Chove lá fora. Muito. Uma tempestade.
Sentado na cama de Carla tomando uma xícara de chá forte, amargo e escuro, tento organizar as idéias e as palavras para começar a contar e tentar compreender esses últimos dias. Carla estava dormindo quando bati na sua janela, e só topou me deixar entrar por que o céu fazia estrondos realmente assustadores.
Agora que a xícara aquecia minha mão, Carla me olhava daquele jeito atento e respeitoso que sempre fazia quando me ouvia. Era bom poder contar a alguém o turbilhão de sensações, de frio e medo que eu vinha sentindo, se bem que o frio era causado na maior parte pela tempestade.
"Então, o que tá acontecendo Lúcio?"
Nessa hora eu tomei um último gole do chá e falei. Falei sem parar durante o que pareceram horas. Quando terminei, Carla não parecia nem um pouco assustada, perplexa, ou abalada, adjetivos que eu vinha guardando para ela quando ouvisse a história toda. Pelo contrário. O modo como ela andava de um lado para outro sugeria que sua mente trabalhava naquilo que eu "carinhosamente"chamava de Furacão Carla.
"Carla, você quer parar um pouco e me dar o apoio e atenção que, como minha melhor amiga, deveria dar?"
"Eu quero, mas antes preciso que você ouça o que eu vou contar. Há alguns meses eu fui enviada para um setor que não conhecia, fui mandada para a biblioteca central, onde os documentos e arquivos das Missões em todo o mundo são compilados, analisados e salvos. Quando eu estava lá, acabei sendo transferida para um setor onde os documentos que não tinham mais utilidade eram destruídos e mandados para uma usina de reciclagem. Era um trabalho chato e monótono. Até que os documentos vermelhos começaram a chegar numa tarde, e meu coordenador ficou muito, mas muito nervoso. Ele me mandou ir fazer um lanche e se trancou na sala de descarte. Ficou lá por um bom tempo. Depois ele saiu e tudo o que havia nas caixas de detrito era um monte de confete vermelho. No dia seguinte ele não foi trabalhar, e alguns soldados da Força de Estabilidade Social entregaram uma caixa e ficaram lá, aguardando, enquanto eu destruia os arquivos. Mas não foi bem isso que eu fiz. Eu consegui esconder duas pastas de arquivos enquanto eles não olhavam, e trouxe pra cá. Acho que eu posso responder por que essas coisas estranhas aconteceram com você. E, seguindo os arquivos, não é só com você, e não é só agora. É algo maior, algo que nós não estamos sem perto de entender".
"Mas o que isso tem a ver comigo? Que pastas são essas?"
Então ela parou, levantou o tapete que havia no meio do quarto, e de um alçapão debaixo dele tirou duas pastas de arquivo vermelhas, e jogou no meu colo. Elas tinham o brasão das Missões Humanitárias na capa, e logo abaixo a inscrição "PRIORIDADE ZERO". Quando abri a primeira, entendi por que ela tinha a ver comigo. Debaixo de um cabeçalho que detalhava ações de um grupo de rebeldes na Cidade de Areia, que fica às margens de um deserto e é uma das 10 nações. Obviamente eu nunca tinha ouvido falar nisso, e pelo visto Carla também não, afinal não há por que existir conflitos entre as nações. Mas o que me chamou atenção e surpreendeu de verdade foi a segunda pasta. Nela, várias fichas listavam o que o relatório chamava de Comando Rebelde. E no comando, o meu irmão.
"Isso é verdade?" perguntei enquanto encarava uma Carla atenta e apreensiva.
"Parece que sim. Um dos últimos documentos da primeira pasta é um relatório sobre um confronto que acontece há alguns anos já".
"Mas como não sabemos disso? As nações não podem simplesmente estrar em guerra e ninguém ficar sabendo. Eu estive na cidade da Nação do Norte há menos de uma semana, e tava tudo bem por lá, e o meu irmão, ele...ele..."
"Mas não são as nações que estão em guerra, Lúcio. Se fosse, talvez a situação fosse menos pior. As Missões Humanitárias estão em guerra com um grupo rebelde, liderado pelo seu irmão. É uma guerra que as Missões insistem em manter secreta, por que as Missões, Clara, ela vem fazendo uma coisa horrível, ela' - Mas Carla não teve tempo de contar o que quer que as Missões estivessem fazendo, por que nessa hora um estrondo, mais forte e mais próximo que os trovões, fez o prédio chacoalhar.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Dói. Dor.
Quando olho pra rua e o vento sopra, dá aquela sensação de
liberdade que eu queria carregar comigo o tempo todo. A sensação de luz, de
paz, de movimento ao mesmo tempo, mesmo sabendo o quanto isso é contraditório.
