.

O homem levantou-se.

— O que foi isso?

Lúcio abriu os olhos.

Outra lâmpada explodiu.

Depois outra.

O ar pareceu vibrar.

A mesa diante dele começou a se mover.

Devagar.

Primeiro alguns centímetros.

Depois cada vez mais rápido.

Lúcio olhou para o homem.

Ele também parecia assustado.

— Pare!

Lúcio tentou controlar a respiração.

Não conseguiu.

A mesa foi arremessada contra a parede.

O homem foi atingido e lançado para trás.

Lúcio permaneceu imóvel.

O silêncio tomou conta da sala.

Ele olhou para as próprias mãos.

Não entendia o que havia feito.

Então tudo ficou escuro.

ALÉM DA TERRA DEVASTADA - REMAKE - CAP 2

 

Capítulo II

Norte

O Vortex desapareceu atrás deles assim que Lúcio e Raylla deixaram a plataforma.

O homem que os recebera já havia seguido por uma das ruas laterais, deixando-os sozinhos.

Lúcio olhou ao redor.

Ainda era estranho.

Na Cidade de Vidro, tudo parecia ter sido planejado antes mesmo de ser construído. As ruas eram largas, os prédios altos e os caminhos perfeitamente organizados. No Norte, nada parecia obedecer à mesma lógica.

Havia casas pequenas construídas próximas umas das outras, ruas de terra, barracas improvisadas e pessoas circulando sem pressa. Crianças corriam entre os adultos, algumas brincando com pequenos objetos que flutuavam no ar ou se moviam sozinhos.

Lúcio tentou não encarar.

— Eles são Despertos? — perguntou.

Raylla deu de ombros.

— Alguns.

— E os outros?

— Alguns não são.

Ela continuou andando.

— Como você sabe?

— Porque eu moro aqui.

Lúcio sorriu.

— Justo.

Depois de alguns minutos, chegaram a uma pequena praça.

Havia um homem sentado sob a sombra de uma árvore.

Ele era alto, negro e tinha os cabelos raspados. Vestia uma camisa azul escura e segurava um mapa dobrado sobre os joelhos.

Quando viu Raylla, levantou-se.

— Você demorou.

— Eu estava esperando ele.

O homem olhou para Lúcio.

— Você é o garoto da AIR?

— Sou.

— Lúcio?

Ele assentiu.

— Cássio.

O homem estendeu a mão.

— Meu irmão falou de você.

Lúcio apertou sua mão.

— Seu irmão?

Cássio sorriu.

— Billy.

Lúcio imediatamente ficou mais atento.

— Você conhece o Billy?

— Conheço.

Cássio apontou para uma das ruas.

— Estamos indo para a Praça das Nações. Ele está nos esperando lá.

— Praça das Nações?

— Você vai entender.


A praça ficava no centro do Norte.

Era circular e muito maior do que Lúcio imaginava.

No centro havia uma estrutura de pedra cercada por dez enormes obeliscos. Cada um trazia símbolos e inscrições diferentes. Entre eles, uma chama ardia continuamente.

Lúcio caminhou devagar.

— O que é isso?

Cássio respondeu:

— A história.

Lúcio observou os obeliscos.

Cada um representava uma das dez Nações que haviam sobrevivido às guerras.

Durante séculos, guerras, disputas territoriais e conflitos religiosos haviam destruído países inteiros. Depois da devastação, as populações que restaram foram reorganizadas em grandes territórios.

As dez Nações eram o resultado daquele processo.

Não eram exatamente os países antigos.

Eram o que havia restado deles.

Lúcio passou os olhos pelas inscrições.

Havia nomes de cidades.

Regiões.

Povos.

Alguns ele conhecia apenas dos livros.

Então parou.

Brasil.

Ficou alguns segundos olhando para aquela palavra.

— Você conhece? — perguntou Raylla.

— Conheço.

— O que era?

Lúcio hesitou.

— Um país.

Raylla franziu a testa.

— Ainda existe?

Ele olhou novamente para a inscrição.

— Não.

Ela pareceu aceitar a resposta com facilidade.

Lúcio, porém, não conseguiu deixar de pensar naquilo.

Toda a sua vida havia aprendido que o mundo anterior às guerras era uma coisa distante, quase impossível de compreender.

Mas ali estavam os nomes.

Gravados em pedra.

Como se alguém tivesse decidido que eles não deveriam ser esquecidos.


— Lúcio!

A voz veio atrás dele.

Ele se virou.

Billy estava parado a poucos metros.

Por um instante, Lúcio não soube o que dizer.

Havia quase dois anos que não via o irmão.

Billy parecia diferente.

Mais velho. Mais magro. Mais sério.

Mas ainda era Billy.

— Você cresceu — disse ele.

Lúcio riu.

— Você também.

Billy abraçou o irmão.

Foi um abraço rápido, mas sincero.

Quando se afastaram, Billy olhou para Raylla.

— Você trouxe a menina?

— Trouxe.

— Então está tudo certo.

Lúcio observou os dois.

— Ela vai voltar comigo.

Billy ficou em silêncio.

— Não.

Lúcio franziu a testa.

— Não?

— Ela não quer voltar.

Raylla cruzou os braços.

— Eu já disse.

— Raylla precisa ir para a Cidade de Vidro — respondeu Lúcio. — Lá ela vai ter atendimento médico, alimentação, escola...

— Eu tenho tudo isso aqui.

Lúcio olhou para Billy.

— Você sabe que ela não pode ficar.

Billy sustentou o olhar do irmão.

— Por quê?

Lúcio abriu a boca, mas não respondeu.

Era uma pergunta simples.

E, de repente, ele percebeu que não tinha uma resposta própria.

Apenas aquilo que ouvira tantas vezes.

— Porque é o procedimento da AIR.

Billy soltou uma pequena risada.

— Claro.

Lúcio ficou incomodado.

— Qual é o problema?

— Nenhum.

Billy colocou a mão no ombro de Raylla.

— Ela fica.

— Billy...

— Lúcio, você veio buscar uma criança porque alguém mandou. Eu entendo.

Ele apontou para a praça.

— Mas talvez esteja na hora de começar a perguntar por que algumas pessoas precisam ser levadas de um lugar para outro só porque uma autoridade decidiu que é melhor para elas.

Lúcio ficou calado.

Não gostava daquele tipo de conversa.

Principalmente porque Billy sabia exatamente onde tocar.

— Você ainda trabalha para a AIR? — perguntou Billy.

— Trabalho.

— Gosta?

Lúcio pensou.

— Gosto.

Billy assentiu.

— Então continue gostando.

Ele sorriu.

— Só não deixe que gostar deles impeça você de pensar.


Lúcio passou o restante da tarde no Norte.

Raylla mostrou-lhe algumas das casas próximas à praça. Cássio explicou como funcionavam as relações entre as Nações e contou que Billy atuava como uma espécie de representante entre o Norte e a AIR.

Lúcio achou estranho.

— Então você trabalha para eles?

Billy respondeu:

— Não.

— Mas você é o representante.

— Represento o Norte. Não a AIR.

A resposta ficou na cabeça de Lúcio.

No fim da tarde, chegou o momento de partir.

Raylla se aproximou dele.

— Você vai voltar?

Lúcio olhou para ela.

— Vou.

— Promete?

— Prometo.

Ela sorriu.

Billy acompanhou os dois até o Vortex.

Antes que Lúcio entrasse, o irmão segurou seu braço.

— Cuida dela.

— Vou cuidar.

— Não estou falando da viagem.

Lúcio ficou em silêncio.

Billy soltou seu braço.

— Boa viagem.

Lúcio entrou no Vortex.

Raylla veio logo atrás.

As luzes começaram a acender.

O ruído grave tomou conta da plataforma.

Lúcio respirou fundo.

Pensou na praça.

Nos obeliscos.

Na palavra Brasil.

Nas perguntas de Billy.

E, pela primeira vez, percebeu que talvez não conhecesse a história do mundo tanto quanto imaginava.

O Vortex foi ativado.


Quando chegaram à Cidade de Vidro, alguma coisa estava errada.

Lúcio percebeu antes mesmo de sair da plataforma.

Havia pessoas demais.

Homens armados.

Uniformes da FES.

Cerca de quinze soldados cercavam o Vortex.

E, no meio deles, estava Vera.

Lúcio parou.

Raylla segurou sua mão.

Vera olhou diretamente para os dois.

Seu rosto continuava sereno.

Mas havia alguma coisa diferente em seu olhar.

Como se estivesse esperando exatamente por aquele momento.

Lúcio engoliu em seco.

— O que está acontecendo?

Vera não respondeu.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

Então um dos soldados deu um passo à frente.

Lúcio sentiu o estômago se apertar.

Havia alguma coisa errada.

E, daquela vez, ele tinha certeza.

Além da Terra Devastada - Remake (sim, isso mesmo)

 Depois de uns 10 anos? Resolvi que "Além da Terra Devastada" merecia uma olhadinha nova, considerando que eu sou hoje uma pessoa muito diferente, com visões diferentes. Então, reli os 11 capítulos já publicados e trago aqui uma nova redação e interpretação do meu proto-romance de adolescentes:


Além da Terra Devastada

— Lúcio. Acorda.

A voz de sua mãe atravessou a porta antes que ele estivesse realmente desperto.

— O café está na mesa.

Lúcio abriu os olhos e permaneceu alguns segundos olhando para o teto. A luz da manhã entrava pelas frestas da janela, desenhando linhas claras sobre a parede.

— Já vou.

Do outro lado, silêncio.