Mas mesmo assim eu gosto de sonhar, por que é de graça e
ninguém pode roubar/tombar meu sonhos. Ninguém? Ninguém mesmo?
É inacreditável o talento que as pessoas possuem para
salvar/estragar seu dia. Chega a ser estranho.
E o quanto eu me bloqueio, me travo, me protejo, me impeço
de chorar ou de desistir. Isso é quase infantil, na verdade. Pra que segurar,
se o choro que vem fácil e ligeiro é a melhor solução? Por que no choro, fácil
e ligeiro, velho conhecido das noites quentes e escuras precisa de carinho, de
acalento, precisa de abraço, de aconchego, de proteção.
E chorar sozinho, definitivamente não corresponde às
expectativas do choro fácil e ligeiro. Corresponde apenas ao choro denso,
amargo, triste, choro de se chorar sozinho, choro de se chorar no cantinho,
choro de chorar triste, tristinho.
Só esse choro dá conta do meu vazio, da minha imensidão, e
até mesmo da minha contradição. Por que eu me esforço, mas ela ainda habita
aqui dentro, habita contradição em mim numa proporção que é tão avassaladora,
grande, feroz, indomável, que dói.
Dói dor de choro, dor de parto, dor de braço quebrado. Dói
dor de dores doloridas (?).
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Quando é Eterno. Parte II
Quando cheguei à universidade, pude sentir a tensão que pesava o ar e enchia os corredores de murmúrios e vozes conspiradoras. Na semana seguinte, estaríamos a caminho de Ibiúna. Tudo podia dar errado, poderíamos ser presos pela dita dura. E eu me assustava com a possibilidade de a polícia nos descobrir e não conseguia me concentrar; sabia que todos contavam comigo, mas como poderia ir para Ibiúna, se não
sei onde meu destino pode estar?
A carta de tarô continuava pesando, em minha bolsa, mente e coração. Em algum lugar do meu cérebro, eu registrava a passagem dos dias, as reuniões incontáveis na calada da noite, as negociações com a PJ e a Viração. Nem dez dias passaram antes que eu já estivesse em Ibiúna. Minha tarefa seria receber um grupo de vinte e cindo estudantes na enorme casa que herdei de minha avó, e continuava lá, intacta, como se ela ainda morasse naquele sobrado de paredes caiadas. Na soleira da porta, lembranças da infância me assolaram, e eu podia sentir a aura do lugar me puxando para dentro da casa. Há muito tempo ninguém ia lá, portanto era preciso uma limpeza no local. Depois de tudo limpo e arrumado com a ajuda de uma diarista, saí para fazer compras e abastecer a dispensa. Na cidade, todos estranhavam minha presença repentina. Não que seja algo que pudesse passar despercebido, mas eu esperava que “eles” fossem menos intrusos. Tive que emitir falsos sorrisos e mentir por mais de uma dúzia de vezes. O discurso ensaiado foi fácil de dizer:
- Resolvi trazer alguns amigos da faculdade para passar o final de semana na casa de vovó. Acho um desperdício deixar aquela casa grande fechada.
Dois dias depois começaram a chegar os meus convivas. Alguns já amigos de longa data, outros aliados da oposição, e alguns rostos novos. Formávamos um grupo bem diverso de jovens estudantes, espalhados em grupos pelos grandes quartos do casarão. Na sexta de manhã, chegaram os últimos dois, que dividiriam o meu antigo quarto no térreo. Juntos, eram estranhamente diferentes, mas complementares ao mesmo tempo,
como se houvesse algum tipo de dependência entre os dois. León, mais velho, rosto marcado pelo sol, e marcas de expressão de um sorriso fácil, já conhecia de vista. Um estudante de Filosofia da UnB. O outro, porém, mais parecia um garoto. Sim, sua idade deveria estar em torno dos 17 anos, não mais que isso. Seu nome era Gabriel.
Tudo parecia correr bem. Infelizmente, não conseguimos disfarçar nossa movimentação. A cidade inchou com a presença dos aproximadamente 1.000 estudantes mobilizados para o que seria o XXX Congresso da UNE, feito na clandestinidade, o que não passou despercebido no comércio local. Faltou comida e outros gêneros nos supermercados, vendas, mercearias e farmácias.