Ele se sentou na cama, esfregou o rosto e respirou fundo antes de levantar.

A casa estava silenciosa quando chegou à cozinha. Sua mãe estava sentada à mesa, com uma xícara entre as mãos. O café já havia esfriado um pouco.

— Você está atrasado.

Lúcio puxou a cadeira.

— Eu sei.

— Hoje você vai mesmo?

Ele sabia exatamente do que ela estava falando.

— Vou.

Sua mãe permaneceu olhando para ele.

— Você ainda pode desistir.

Lúcio baixou os olhos para o prato.

— Eu não quero desistir.

— Não é uma questão de querer.

Ele não respondeu.

Havia meses que aquela conversa se repetia, de formas diferentes, quase sempre terminando no mesmo lugar. Sua mãe queria que ele fizesse alguma coisa da própria vida. Queria que descobrisse aquilo que, segundo ela, estava dentro dele.

Os Despertos eram conhecidos havia décadas. Pessoas capazes de fazer coisas que ninguém mais conseguia explicar completamente. Alguns controlavam elementos. Outros possuíam habilidades ligadas ao corpo, à mente ou à matéria. Havia aqueles capazes de mover objetos, atravessar distâncias ou perceber coisas que passavam despercebidas para pessoas comuns.

Lúcio havia feito todos os testes.

E falhado em praticamente todos.

Nenhuma manifestação. Nenhuma habilidade identificável. Nada.

— Você sabe que não precisa provar nada para mim — sua mãe disse.

Lúcio quase sorriu.

Era justamente esse o problema.

Todos diziam que ele não precisava provar nada. Depois perguntavam o que havia descoberto, quando seu poder apareceria, por que os outros conseguiam e ele não.

Ele aprendera cedo que era mais fácil ser aquilo que esperavam dele.

Ser educado. Ser prestativo. Não reclamar. Não decepcionar.

Talvez, se fosse bom o bastante, finalmente parassem de esperar alguma coisa.

Mas nunca paravam.

— Eu só quero tentar outra coisa — disse.

Sua mãe ficou em silêncio.

Lúcio terminou o café e se levantou.

Naquela manhã, ele deixaria a casa.

Não para sempre. Não ainda.

Mas pela primeira vez faria alguma coisa simplesmente porque queria.


A AIR ocupava um dos maiores complexos da Cidade de Vidro.

A cidade recebera esse nome pelas construções que haviam surgido durante o período de reconstrução. Torres de vidro, passarelas suspensas, estruturas metálicas e enormes painéis translúcidos formavam uma paisagem que, vista de longe, parecia quase artificial.

Era difícil imaginar que o mundo havia chegado tão perto do fim.

Séculos de guerras haviam destruído países inteiros. Armas nucleares haviam transformado regiões em áreas inabitáveis. O derretimento parcial das calotas polares alterara o litoral de continentes inteiros. Quando as guerras finalmente cessaram, as antigas nações precisaram reaprender a existir.

A Autoridade Internacional de Reconstrução havia surgido nesse período.

Primeiro como uma estrutura internacional de reconstrução. Depois, tornou-se responsável pela distribuição de alimentos, atendimento médico, reassentamento populacional e recuperação dos territórios devastados.

Com o tempo, tornou-se muito mais do que isso.

Lúcio trabalhava ali havia quase um ano.

Era pouco tempo, mas suficiente para descobrir que gostava daquele lugar.

Ali ninguém perguntava o tempo inteiro quando seu poder apareceria.

Ali ele era apenas Lúcio.

Um dos jovens auxiliares da AIR.

E, pela primeira vez, isso parecia suficiente.

— Você está com uma cara péssima.

Lúcio virou-se.

Vera estava parada atrás dele.

Ela vestia branco, como quase sempre. Uma blusa simples, calça clara e os cabelos perfeitamente arrumados. Não havia nada de ameaçador em sua aparência. Pelo contrário. Vera tinha um jeito naturalmente acolhedor que fazia as pessoas confiarem nela com facilidade.

— Dormi pouco — respondeu Lúcio.

— Nervoso?

— Um pouco.

Ela sorriu.

— Você sempre fica nervoso antes de fazer alguma coisa importante.

— Talvez porque eu sempre ache que vou fazer alguma coisa errada.

— E faz?

Lúcio pensou.

— Às vezes.

— Então está aprendendo.

Ela passou por ele e continuou andando.

Lúcio a acompanhou.

Vera havia sido uma das pessoas mais importantes em sua formação na AIR. Fora ela quem lhe ensinara sobre a organização, sobre os territórios devastados e sobre a necessidade de preservar as comunidades que ainda existiam.

Também era uma das poucas pessoas que nunca o tratara como alguém incompleto.

Por isso, Lúcio confiava nela.

Talvez confiasse até demais.

— Tenho uma tarefa para você — disse Vera.

Lúcio ergueu as sobrancelhas.