Depois de uma reunião que se arrastou horas e horas noite adentro, e alguns copos de vinho, eu já estava perto de casa andando sozinho no silencio da madrugada quando os ouvi.. Carros passavam velozmente pelas ruas próximas, e passos ecoavam cadenciadamente em minha direção. Corri, vencendo os poucos metros que ainda me afastavam de casa, e me atirei portão adentro. No escuro, não vi que mais alguém se movia apressadamente por ali. Só fui perceber tarde demais quando nossos corpos se chocaram e bati contra o solo gramado. León arrastava Gabriel porta adentro enquanto gritava com um olhar ferino no rosto:
- Vá pra dentro. Se esconde. Vou fazer eles me seguirem.
Então ele pegou minha mão e me fez segurar Gabriel.
- Ajuda ele. Por mim, sim? Cuida do meu irmão!
Puxei Gabriel, que relutava em se afastar de León, e tranquei a porta. Dane-se. Não dava tempo de esperar todos chegarem, a maioria devia estar escondida mesmo em algum lugar, nalguma das outras casas que usamos para alojar os estudantes. Quem tiver ficado fora que se arranje. Fomos para a cozinha, onde tranquei a porta dos fundos, e esperamos. Ouvi o portão de grade bater com estardalhaço, provável vítima de um chute.
Precisávamos nos esconder, mas o garoto mal se movia, sentado num canto da cozinha, e muito menos dava qualquer atenção ao que eu fazia. Peguei minha bolsa cáqui, coloquei uma vasilha com alguns biscoitos e um cantil; não adiantaria muito, já que a casa deveria estar cercada. Foi aí que me lembrei. Com os biscoitos de nata na mão, o cheiro de casa velha, a mobília puída, os panos de prato bordados, parecia que minha vó estava ali, ao meu lado, retirando do forno sua própria receita de biscoito herdada da bisa:
- Desça já daí e venha comer! Já falei pra não ficar brincando no elevador de pratos!
Estava bem ali. Alguns metros ao lado, a portinha de madeira, escondida sob o papel de parede ao lado da escada, que abrigava o pequeno elevador utilizado por minha avó para subir os pratos para a sala de jantar no segundo andar. O mimo que meu avô construiu para que ela pudesse dar seus animados jantares na sala de cima. Puxei o garoto relutante, abri a porta e o fiz entrar. Me espremi lá dentro o máximo que pude. Bati a porta e passei a pequena tranca que havia do lado de dentro e que eu havia instalado com minhas próprias mãos na infância.
O calor aumentava e ambos suávamos mais e mais naquele espaço pequeno e abafado; abafamento esse que só se agravava, pois fomos obrigados a nos abraçar para caber lá dentro. Um estrondo foi o anúncio da porta da frente sendo levada ao chão. Passos apressados, policiais gritando. A repressão estava ali, a centímetros de nós, quando dois policiais pararam bem em frente ao elevador, e começaram a transmitir ordens para os demais. Prendi minha respiração o máximo que pude. Gabriel procurava não fazer barulho algum. Passado algum tempo, eles se foram. Entretanto, continuamos ali. Com muito esforço ele tirou a camiseta branca que vestia e continuou junto ao meu corpo, em silencio. Me afastei dele os poucos centímetros que o espaço apartado permitia, e nos observamos atentamente. Seus cabelos, castanhos, não sabiam se queriam ser lisos ou crespos; tinha a pele do rosto com manchas brancas, provavelmente do sol; no ombro direito, uma marca, em V, branca como uma cicatriz, contrastava na meia luz com sua pele queimada de sol; eu podia ouvir seu coração batendo acelerado, sentir sua respiração. Foi quando seus olhos profundamente cinzentos e meus olhos negros como breu se encontraram.
Sem aviso, sem qualquer sinal, na meia luz e no calor infernal, em meio à tensão e ao medo, seus lábios vieram de encontro aos meus; sua língua quente e áspera tocou a minha, e me levou mais para perto de si.
Ali, naquele turbilhão de sensações, perdi o foco do presente por um momento e vaguei para a distante lembrança da garota cigana naquela noite, um mês atrás. A noite em que ganhei a carta de tarô:
“-Você irá encontra-lo quando houver medo em seu coração. Ele terá olhos de tempestade e lhe tirará da solidão. É seu destino tê-lo nos braços, mas haverá que escolher, entre seguir seu caminho, ou ficar ao lado dele, protege-lo e lutar ao lado dele”.
Lembro que achei impossível, lembro que recusei. Lembro que ela se foi assim que me entregou a carta. A carta que pesa em minha bolsa mente e coração. Eu não podia acreditar que aquele homenzinho, aquele garoto de 17 anos era a minha outra parte. A parte perdida da minha alma, que fosse me completar. Logo eu, já responsável por mim mesmo do alto de meus 21 anos. Logo eu, Caio César, que fugi de casa quando meu pai não me aceitou, homossexual que sou.
Como poderia aceitar que um garoto me beijava com tanta ternura e afeto? Como seria possível ele ser parte de mim e eu ser parte dele naquele exato momento? Não sei. Só sei que o amei mais que a mim mesmo, ali naquele instante, quando seus olhos tocaram o fundo dos meus. Quando nossas almas se abraçaram; quando soube que o protegeria e sairíamos vivos dali, a qualquer custo.
***
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Quando é Eterno. Parte I
[Antes de qualquer coisa, é preciso explicar o por que da ausência de posts por aqui. Além da Terra Devastada está em Hiatus (ou seja, uma pausa), por que a trama é complexa e precisa de um tempo que não estou podendo dispor para terminá-la. Enquanto isso, deixo vocês com esse conto em três partes chamado Quando é Eterno, um conto de época. Apresentei ele na Bienal de Cultura e Arte da UNE, no começo de 2013. Espero que gostem. 2 beijos, Glauco]
Quanto é Eterno
Brasil, 1968.
E ele derramou sobre mim aquele seu olhar resignado, acusador e persecutório, enquanto caminhava em meio à bagunça e às minhas roupas. Parou e começou a vasculhar minha bolsa cáqui, provavelmente em busca de algo que incriminasse alguma traição. Lembrei-me que estava ali a carta de tarô, o enamorado, com meu nome escrito em seu verso. Quando a pegou, observou atentamente e me perguntou do que se tratava. Disse que era um presente, algo que havia ganho. Ele pareceu se interessar pelo objeto, mas não me perguntou nada mais, talvez para não me aborrecer, ou aborrecer a si mesmo. Pousou a carta sobre a cômoda e se aproximou de mim. Podia sentir sua respiração apressada, podia ver suas mãos tremendo e o suor escorrendo por sobre sua pele que ardia. Arrebatou-me em seus braços e me beijou, com uma volúpia que eu não compreendia. Naquele momento me entreguei à ele, mesmo sabendo que não era ele meu destino, mesmo sabendo que o dono do meu coração estava por aí em algum lugar.
Me esperando?
Então ele ligou o aparelho de som. Na rádio, “Carinhoso” tocava enquanto ao mesmo tempo ele me despia e abraçava. O sol da manhã jogava uma luminescência dourada através das cortinas de renda. O ar aquecido, somado ao gosto amargo de seu perfume quando meus lábios tocaram seu pescoço, me intoxicava. Me jogou na cama e me beijou ainda mais. Tirou sua roupa e então nossos corpos nus se encontraram, com força, ferocidade, selvageria até.
Após algum tempo, nossas respirações aceleraram. Podia sentir que o momento se aproximava. O ápice chegava com pressa, como se dentro dele estivesse guardado há muito tempo, esperando para se libertar. Quando não podia mais, com o suor escorrendo entre nossos corpos, o calor de nossa pele queimando, a velocidade, a força, tudo se uniu num turbilhão de sensações, cores, toques, sons, gritos, gemidos, e assim como começou, rápido se foi.
Levantei-me, e tomei banho. Da cama ele me observava, e quando saí pude ver lágrimas se formando em seus olhos. Não podia ficar para ver, não podia mais me unir a ele. Não podia deixar que continuássemos. Tinha que seguir meu caminho, foi o que a cigana disse.
***
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Além da Terra Devastada. VI
O que se estende à minha frente poderia muito bem ser classificado de imponente. É um prédio de três anadares, cinza e azul, com um portão grande de ferro. Feio. E então o portão se abriu e eu mudei de ideia. O portão dá para um pátio imenso e arborizado, com bancos e algumas áreas circulares cercadas por banquinhos de concreto baixos e simples.
"Olá. Obrigado por se juntar à nós Lúcio!"
É um senhor atarracado, e meio efusivo demais, que me acena com um sorriso cheio de dentes.
"Ah, olá Sr. ...?"
"Alfredo. Mas, por favor, sente-se". Ele me puxa para debaixo de uma árvore e um dos bancos de concreto vem flutuando até nós e aterriza delicadamente no chão.
"Então você é um jovem telepata? Me lembro da sua mãe quando se mudou para a Cidade de Vidro. Ela mal sabia do que era capaz! Mas logo ela se tornou um prodígio aqui na Academia".
"Hum...Academia?"
"Imagino que ela não tenha te explicado! Esse lugar é chamado apenas de A Academia. É aqui que Controladores são treinados para aprender a usar seus talentos. Muita gente já passou por aqui, sabe, e é ótimo poder te receber!"
"Então, que tipo de treinamento acontece aqui?"