— Sozinho?

— Sozinho.

Ela lhe entregou uma pasta preta.

— Norte.

Lúcio abriu a pasta.

Dentro havia poucas informações. Um nome. Uma fotografia. Alguns dados médicos.

— Uma criança?

— Uma menina. Nove anos.

— O que aconteceu com os pais?

— Não sabemos.

Ele olhou para Vera.

— E o que eu preciso fazer?

— Buscá-la.

— Só isso?

— Trazê-la para cá com segurança. O restante será resolvido depois.

Lúcio fechou a pasta.

— Por que eu?

Vera o observou durante alguns segundos.

— Porque você conhece o funcionamento da AIR, conhece o Vortex e, principalmente, porque precisa começar a fazer alguma coisa sozinho.

Lúcio não soube se aquilo era uma missão ou uma provocação.

— E se alguma coisa der errado?

— Você volta.

— E se não puder?

Vera sorriu.

— Então terá que descobrir o que fazer.

Ele não gostou muito daquela resposta.

Ainda assim, assentiu.


Alana o esperava na plataforma do Vortex.

Era uma mulher alta, de cabelos escuros presos para trás. As cicatrizes que atravessavam parte de seu rosto eram difíceis de ignorar, mas Lúcio já havia aprendido que perguntar sobre elas não era uma boa ideia.

Ela entregou a ele uma mochila azul.

— Tudo o que você precisa está aqui.

— Quanto tempo?

— Uma hora.

— Uma hora?

— Para encontrar a menina, trazê-la até o Vortex e retornar.

— E se eu demorar?

Alana apontou para a pasta preta.

— Então espero que tenha uma boa explicação para a sua chefe.

Lúcio sorriu sem graça.

— Ela não parece o tipo de pessoa que aceita boas explicações.

— Não é.

Alana conferiu o dispositivo preso ao pulso dele.

— E escute uma coisa: não confie em qualquer pessoa que encontrar no Norte.

— Você está falando sério?

— Estou.

O Norte era diferente da Cidade de Vidro.

Mais pobre. Mais descentralizado. Mais livre.

Pelo menos era assim que as pessoas gostavam de descrevê-lo.

Também era uma das regiões onde havia maior concentração de Despertos.

Lúcio não perguntou por quê.

O Vortex começou a emitir um ruído grave.

As luzes ao redor da plataforma acenderam-se.

— Pronto?

Lúcio olhou uma última vez para Alana.

— Não.

Ela riu.

— Melhor assim.

O mundo desapareceu.

Por alguns segundos, Lúcio teve a sensação de que o próprio corpo havia deixado de existir. Não havia chão, teto, peso ou direção. Apenas uma pressão violenta atravessando cada parte dele.

Então tudo voltou.

Ele caiu de joelhos.

Tossiu.

— Odeio isso.

Uma voz respondeu:

— Todo mundo odeia.

Lúcio levantou a cabeça.

Um homem negro, de cabeça raspada, vestindo azul, estava diante dele.

— Seja muito bem-vindo ao Norte!

Lúcio respirou fundo.

Atrás daquele homem, uma estrada de terra seguia entre construções baixas. Crianças corriam pela rua. Pessoas conversavam nas portas das casas. Mais ao longe, além das construções, havia uma faixa extensa de vegetação.

Nada se parecia com a Cidade de Vidro.

Lúcio levantou-se devagar.

A missão havia começado.

E ele ainda não fazia ideia de que aquela seria a última vez que acreditaria conhecer o mundo em que vivia.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Além da Terra Devastada. XI