"Bem, depende do seu talento. Como você é um Telepata, vai aprender a controlar suas emoções, mover objetos, o básico. Você também pode escolher aprender mais alguma coisa, que complemente seu talento, como influenciar os elementos, ou técnicas de combate para os Controladores que possuem talentos mais físicos, e ciência avançada para os super inteligentes. Mas não se preocupe, você vai encontrar algo interessante, tenho certeza!"
"O.k. Então, por onde começo?"
"Bem, sua mãe já esteve aqui e já conversamos. Por que não começa com o básico? Hora de mover objetos com a mente. Vou apresentar seu instrutor, Thales".
À menção do nome, um cara alto, de pele curtida pelo sol com tatuagens nos braços surge das sombras perto de nós. Ele tem um olhar penetrante, e os cabelos raspados. É mais velho que eu, mas algo nele me sugere rebeldia e indignação.
"Bem vindo à Academia. Sou Thales, e serei seu instrutor. Me acompanhe".
Ele não parece muito de papo, e as tatuagens parecem um sinal claro de perigo. Ele entra em um elevador e eu vou junto. Chegamos ao terraço da Academia e ele aponta para uma pedra posicionada no centro de um círculo vermelho do meu lado direito.
"Sua primeira tarefa é mover aquela pedra para fora do círculo".
"Mas eu não consigo mover objetos assim. Eu só..."
"É claro que consegue, basta se concentrar. Agora sente-se no chão".
A manhã clara e alegre foi substituída por um sol escaldante. É quente demais aqui em cima, e o chão ferve sob mim.
"Eu não consigo fazer isso!"
"Consegue sim. Se concentre na pedra! Libere sua mente!"
Como se fosse algo simples assim. Como esse cara se dá o direito de me tratar assim?
"Anda, eu não tenho o dia todo! Se demorar você vai ficar sem almoço!"
"Hey, você deveria ser algum tipo de instrutor. Instrutores ensinam, não tentam nos obrigar a sair por aí movendo pedras com a mente debaixo de um sol como esse!"
"Infelizmente pra você, é desse jeito que eu ensino, e você vai ter que aprender".
Nessa hora eu já estou de pé, encarando-o. Não que seja uma boa ideia fazer isso, mas não dá mais pra ficar sentado ouvindo esse cara me tratar desse jeito. Ninguém me trata assim.
"Olha aqui, se for pra ser desse jeito eu vou dar o fora, ok? Ninguém age assim comigo".
Quando dou as costas, ele segura meu braço direito, com força, e me faz parar.
"Solta".
"Não".
"Me solta agora".
"Não".
"ME SOLTA!" - bum!
Nessa hora a pedra sai voando do centro do círculo e passa muito, muito perto da cabeça dele, se chocando contra a parede próxima causando a ela uma rombo considerável. Espero que ninguém tenha se machucado. Thales me encara, seu olhar é zangado, mas ao mesmo tempo tem algo de fascinado.
"Tarefa concluída. Pode ir agora. Nos vemos novamente amanhã de manhã".
Chega. Os últimos dias tem sido demais pra mim. Preciso encontrar Carla, e contar tudo a ela. Preciso desabafar. E preciso aprender a controlar a telecinese antes que mate alguém.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Além da Terra Devastada. V
Eu abro os olhos, mas
continua escuro. Quando olho para cima posso ver estrelas e luzes no topo dos
prédios, e tudo cintila. É lindo. Estou de volta à Cidade de Vidro. Meu corpo
está fraco, minhas pernas tremem. Minha boca está seca. Vortex.
Estou estirado, no chão de concreto do mesmo beco de antes. O lugar todo vazio, como antes. Mas a sensação de estar sendo observado não me abandona. Flashes do "interrogatório" espocam na minha mente junto com o latejar da dor de cabeça. Até me levantar dói.
Respiro devagar, fico de pé e me oriento. Sigo pela rua lateral andando devagar até a próxima estação de trem. No relógio, oito e meia da noite, bem a tempo do próximo trem para o lado oeste da cidade, onde moro. A viagem corre tranquila, num vagão vazio. Apenas o trepidar do trem e o latejar da cabeça atrapalham meus pensamentos.
Definitivamente é muita informação para processar: em apenas um dia fui mandado para a capital da Nação do Norte, encontrei meu irmão mais velho que sumiu há quase dois anos sem deixar notícias, fui cercado por uma equipe da Força de Estabilidade Social, Clara chamou minha atenção e me pediu para mentir, fui atacado, sequestrado e interrogado, e acho que as luzes piscando e estourando só podem significar que meu talento de Controlador está se manifestando.
"Vivas pra mim, então". Eu rio, descontroladamente no vagão vazio. É o que eu faço quando fico nervoso. Daí a lâmpada na outra ponta do vagão explode e me assusto. Hora de parar e me acalmar. Finalmente o trem chega na estação e eu desço. Agora são só alguns minutos até em casa.
Minha casa cinza e silenciosa. Ficou assim depois que Billy se foi, há quase três anos. Eu nem lembro de como era quando papai estava aqui. Eu nem lembro do rosto dele. Mas ele se foi, para sempre, como minha mãe - amarga e vazia - costuma dizer.
Quando entro, passo pelo hall e ela está lá, na sua cadeira de balanço sentada, com um livro no colo, olhando o vazio, exatamente como todos os outros dias nos últimos anos. O cheiro de comida impregna o ar - ela continua uma ótima cozinheira -, mas a alegria de cozinhar e criar novos pratos parece ter se esvaído dela.
"Boa noite mãe"
"Boa noite Lúcio" - Ela continua olhando o vazio.
"Como foi seu dia?"
"Eu cuidei da casa, fiz compras, cozinhei para nós, fiz trabalho voluntário. E você?"
Essa é a resposta de todos os dias.
"Eu saí numa missão de campo, e vi o Billy".
Num salto, ela se ergue da cadeira, joga fora o livro e anda na minha direção. Pela primeira vez em anos eu vejo brilho em seu olhar. Ela me arrasta pra cozinha, serve água num copo alto e se senta na mesa. Faço o mesmo e lhe conto como foi o encontro com meu irmão.
"Eh...então ele quer que eu vá visitá-lo?"
"Pelo menos foi o que ele disse. Mas não disse muito mais".
"Então ele não desistiu da gente".
"Uh, desistir?"
"É. Achei que ele tinha desistido, e ido morar em algum lugar ermo e distante. Mas ele não está tão longe assim".
Nisso ela olha para o armário, ele se abre e pratos e talheres voam para a mesa. Há muito não via ela usar seu talento em casa. Meio que a tristeza o bloqueava. Saber notícias de Billy realmente deixou ela de bom humor. Hora de aproveitar a deixa.
"Hum, mãe, como foi que, hum, começou isso de ser uma Controladora?"
"Bem, é interessante já que perguntou. Eu não sabia que era uma Controladora, por que era difícil encontrar Controladores telepatas na Cidade das Pedras, que é de onde eu venho. A maioria dos Controladores de lá tem talentos ligados aos elementos. Seu tio Blásio por exemplo, consegue controlar o fogo. Então quando eu não manifestei nenhum talento ligado aos elementos até os 16 anos, todo mundo pensou que eu não fosse uma Controladora, mas ninguém ligou muito pra isso, já que minha mãe também não era Controladora, e geralmente se herda o talento da mãe. Foi por isso que passei horas e horas a fio com ela na cozinha aprendendo a cozinhar. Então um dia eu estava ajudando sua avó com uma torta, e deixei uma tigela com vários ovos caírem no chão. Eu lembro que gritei por medo dos cacos de cerâmica me cortarem, mas a tigela não caiu. Ela ficou flutuando no ar a uns dois palmos do chão, e duas lâmpadas estouraram, deixando minha mãe muito assustada".
"Que interessante". Eu mastigo com cautela os pedaços de frango e salada que ela serviu. Não é normal ela estar tão receptiva, nem tão falante assim. Não posso passar dos limites. "E como você soube que eu sou um Controlador também?"
"Bem, eu sou uma telepata. Quando eu te toquei pela primeira vez, quando você nasceu, algo "estalou" dentro de mim. É algum tipo de sentido-controlador que só telepatas têm. Por que, aconteceu alguma coisa?"
"Bem, acho que eu estourei algumas lâmpadas com a mente, entre outras coisas". Não vou assustá-la com o fato de ter sido sequestrado e interrogado. Isso é uma informação que precisa ser investigada, e minha mãe definitivamente não é a pessoa certa pra isso.
"Então você precisa de treinamento. Amanhã vou fazer uma visita a um amigo. Ele vai te treinar para aprender a usar seu talento com responsabilidade. Telepatas são raros, mas precisam ser treinados para não fazerem besteira".
Fico imaginando que tipo de besteira um telepata pode fazer, mas não preciso ir muito longe: lâmpadas explodindo já são uma boa ideia do que meu talento de controlador é capaz. Por um instante, vejo luz nos olhos dela. Parece que pelo menos por agora minha mãe está de volta.