Havíamos passado a madrugada acordados, sem dormir por causa da inquietação e do
medo, e também sem dormir por causa do plano mirabolante que Julius e Carla tinham
arquitetado. O sol já ia alto e forte, cobrindo a Cidade de Vidro de uma luz agradável,
que sempre me encantou no lugar. Agora, a luz me inspirava medo de ser descoberto.
Repassamos novamente o plano abrigados no mesmo beco onde fui sequestrado pelo
cara do vídeo, com Julius pingando sangue pelo braço direito, onde ele mesmo havia
feito um corte usando bisturi, e Carla parecendo uma velha, usando roupas antigas
que encontramos no centro de saúde abandonado. Eu estava usando um casaco com capuz,
e mantinha a cabeça baixa. Àquela hora, não havia muita gente nas ruas,
estavam todos em seus postos de trabalho ou centros de estudos.
“Muito bem, todos se lembram do plano?”
“Sim.”
“Sim.”
“Muito bem, Carla, vá na frente. Lúcio, esperamos alguns minutos e depois saímos.”
“Ok.”
“Se cuidem meninos, não entrem em nenhuma enrascada”.
Depois do que pareceram horas, Julius e eu saímos do beco. Ele vinha apoiando seu
braço esquerdo no meu ombro direito, enquanto seu outro braço pendia balançando
no ar, gotejando um pouco de sangue através do curativo propositalmente mal feito
que cobria o corte.
“Olá, em que posso ajuda-los?”
A atendente vestia um avental rosa claro e trazia um sorriso no rosto. Ao seu lado, no
balcão, uma xícara fumegante de café impregnava o ambiente com aquele cheiro forte
e familiar, da cozinha da minha mãe.
“O meu primo resolveu que sabia cozinhar, e caiu no chão com uma faca na mão”, eu
disse, sem olhar nos olhos dela.
“Ah, ok. Por favor, seu nome?”
“Ah, é Paulo. Paulo Roberto”, mentiu Julius enquanto ela fazia anotações numa
prancheta digital.
“Me acompanhe, sim? Mocinho, você pode ficar aqui na recepção e esperar”.
Assim que eles dobraram o corredor à direita do balcão, me esgueirei pelo corredor da
esquerda o mais rápido que pude. No final do corredor, como Julius havia dito, estava
um vestiário grande, todo pintado de azul. Nas araras, vários uniformes, organizados
por tipo de trabalho. Julius realmente sabia o que estava dizendo, pois numa das
araras à esquerda da porta principal estavam pendurados vários uniformes
da equipe de transporte de medicamentos, que traziam remédios do centro de distribuição
abaixo da torre principal das Missões e faziam a distribuição pelos centros de saúde
espalhados pela cidade e nas vilas ao redor. Tirei minhas roupas, vesti o macacão,
coloquei a touca e escondi bem meus cabelos. Encontrei óculos de proteção, escuros,
numa prateleira anexa à arara e saí. Foi simples sair do hospital e entrar no centro de
distribuição, os corredores do subsolo eram largos e muito bem sinalizados. Quando
achei que já tinha andado o suficiente, encontrei alguns trabalhadores saindo de um
grande elevador no final de um corredor todo branco. De cabeça baixa, me esgueirei
entre eles, que quase não notaram minha presença, pois estavam ocupados demais
manobrando caixas flutuantes. Entrei no elevador, me virei para o painel de vidro e
cliquei no botão para subir. A viagem, silenciosa, parecia ter congelado o tempo, como
no incidente com a bala na janela de Carla. Isso só serviu para aumentar meu
nervosismo. Quando as portas do elevador se abriram, repassei o plano mentalmente.
“Enquanto eu vou até uma das bibliotecas menores, onde não corro o risco de ser
rastreada, vocês vão até o Centro de Saúde. Como o Julius explicou, vai ser fácil você
chegar até a Torre principal. Na biblioteca eu vou poder me conectar ao sistema e
liberar o verme pra extrair informações dos servidores das Missões. Julius, quando
você tiver com o braço ok, você vai até a casa do Lúcio e tira a mãe dele de lá. É
simples, fácil e não tem como errar, se fizermos tudo direitinho. Quando Lúcio estiver
na Torre, eu já devo ter conseguido entrar no sistema, então vou poder saber onde
você vai estar, e isso pode ser útil no caso de uma fuga”.
Se eu tivesse com sorte, nesse momento Carla estaria me observando, Julius estaria à
caminho da minha casa, e eu à caminho de um encontro com Clara. O Centro de
distribuição de medicamentos era um enorme complexo abaixo da Torre principal da
Cidade de Vidro. Do outro lado estava o elevador que dava acesso aos andares que
ficam acima do subsolo. Quando cheguei a ele, um painel com uma luz vermelha
indicava que precisava de autorização para usá-lo. Nem bem havia me aproximado do
painel quando o elevador, vazio, se abriu. Entrei com uma certa relutância, mas assim
que as portas se fecharam um retângulo holográfico apareceu flutuando à minha
frente. Era Carla.
“Cara, por que você me assustou desse jeito?”“Não encana, Lúcio, eu estou te ajudando, ok?
O Julius acabou de chegar na sua casa, ele encontrou sua mãe no caminho, e eles estão conversando.
Eu consegui abrir um canal de comunicação com eles na sala da sua casa, então estamos pensando num
plano juntos. O verme voltou pro ponto de origem dele, o computador central no
andar do escritório da Clara, e isso foi muito bom, por que agora tenho controle sobre
os sistemas do prédio. Estou tentando usar o verme pra invadir o banco de dados, mas
ainda não consegui. Eles tem um sistema muito avançado”.
“Tá bem. E você já pensou no que fazer depois? Para onde você e Julius irão? E a
minha mãe?”
“Bom, acho que consegui bolar um plano B. A Cidade de Gelo. Como ela é uma das
poucas cidades-nação completamente autossuficiente, é pra lá que vamos. Eles não
estão muito preocupados com as Missões, até por que não dependem da Clara pra
sobreviver, e é campo neutro. Tem um deslizador programado para fazer a viagem
para lá ainda hoje, mais tarde. Programei novas tags de identidade para nós quatro, e
nos coloquei na lista”.
“Olha, você sabe que eu não vou conseguir voltar não é?”
“Sim, eu sei. Por isso preparei algo pra você. Encontrei por acaso enquanto vasculhava
as instalações da Torre. Alguns andares abaixo do andar onde estão a Clara e os
servidores, tem um centro de pesquisa enorme. É claro que aproveitei pra conseguir
alguns brinquedinhos. Eles desenvolveram um novo tipo de cubo de dados, mais
potente, e que não precisa ficar sobre nenhuma superfície pra ser usado, por que ele
flutua e reponde muito mais rápido, por que fica conectado na mente do usuário por
uma tiara. Consegui manipular algumas ordens, e ele deve estar sendo entregue agora
aqui pra mim. Pra você eu reservei uma pulseira que agrega algumas funções de um
cubo de dados comum. Comunicação, acesso à rede de dados, navegação, etc. Quando
o elevador abrir, você vai reto e vira no segundo corredor à direita. Alguém vai estar de
te esperando”.
“E do que isso vai adiantar? Não é pra isso ser algum tipo de missão suicida?”
“Não se eu não permitir, seu cabeça oca! A pulseira vai servir pra te rastrear e entrar
em contato com você”.“Ótimo, você vai poder acompanhar minha execução”.
“Mas ela não vai te matar, Lúcio”.
“E por que não, se eles já tentaram fazer isso?”
“Por que eu consegui acessar os registros do computador dela. E ela precisa de você”.
***
Carla tinha razão, pra variar. A pulseira feita de metal negro como a noite cintilava no
meu pulso direito, enquanto Clara me encarava recostada em sua mesa. A cena
parecia a mesma de tantas outras vezes em que estive ali, ouvindo conselhos,
recebendo treinamento, ajudando-a a decidir a melhor maneira de implementar novos
projetos humanitários. Mas não era mais do mesmo. Eu podia ver o ódio em seu olhar
faiscante, ódio que ela tentava esconder sendo gentil e amável comigo. Mas eu
também não sou mais o mesmo. Em mim ardia uma raiva quente e borbulhante, uma
vontade de entender o por que de tudo isso. A pulseira vibrou em meu pulso,
indicando que Carla ainda esta ali, me dando apoio moral.

Além da Terra Devastada. X

“Sabe, eu não sei o que está acontecendo, mas não vai dar pra ficar aqui por muito
tempo. Se estão mesmo procurando vocês dois, esse não é o lugar mais seguro do
mundo. Vocês precisam sair da Cidade de Vidro”.
Julius e Carla estavam nessa conversa há algum tempo já, pensando numa forma de
descobrir por que fomos atacados e ainda sair vivos dessa.
“Mas pra onde nós iríamos, Julius? Pra onde você iria? E ainda tem a mãe do Lúcio.
Não podemos simplesmente sair da cidade de vidro pelos portões da frente, deixando
vocês. Precisamos de uma alternativa, e precisamos de informação. Informação é a
chave, esse é o lema das bibliotecas.”“Só que você não tem conseguido muita coisa, além dos arquivos vermelhos né? E
aquela coisa, o tal verme de rastreio, não serviu de nada né?”
“Bom, eu estou tentando, mas ele tem uma estrutura muito complexa. O Cubo está
rodando um filtro em volta dele, pra tentar conseguir desconectá-lo de vez. Quando
ele terminar, vou poder entrar na programação e usar o verme pra invadir o sistema
de volta”.
“E enquanto isso o que nós fazemos, Carla? E você, Lúcio, o que diz a respeito?”
“Eu, ...eu sei o que fazer. Eu vou até a Clara. Eu vou entrar pela porta da frente!”
“Você tá maluco Lúcio? Aquela mulher mandou te matar!”
“Mas foi ela que me recrutou, ela me treinou, ela me ensinou o que são as Missões, ela
me mostrou a importância de ajudar os outros, de ser honesto e sincero. Ela não pode
simplesmente ignorar isso”.
Julius apenas olhava de mim para Carla, e não falava nada. Carla parecia nervosa. Um
apito suave, porém constante, chamou nossa atenção. O verme vermelho tinha ficado
azul dentro da caixa holográfica suspensa.
“Ótimo consegui invadir. O cubo já programou o Verme pra viagem de volta, mas ainda
não consegui conectar”.
“Viu? É um beco sem saída, Carla. Eu preciso ir até a sede e conversar com a Clara”.
“Bom, se você vai, vamos precisar de um plano”.