Respiro devagar, fico de pé e me oriento. Sigo pela rua lateral andando devagar até a próxima estação de trem. No relógio, oito e meia da noite, bem a tempo do próximo trem para o lado oeste da cidade, onde moro. A viagem corre tranquila, num vagão vazio. Apenas o trepidar do trem e o latejar da cabeça atrapalham meus pensamentos.
Definitivamente é muita informação para processar: em apenas um dia fui mandado para a capital da Nação do Norte, encontrei meu irmão mais velho que sumiu há quase dois anos sem deixar notícias, fui cercado por uma equipe da Força de Estabilidade Social, Clara chamou minha atenção e me pediu para mentir, fui atacado, sequestrado e interrogado, e acho que as luzes piscando e estourando só podem significar que meu talento de Controlador está se manifestando.
"Vivas pra mim, então". Eu rio, descontroladamente no vagão vazio. É o que eu faço quando fico nervoso. Daí a lâmpada na outra ponta do vagão explode e me assusto. Hora de parar e me acalmar. Finalmente o trem chega na estação e eu desço. Agora são só alguns minutos até em casa.
Minha casa cinza e silenciosa. Ficou assim depois que Billy se foi, há quase três anos. Eu nem lembro de como era quando papai estava aqui. Eu nem lembro do rosto dele. Mas ele se foi, para sempre, como minha mãe - amarga e vazia - costuma dizer.
Quando entro, passo pelo hall e ela está lá, na sua cadeira de balanço sentada, com um livro no colo, olhando o vazio, exatamente como todos os outros dias nos últimos anos. O cheiro de comida impregna o ar - ela continua uma ótima cozinheira -, mas a alegria de cozinhar e criar novos pratos parece ter se esvaído dela.
"Boa noite mãe"
"Boa noite Lúcio" - Ela continua olhando o vazio.
"Como foi seu dia?"
"Eu cuidei da casa, fiz compras, cozinhei para nós, fiz trabalho voluntário. E você?"
Essa é a resposta de todos os dias.
"Eu saí numa missão de campo, e vi o Billy".
Num salto, ela se ergue da cadeira, joga fora o livro e anda na minha direção. Pela primeira vez em anos eu vejo brilho em seu olhar. Ela me arrasta pra cozinha, serve água num copo alto e se senta na mesa. Faço o mesmo e lhe conto como foi o encontro com meu irmão.
"Eh...então ele quer que eu vá visitá-lo?"
"Pelo menos foi o que ele disse. Mas não disse muito mais".
"Então ele não desistiu da gente".
"Uh, desistir?"
"É. Achei que ele tinha desistido, e ido morar em algum lugar ermo e distante. Mas ele não está tão longe assim".
Nisso ela olha para o armário, ele se abre e pratos e talheres voam para a mesa. Há muito não via ela usar seu talento em casa. Meio que a tristeza o bloqueava. Saber notícias de Billy realmente deixou ela de bom humor. Hora de aproveitar a deixa.
"Hum, mãe, como foi que, hum, começou isso de ser uma Controladora?"
"Bem, é interessante já que perguntou. Eu não sabia que era uma Controladora, por que era difícil encontrar Controladores telepatas na Cidade das Pedras, que é de onde eu venho. A maioria dos Controladores de lá tem talentos ligados aos elementos. Seu tio Blásio por exemplo, consegue controlar o fogo. Então quando eu não manifestei nenhum talento ligado aos elementos até os 16 anos, todo mundo pensou que eu não fosse uma Controladora, mas ninguém ligou muito pra isso, já que minha mãe também não era Controladora, e geralmente se herda o talento da mãe. Foi por isso que passei horas e horas a fio com ela na cozinha aprendendo a cozinhar. Então um dia eu estava ajudando sua avó com uma torta, e deixei uma tigela com vários ovos caírem no chão. Eu lembro que gritei por medo dos cacos de cerâmica me cortarem, mas a tigela não caiu. Ela ficou flutuando no ar a uns dois palmos do chão, e duas lâmpadas estouraram, deixando minha mãe muito assustada".
"Que interessante". Eu mastigo com cautela os pedaços de frango e salada que ela serviu. Não é normal ela estar tão receptiva, nem tão falante assim. Não posso passar dos limites. "E como você soube que eu sou um Controlador também?"
"Bem, eu sou uma telepata. Quando eu te toquei pela primeira vez, quando você nasceu, algo "estalou" dentro de mim. É algum tipo de sentido-controlador que só telepatas têm. Por que, aconteceu alguma coisa?"
"Bem, acho que eu estourei algumas lâmpadas com a mente, entre outras coisas". Não vou assustá-la com o fato de ter sido sequestrado e interrogado. Isso é uma informação que precisa ser investigada, e minha mãe definitivamente não é a pessoa certa pra isso.