Além da Terra Devastada. IX

“Lúcio, você pode me ouvir?” 
Era Julius, me chamando, ao longe. Parecia longe pelo menos. Muito longe. Aos 
poucos fui recobrando a consciência do meu corpo e da realidade. Tentei me levantar,
mas Julius me impediu.
“O que- oque aconteceu?”
“Bem, você pôs abaixo aquela escada, e depois desmaiou. Sangrou também pelo nariz, 
um pouco.”
Ele me olhava com preocupação. Sua pele marrom avermelhada brilhava coberta de 
suor, e seus cabelos escuros, densos e lisos não apresentavam o brilho de sempre, 
nem a organização. Ele parecia um pouco assustado, e seus olhos escuros como a noite 
pareciam ainda mais negros. 
“E onde a gente está?”
“Num Centro de Saúde abandonado, na zona oeste da cidade. Eu trabalhava aqui, mas 
o Centro foi fechado após a construção de um novo conjunto de prédios de habitação, 
e os moradores foram transferidos pra zona sul. Ainda bem que os geradores não 
foram tirados daqui, então temos água, energia, conexão à rede das Missões e 
comida.”
Essa era uma das coisas que mais me admirava em Julius. Ele era sonhador, 
desenhista, gostava de música, mas também tinha o senso prático de um enfermeiro 
das Missões. 
“Lúcio, beba um pouco de água, a Carla está na outra sala, usando o cubo pra entrar
nos sistemas da cidade”.Quando Julius me soltou, levantei e peguei o copo de água na mesa ao lado da maca. 
Um esparadrapo pendia do meu nariz com uma quantidade até generosa de sangue. 
Eu realmente devo ter me excedido, mas nem sei direito controlar esse lance da 
telecinese. Ótimo, um controlador que não sabe controlar nada. Piada do dia.
“Mas que droga!” – Era Carla. Atravessei o corredor até a sala adjacente; seu cubo de 
dados estava ativado, projetando um holograma que ocupava boa parte da sala. Carla 
estava com a palma direita sobre um quadrado pequeno e vermelho à sua frente, com 
certeza tentando se conectar.
“Ah, oi Lúcio, melhorou? Estou tentando entrar no banco de dados da Sede, mas não 
tenho mais permissão. O sistema das bibliotecas continua online, mas tem um 
programa me rastreando. Eu consegui isolar ele e estou tentando invadir a 
programação pra usá-lo contra eles”. Num movimento brusco, Carla correu os dedos 
pelas janelas abertas e agarrou uma caixa azul brilhante de holograma. Através das 
paredes do holograma se agitava uma espécie de verme tecnológico tentando quebrar 
as paredes, mas o cubo de Carla continuava reforçando o cubo. Carla criou um cubo 
maior com poucos gestos, jogou o verme dentro e o trancou. 
“Cara, o que você tá fazendo? Por que tá tentando invadir os dados da Sede? E, ah, eu 
estou bem sim”.
“É simples Lúcio: se você não entendeu, estamos sendo caçados pela FES! Invadiram 
minha casa, atiraram em você, você quase morreu, NÓS quase morremos! Eu não vou 
deixar barato!”. Na hora do “nós”, seus olhos se encheram de lágrimas, e Carla 
finalmente desabou. Meio que eu já esperava por isso, então puxei uma cadeira para 
que ela se sentasse.
“Aquela coisa – e apontou para a caixa – atacou meu cubo na hora em que conectei. Se 
eu não estivesse esperando algo do tipo, eles já teriam pego a gente, e estaríamos 
mortos, por algo que a gente nem entende direito, Lúcio!”
“ E o que você me sugere, Carla?”
“Eu acho – não, eu tenho certeza, que precisamos descobrir por que a FES foi enviada, 
e mais importante, QUEM a enviou. Espera”. Ela foi em direção à mochila azul sobre a mesa ao lado do Cubo e puxou os arquivos vermelhos. Espalhou na mesa e girou o 
cubo na direção deles. Imediatamente o aparelho preto e brilhante começou a 
digitaliza-los.
“A propósito, obrigado por pegar a foto também. Você foi demais aquela hora. Agora, 
eu vou te mostrar o que tem nesses arquivos!” 
Era determinação o que eu via no olhar dela. 
“Bem, vamos do começo: Cubo, abra o arquivo com data mais antigo, e amplie. Modo 
de análise de dados”.
A caixa com o verme foi para segundo plano e, no ar à minha frente, cubo projetou 
uma arquivo com data de 10 anos atrás. A data foi destacada em vermelho, e à uma 
ordem de Carla, o texto foi ampliado e o cubo começou a destacar palavras conforme 
ela ia correndo os dedos pela projeção.
“Lúcio, esse arquivo é de uns dez anos atrás. A Nação do Leste convocou as outras 
Nações e a dirigente das Missões, Clara, para uma espécie de convenção. Eles 
proporão extinguir as Missões e a FES, e estabelecer uma força conjunta, comandada 
pelas Nações para agir restaurando partes devastadas do planeta. Mas a Clara não quis 
isso, e foi apoiada pela Nação do Norte. Nessa hora, ela chantageou as Nações com um 
contingente enorme da FES formado por especialistas em combate e controladores. 
Houve uma série de ataques terroristas orquestrados pela Clara, tudo para continuar 
no poder. Segundo ela as Nações não estão prontas para se cuidarem sozinhas. Cubo, 
execute o arquivo de vídeo anexado na página doze”.
O texto deu lugar a uma tela preta, que imediatamente foi substituída pela imagem de 
uma sala grande, oval, com balcões de pedra dispostos em círculo. No centro, em um 
púlpito, Clara olhava duramente para os líderes das 10 Nações humanas, que 
esbravejavam com ela:
“Meus caros, as Nações não estão prontas para sobreviver e cuidar do mundo e de si 
mesmas sem o apoio das Missões. É inadmissível que vocês pensem em suplantar 
nosso sistema que tem funcionado por gerações! As Missões só querem o bem para a 
humanidade, e pelo bem da humanidade não deixarei que vocês subjuguem nosso poder. Não podemos deixar que o homem volte a destruir a si mesmo e à humanidade, 
como nos tempos passados. As Missões são a única coisa, a única barreira que impede 
a humanidade de cair do abismo da sua auto destruição!”
“Eu concordo!”, disse um homem imediatamente à frente de Clara. Ele vestia verde, e 
algo no tom terroso de sua pele e no brilho castanho de seus olhos me lembrou as 
pessoas alegres e coloridas da Cidade do Norte. “Nós finalmente estamos conseguindo 
efetivar a reconstrução da Cidade do Norte, e boa parte das nações ainda não 
conseguiu superar a fome e a falta de recursos! É um absurdo querer suplantar as 
Missões!”.
“Se vocês continuarem insistindo nessa ideia, vamos cortar o apoio à construções das 
cidades da Nação do Leste e da Cidade das águas. As Missões não atuarão onde 
querem nos destruir!”
“Não se trata de destruir” – esbravejou uma senhora baixinha de cabelos 
branquíssimos – “só não achamos mais que a estrutura das missões atenda às 
necessidades das nações, por isso queremos revertê-la para as próprias nações! Você 
ameaça a minha amada Cidade das Águas, Clara, como você ousa dizer uma coisa 
dessas?”. 
A senhora baixinha olhava a Clara mais jovem com um certo ódio no olhar, mas havia 
algo mais ali, parecia desespero. Exatamente quando percebi isso, um homem surgiu 
ao lado de Clara e lhe sussurrou algo no ouvido. Quando ele fez isso, um flash de brilho 
iluminou sua face direita: mesmo mais jovem, sem a barba e as cicatrizes, com o
cabelo curto, aquele olhar de águia não me enganava. Era o mesmo cara que me 
sequestrou. Mas o que ele fazia com Clara?
“Muito bem Clara, vejo que temos um impasse. O Conselho das Nações não vai recuar 
da decisão que tomou. Não podemos submeter a autossuficiência e independência de 
nossas cidades-nação à vontade das Missões.”
“Conselheiro Troi, a questão não é submeter, é entender que as cidades-nação não 
podem viver sem as Missões. Você enxerga um impasse, e para mim a questão é 
muitos simples. As Missões não vão se retirar”.“Clara, não nos interessa suas opiniões pessoais. Você tem um mês para ordenar a 
retirada das Missões e transferir suas estruturas, pessoal e recursos para as Nações, 
essa é uma decisão que já foi tomada”. Clara se resignou a encarar o Conselho, e então 
se retirou, com aquele homem ao seu lado.
A voz apressada de Carla me tirou do transe em que o vídeo tinha me colocado.
“...o que é lógico. Você percebe que isso foi o estopim? Cubo, mostre os dados do 
relatório número 16! Lúcio, a Clara não aceitou a decisão do Conselho das Nações, 
então começou a cortar o fornecimento de coisa essenciais para as pessoas, como 
água para a cidade do Leste, e comida para a Cidade do Deserto. Então, pouco a pouco 
as cidades foram desistindo, e se curvando à vontade dela. Olha, aqui tem algumas 
atas das reuniões posteriores do Conselho. O Conselheiro da Cidade do Norte 
conseguiu manipular o conselho, e cinco cidades desistiram, dando vitória à Clara. 
Mas...Cubo, relatório número 42...há uns seis anos, alguma coisa aconteceu. Sabe o 
homem que aparece com a Clara no vídeo? Ele era soldado das FES, segurança pessoal 
da Clara. Aqui diz que ele era um tipo de espião, e a Clara descobriu. Então ele fugiu 
para um lugar que eles chamam de Fortaleza de Pedra, e passou a liderar um grupo de 
resistência contra as Missões desde então. Mas não tem muito mais. O restante são 
ordens de evacuação, transferência de equipes, envio de suprimentos...”
“Carla, precisamos achar esse cara. Foi ele quem me sequestrou”.