"Então você precisa de treinamento. Amanhã vou fazer uma visita a um amigo. Ele vai te treinar para aprender a usar seu talento com responsabilidade. Telepatas são raros, mas precisam ser treinados para não fazerem besteira".
Fico imaginando que tipo de besteira um telepata pode fazer, mas não preciso ir muito longe: lâmpadas explodindo já são uma boa ideia do que meu talento de controlador é capaz. Por um instante, vejo luz nos olhos dela. Parece que pelo menos por agora minha mãe está de volta.
Além da Terra Devastada. IV
Primeiro sinto o
latejar da cabeça, e aos poucos as sombras que vejo vão se tornando mais
nítidas. Estou em uma poltrona larga, confortável, na extremidade de uma sala
retangular, comprida. Na minha frente há uma mesa, baixa, e uma cadeira.
Sentada nela está um homem alto, forte com a barba por fazer. Seu olhar é
penetrante, como se quisesse ler algo em mim. Percebo que muita gente parece
querer algo de mim ultimamente.
“Olá”, ele diz,
cruzando os braços e se apoiando na mesa, ficando baixo, como um animal selvagem
prestes a atacar.
“Oi”.
“Espero que esteja
confortável”.
“Um pouco demais, até.
Não vai se apresentar?”
“Digamos apenas que
saber meu nome não vai tornar as coisas mais agradáveis, Lúcio”. Quando diz
isso ele desvia o olhar, e posso ver o piercing na lateral direita de seu
rosto, próximo à orelha.
“Pode pelo menos me
dizer o que eu estou fazendo aqui?”
“Você é muito exigente
para um auxiliar das Missões de 16 anos”.
“O que você esperava,
uma garotinha que vai começar a chorar e pirar quando ameaçada?”
“Na verdade não, sendo
quem você é”.
“E quem eu sou?”
“Ninguém, na verdade.
Você está no Templo, Lúcio, refúgio para aqueles que defendem o bem”.
“Agora defender o bem é
sequestrar auxiliares das Missões?”
“Não. Defender o bem é
enxergar a verdade por trás das mentiras que nos contam. E vai por mim, eu sei
muito bem quando mentem pra mim”. Ele se levanta rápido, e tira do bolso uma
seringa com um líquido transparente. Estou começando a odiar seringas.
“Bem, isso não vai
doer, só vai deixar você menos inibido, ok?”
“Quem você pensa que é
pra fazer isso comigo? Você é um louco!” Digo e me levanto, encarando ele nos
olhos, apenas a mesa entre nós.
“Isso não importa, na
verdade. Segurem-no”. Dois homens surgem por trás de mim e me seguram. Eu vejo
ele destampar a seringa e sinto a picada da injeção. Conforme os segundos
passam, meus membros relaxam e minha mente começa a ficar levemente enevoada.
É. Enevoada é a palavra correta.
“Vamos falar um pouco
de você, meu jovem. Como se chama, onde trabalha?”
“Eu me chamo Lúcio”. De
repente tudo flui de mim com uma imensa facilidade, como se não houvesse
necessidade de guardar nada pra mim, ou de mentir. “Trabalho na divisão de
missões humanitárias, na Cidade de Vidro, sede das Missões”.
“E você já fez alguma
missão de campo?”
“Sim, uma”.
“E qual era o
objetivo?” O objetivo. A Cidade do Norte. Meu irmão. Raylla. O Vortex. Alana. A
FES. Clara. Eu não posso contar a ele. Mas talvez deva. Afinal, não tenho que
guardar segredos. Guardar segredos deixa minha cabeça pesada, incomoda.
“Qual era o objetivo da
sua missão, Lúcio?”
O incômodo aumenta.
Preciso piscar os olhos várias vezes para espantar a dor que isso está se
tornando. Minha pulsação aumenta. Quando olho novamente para meu interrogador,
ele parece assustado.
“O que está acontecendo
Lúcio?”
“E-eu não sei, mas dói.
Faça parar”.
Então um espasmo
percorre todo meu corpo, a dor vira um zumbido, e preciso cerrar os dentes.
Seguro os braços da poltrona para me equilibrar, o zumbido aumenta e minha
pulsação acelera. Sinto o sangue fervendo nas minhas veias. A luz da sala pisca
intermitentemente. Sinto que vou explodir. Alguém tenta segurar meu braço, mas
é arremessado para longe, como se uma mão invisível o puxasse para trás. As
lâmpadas explodem, uma atrás da outra, e a escuridão toma conta do lugar. Meu
corpo para de tremer. Eu relaxo. Sinto uma pontada no braço, e apago.
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